Gal Costa - Estratosférica

Gal Costa
Estratosférica

Sony Music

Lançamento: 22/05/15

Existe um movimento, tanto de crítica quanto de público, que espera pouco de artistas consagrados. Uma mescla de desinteresse pelo que de novo esses músicos possam apresentar, baseado na premissa de que jamais conseguiriam superar suas próprias produções durante os anos de auge criativo; com a contínua impressão de que esses artistas vivem da auto referência, em suma, reviver velhos arranjos com letras ligeiramente diferentes. Em 2011, a límpida voz de Gal Costa mais uma vez buscou refúgio nos versos do velho companheiro Caetano Veloso nas letras que deram corpo à Recanto, o conteúdo – entretanto, surtiu efeito diferente. Uma das cantoras de timbre mais tradicional da música brasileira repaginou arranjos e usou voz e letras para exaltar um novo protagonista: o eletrônico invadindo suas interpretações. Recanto era tão diverso em suas sonoridades que não só (re)apresentava a cantora à um público que talvez não a conhecesse além do nome, como mandava recado a quem considerava finda sua discografia. Esperando da interprete apenas relançamentos e lados b de canções empoeiradas.

Recanto, apesar do inegável frescor, não teve o melhor dos acabamentos. Sobravam momentos em que Gal parecia encurralada pelos arranjos que ela própria aprovou, uma voz que por mais que tentasse demonstrar naturalidade com as evoluções de Kassin, menos parecia encontrar relações de conforto com o cenário que a envolvia. A turnê de divulgação do álbum – também dirigida por Caetano, todavia, descobriu meio termo assertivo entre o que se considerava “o novo” e a ancestral cantora dona de suas apresentações, nada necessária de mudanças plásticas. No último Estratosférica (2015), mais recente registro onde a baiana se aproveita de nomes como Mallu Magalhães, Céu, Tom Zé e outros compositores que só seu nome seria capaz de reunir, tenta tornar clássicos os ineditismos, seguindo uma cartilha que preza pela parcimônia desta vez. Assim como nas referidas apresentações, divide-se entre uma ou outra ousadia sonora e os ritmos tradicionais, como samba, bossa nova e a MPB.

Estratosférica se abre gigante, demonstrando plena consciência do ostracismo que a crítica lhe impôs em parte dos anos 2000, quando deixava clara a admiração pelo fôlego em continuar com a agenda de shows ativa, mas sempre a pondo à sombra de sua persona da década de 60 e 70. Em tom incansável e um tanto provocador, evoca o rock de Erasmo Carlos na abertura “Sem Medo Nem Esperança”, avisando que a relevância de seu legado é contínua e só finda com o termino de seus dias em excelente composição de Arthur Nogueira e Antônio Cícero. O que se segue daí, na primeira metade do registro, é um desfile de boas faixas que apresentam a intérprete sob uma camada de contemporaneidade que satisfaz fãs da Gal quase mito, mas também dos que aplaudiram a renovação de seu repertório baseado nos experimentalismos de Recanto. Um provável equilíbrio de forças entre a produção de Moreno Veloso e suas relações com nomes da dita “nova MPB” e Kassin, que quando dosa a proporção de suas inventividades sem descaracterizar seus artistas trabalha bem.

Exemplos dessa coragem que reclama para si nome tão grandioso surgem na balada psicodélica “Jabitacá”; na irrepreensível faixa-título, mistura de ritmos quentes, como as guitarradas e os metais explícitos com bases eletrônicas sutis – detalhe a mais pra fazer sorrir em mais uma canção tropical de Gal Costa. O álbum perde tamanho, no entanto, quando deixa de se desafiar e abraça o conforto. Entenda por isso, não necessariamente uma vontade constante de impressionar de algum modo, mas de simplesmente se atirar na segurança que os bons colaboradores poderiam lhe trazer. Desse grupo, a bossa “Ecstasy”, tipo de canção que João Donato escreve com as mãos nas costas é tão atemporal que chega a parecer deslocada no tempo, envelhecida pela poeira de um gênero que não se renova há décadas apaga parte da intenção do disco em se fazer novo. A esquecível “Muita Sorte”, apesar de tentar alguma relevância com bases experimentais é outra que decepciona tentando lançar um samba eletrônico que muito se assemelha à dezenas de outras cantigas populares já gravadas pela baiana.

Retoma os bons momentos quando compreende que não precisa ser guiada pela renovação constante, às vezes, só a economia da voz da protagonista quando encontra uma boa canção para interpretar são suficientes; como na dobradinha “Espelho D’Água” de Marcelo Camelo e “Quando Você Olha Pra Ela”, sambinha de Mallu Magalhães; também mais adiante na doce “Amor Se Acalme” contribuição de Arnaldo Antunes e Marisa Monte. Nenhuma delas apresenta grandes singularidades nem em seus arranjos nem em letras, mas exibem de alguma forma a beleza que se espera em um registro do gênero.

Contextualizando as mudanças que trouxe em seu álbum anterior, Gal Costa traz no atual registro uma melhor formatação do que é para sua persona a renovação. Não só a associação à movimentos de vanguarda, e a agressividade do experimentalismo, mas também uma aproximação do mpb pop de artistas que influenciou e que agora a ajudam a tomar de volta para si a expressão. Em Estratosférica (2015) há, claro, certo desejo em se provar atemporal. Espécie de voz que nunca se cansa, de registros que transformaram seu nome em selo de qualidade incontestável. Gal, simplesmente; como nos discos  Fa-Tal  (1971) e Gal Costa (1969). Reencontrar na grandiosidade do próprio nome a relevância que fará com que os ouvintes ouçam na mesma medida seus momentos áureos de décadas atrás e os álbuns que agora produz beirando os 70 anos de idade não são tarefas simples, e por isso a cantora se agiganta da fotografia da capa ao nome de batismo do novo álbum, procurando à medida em que puxa a si mesma ao limite continuar sendo, como ela mesma cantava quando era Fa-tal.

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