Emicida - Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Emicida
Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

Laboratório Fantasma

Lançamento: 07/08/15

Tá me ouvindo bem? Hein, hein, hein? Seu branco safado! Ninguém aqui é escravo de ninguém!

A inserção acima, recitada pelo escritor pernambucano Marcelino Freire na faixa “Trabalhadores do Brasil”, pode parecer agressiva, enérgica demais ou condescendente de menos, diria o “bloco do deixa disso” – os primeiros a levantarem que no país da miscigenação não existe racismo. Também os primeiros a se beneficiarem de uma estrutura feita para privilegiar quem têm pele clara. De cabo a rabo, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa tem como intenção não suavizar o discurso ainda que as sonoridades que encaminhem a mensagem se tornem mais brandas. A urgência da questão racial no tom do rapper paulistano transformou o tema em protagonista, e a proximidade com suas raízes africanas deixou o caminho mais plural em gêneros e formas de contar essa mesma história. Em qualquer faixa de seu segundo álbum, é certo dizer que Emicida cansou de eufemismos.

De cara, sua apresentação é menos tradicional que o rap de seu início de carreira. No lugar das bases eletrônicas e os beats mais clássicos sobre os quais fazia rinhas anos atrás, apresenta a pluralidade que começou a crescer em seu som desde o EP Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011). Os momentos mais ternos agora dividem espaço com genuínos intervalos que garantiriam a dança, herdados de Jorge Ben, música cubana e samba. Se para muitos a viagem ao continente africano, onde visitou Angola e Cabo Verde, o apresentou novas sonoridades que lhe permitiriam a mudança, o mais certo parece dizer que a visita apenas tornou concreto o desejo por expansão musical.  A verdade é que o rap nacional como um todo vem encontrando um modo menos sisudo de passar a mensagem adiante, vide os discos de Criolo e dos Racionais, os últimos finalmente abandonando o habitual hip hop dos anos 90 em direção a uma nova fase.

Envolto numa veia mais romântica e, talvez por consequência tão radiofônico como já mostrava ter capacidade de ser, traz “Mãe”, homenagem terna com participação da própria Dona Jacira; “Passarinhos”, uma reflexão em aberto sobre capitalismo e o lugar do preto no espaço urbano com refrão pop de Vanessa da Mata; “Baiana”, das mais diversas faixas de seu repertório até hoje, revezando percussões de olodum e um leve R&B infelizmente prejudicada por uma participação sem inspiração de Caetano Veloso, poucas vezes tão deslocado numa faixa desde “Funk Melódico”, de seu Abraçaço (2012). Aqui cabe parênteses também para a voz de Emicida, mais confortável em deixar as rimas por alguns momentos e se arriscar cantando nos refrões de algumas músicas. Fechando a ala mais serena da seleção, “Amora”, faixa composta para a filha, amarra a primeira parte do registro entre a crítica e o orgulho de raça, elemento que não esmorece na cultura negra nem diante dos piores tratamentos da sociedade.

É a segunda parte do registro, todavia, que revela as críticas mais contundentes de Emicida. Revirando subtemas que vão desde a negação de uma estrutura de beneficiamento aos descentes de europeus à parca ligação do brasileiro com suas origens, como as religiões africanas e a musicalidade do continente vizinho, o paulista constrói sólida ponte entre a periferia onde nasce o garoto negro, carente de modelos positivos de representatividade e o distanciamento de suas raízes – imposto por escolha de terceiros. Coincidentemente, as faixas onde se faz mais claro sobre essas questões são as que impõem sonoridades menos revolutas. Exemplificam: “Boa Esperança” e “Mandume”, onde dá espaço a Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin para versarem sobre suas experiências pessoais na faixa que fala sobre esperar que o negro se conforme com um lugar subalterno. Das melhores do registro.

Rejeitando dimensão de sermão, a suas letras costura boa parte das composições com recortes sobre cultura pop: Jogos Vorazes, os livros de fantasia de Rafael Draccon, o mainstream de Miley Cyrus e Lady Gaga e outros. Nesse âmbito, talvez ao tentar trazer suas palavras a um campo reconhecível, escorrega ao colocar referências demais em suas faixas, onde algumas linhas de raciocínio são cortadas de súbito por alguma citação – recurso melhor usado por Criolo em Convoque seu Buda (2014). Ainda assim, consegue alocar muito bem assuntos e passear largamente confortável com voz de quem não apenas vive o que prega, mas também compreende o impacto de seus versos numa população negra mais jovem. As sonoridades de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa expandem também seu público e garantem caráter mais amplo à musicalidade que lhe cerca, sem deixar de lado ou enfraquecer convicções.

Enfim, Emicida cansou de ver negros de menos na universidade, de ver o trabalho com menor remuneração realizado por pessoas de cor e de responder que rap não é moda. A essa altura, ele espera que você também.