Emicida @ Sesc Pinheiros (São Paulo – 22/08/15)

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Fotos: Sesc Pinheiro

Tudo escuro. Sentado no centro do palco, Emicida está com uma blusa de frio, com capuz que imita uma máscara tribal que esconde seu rosto. O figurino assinado pelo estilista João Pimenta traz uma calça solta e camisa larga. Os integrantes da banda entram dois a dois, cumprimentam-se e reverenciam a figura ali sentada. Como um rei das tribos africanas, Emicida fica quieto, apenas observando a tudo e a todos. Mostrando imponência e poder.

Tudo isso antecipa uma parte do show que está por vir. No primeiro acorde, todos se levantam e o show que foi visto por mim no mezanino no sábado, dia 22 de agosto, do Sesc Pinheiros, na segunda noite de lançamento de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, não pareceu tão distante. Emicida conseguiu aproximar até o público que se apertava nas cadeiras superiores.

O show foi dividido em partes, como o disco, com canções mais pop, como a parceria com Vanessa da Mata em “Passarinhos”, ou “Baiana”, que leva a voz de Caetano Veloso, e outros momentos mais pesados.

Primeiro Ato – Pesadelos

A primeira música, “8”, além de levantar a galera, mostrou que vinha peso por aí! A canção que relata o dia a dia de um jovem negro no país e com sample de “Negro Drama”, dos Racionais MC’s, também critica a situação do nosso país – algo que Emicida faz com maestria. Num momento onde os artistas são criticados por não falarem nada, e quem fala é calado (vide o que aconteceu com a nadadora Joana Maranhão), ele fala, sem medo de atingir quem não quer a mudança.

“Boa Esperança” vem sem intervalo e quem entra no palco é J. Ghetto (que também gravou a canção no álbum) e o público desaba. Daí para frente, é possível ver gente cantando todas as músicas, todas as rimas sem engasgar. As antigas ganham ainda mais força por estarem na ponta da língua de todos. Foi um êxtase! O momento emocionante viria em seguida. “Mãe”, homenagem que escreveu a dona Jacira, relata como ele era um menino “perdido”, que vivia “orgulhosão de andar com os ladrão” e ressalta a figura dela e das mulheres. Ao final da canção, entra a mãe de Emicida, toda vestida de branco e narra o poema final. Música seguinte? “Hoje Cedo”, a primeira de O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, na alusão literal com os “pesadelos” que dão nome ao disco.

Segundo Ato – Lições de Casa

Emicida para no centro do palco a passa a contar a experiência que teve quando visitou a África e conheceu um dos céus mais bonitos. Foi o céu a inspiração para “Madagascar”. Cheia de suingue, a canção lembra o romântico Carlos Dafé. A viagem foi uma imersão em suas raízes. “Mesmo sendo a primeira visita, me senti em casa”, disse durante a apresentação.

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O show dá uma amainada, mas não perde o ânimo. “Quando 18 pessoas são assassinadas na periferia e uma cidade faz silêncio, essa cidade também está morta”. E engata “Chapa”, uma das canções mais cantaroláveis, que fala sobre uma amizade com um “sumido”, que muita gente até achou que havia morrido. Ainda não havia acontecido a tal queda de um caminhão do Rodoanel em São Paulo. Um veículo estava em alta velocidade e acabou capotando. Três porcos que iam direto para o abate acabaram morrendo. O restante foi resgatado e foi para uma fazenda. Aqui, cito o escritor Férrez: “Sobre como periférico vale menos que porco. Um acidente em Osasco com uma carreta de porcos, 3 porcos mortos e em algumas horas 95.000 reais arrecadados. Chacina em Osasco e Barueri, 18 mortos. Nenhum valor arrecadado.” Vale repensar. Por ser um sambinha, “Chapa” ganha versos de Cartola em “Preciso Me Encontrar”.

“Viva a Bahia! Viva aos nordestinos que construíram essa cidade! São Paulo se esquece, mas a gente lembra eles assim…”. Chega a hora de “Baiana”, uma referência dupla à Bahia e às mulheres (baianas ou não). A música também ganhou uma sampleada com “Haiti”, de Caetano Veloso. Há tempos não vi um setlist tão bem construído. “Passarinhos” foi cantada em uníssono. O erro foi ter colocado a voz de Vanessa da Mata. Ana Tréa, que a acompanhava (muito bem, diga-se de passagem), poderia ter cantado a música inteira.

Terceiro Ato – Crianças e Quadris

“Tire-nos tudo, mas não nos tire a música. Sempre livre seremos se nos deixarem a música. Nos tire a vida, mas não nos tire a música”. Começa a terceira parte do show. Esta é apenas a parte final do poema recitado por Emicida, de Noémia de Souza, sobre a vida moçambicana. Dessa vez, as canções vão para a parte mais africana do CD. Vem “Mufete”, “Zica, Vi Lá”, “Nóiz” e “Triunfo”.

Entram no palco Drik Barbosa, Amiri, Muzzike e Raphao Alaafin para cantarem “Mandume”. Rico Dalasam, que está na faixa no disco, não pôde ir. A música é uma das mais interessantes do álbum, com crítica dura. O melhor é que cada participante imprime sua marca e ela parece ser várias e uma só ao mesmo tempo. Aqui, o mesmo erro de “Passarinhos” acontece. Como a base da música é tocada pelo DJ Nyack, o clima ficou meio estranho. Cantar ou não cantar? Ou deixa a música rolando? Minha defesa é que tudo seja ao vivo. A canção devia ter sido melhor desmembrada para o show. Os rappers convidados continuam no palco para a antiga africana “Ubuntu Fristaili”, e são apresentados deixando espaço para “Casa”.

Último Ato

A saída do palco é para o bis. Vem uma tríade pesada! “Rinha (Já Ouviu Falar?)”, que está na mixtape Emicídio, a tão aguardada “Levanta e Anda” e “Salve Black”, que finaliza o show com o clima super alto astral. Um detalhe: os músicos se despedem do palco com um “duelo de pandeiros” e a plateia cantarolando o refrão. Que show!