Rodrigo Amarante - Cavalo

Rodrigo Amarante
Cavalo

Independente

Lançamento: 17/09/13

Não se questiona as opções do artista. Ou se é conquistado por elas ou não. Ao não ser conquistado, você pode compreender ou não também as escolhas daquele que criou a obra. Cavalo, disco de estreia de Rodrigo Amarante, esse que dispensa apresentações, é um desafio. Não parece querer te conquistar. Logo, não usa de carisma, e não se mostra muito interessado por sua compreensão, sendo pouco acessível para aquele que não busca visitar o íntimo, dessa vez tão codificado, do artista. O álbum funciona como uma foto tirada para si mesmo. Uma imagem de porta-retrato guardado no armário daquele que a estampa.

A entrega de Amarante não é clara para um simples ouvinte que coloca suas músicas para tocar e deveria se contentar com isso: é necessário ler o que o autor tem a dizer em cartas que postou em seu Facebook, é preciso ler suas entrevistas, matérias que explicam o processo de criação das canções. Isso porque a arte não fala por si só. Se fala, para quem gosta da abrangência infinita, diz o profundo de maneira tão individual, que faz sentimentos sinceros e honestos soarem pretensiosos. Esse defeito é o veneno do disco, basicamente. E Amarante, que refletiu e sentiu a prejudicial ação publicitária sobre a música, algo que existe desde muito tempo, poderia ter se apegado ao lado bom da publicidade, onde se usa coesão ao transmitir uma mensagem. Mas não, ele fez sua música e a vende para nós sem se importar se ela se faz compreensível, adorável ou ao menos interessante.  Um risco que ele resolveu correr.

Sem questionar sua opção, assim como um dia o Los Hermanos abandonou “Anna Júlia” para que desse atenção ao novo que tinha a apresentar, Rodrigo, em seu trabalho solo, abandona sua ex-banda quase por total – pouca sombra do quarteto é vista em Cavalo, e o artista não tocou músicas do antigo grupo em seu novo show (apesar dos pedidos). E isso não é necessariamente prejudicial, nem ele abandonar a alegria da Orquestra Imperial ou o ar descolado do Litte Joy. Não se trata de ser saudosista ou de ter expectativas quebradas – ainda que sim, eu gostaria de ver um Amarante com um trabalho encorpado e revigorante – mas de ter em mãos um disco que promete a entrega sentimental do artista, que fala de solidão, saudade e tristeza, mas que fala de forma tão preguiçosa que chega a soar egoísta. Rodrigo Amarante parece ter feito um disco somente pra si, gravado de maneira tosca em garagens e quartos, mas sem a parte cool disso.

As canções mais cruas não possuem o ar intimista, por exemplo, dos trabalhos mais recentes de Marcelo Camelo e algo que esse fez produzindo Vazio Tropical, de Wado. Não possuem aquele brilho da simplicidade sincera, mesmo que sendo momentos silenciosos. A maioria das faixas de Cavalo se mostra apenas preguiçosa e quase pode ser vista como “demo”. E a repetição que persiste, na forma de cantar tão linear de Amarante, sem grandes nuances nas melodias, sem arranjos melhores elaborados (ou ao menos mais caprichosos), sem harmonias que surpreendam, só auxilia no sonífero que o disco pode se tornar. Porém, quando a fórmula não é esse quase total silêncio, como acontece em “Maná” e “Hourglass”, temos é a sensação de que o álbum é apenas uma coleção de músicas que o artista juntou ao longo dos últimos anos, que não formam bem um conjunto, apesar de ele afirmar o contrário. Formando-se, assim, um silêncio criativo – não pela forma criativa de silenciar, mas por calar a criatividade mesmo.

Sendo Rodrigo Amarante o artista talentoso que é, não deveria nos propor, como desafio, encontrar belas canções perdidas nesse conjunto disperso que é Cavalo. Mas é o que acontece. “The Ribbon” é belíssima e melancólica, e “Nada em Vão”, que abre o disco, dá uma boa impressão que é mal aproveitada no restante – ou, quem sabe, a fórmula é tão reaproveitada, seguidamente, que se dilui, e mostra um arranjo preocupado com curvas e evoluções.

Ainda que me importe as razões e os sentimentos por trás de cada canção, e é o que mais importa, fica difícil se sensibilizar com a solidão do artista, ou sua releitura de um personagem de uma música de Caetano Veloso, ou mesmo a música que fez em homenagem ao falecido amigo poeta, quando a sua obra fica tão reclusa que me impede de entrar em contato com os seus valores. Só o que enxergo é um rascunho cheio de rabiscos desconexos e obras cheias de poeira sobre aquilo que deveria reluzir. Não há charme algum no desinteresse de Amarante em se mostrar assimilável.

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  • Danilo

    Eu até que achei maneiro, esse disco. Bem mais experimental, pode parecer mal gosto, mas ele lá deve ter suas próprias razões. Eu acho que às vezes o artista tem essas de fazer umas paradas mais introspectivas que só fazem significado para ele, não julgo o cara por causa disso. São fases.

  • Thaís Cristina Souza da Silva

    Que resenha maravilhosa. Somente verdades.

  • Thaís Cristina Souza da Silva

    Engraçado que todo mundo achava que o Camelo e o Amarante estavam criativamente distantes no 4 (Camelo estava cada vez mais melancólico, e o Amarante com músicas mais vibrantes, tipo Little Joy), mas olhando os últimos lançamentos dos dois (Camelo com Mormaço, e Amarante com Cavalo) a figura quase que se inverteu, né?

  • Joana Pinto

    Curti a música “Maná”!