Rolling Stones – Hyde Park (Londres, 06/07/13)

Não é todo dia que se consegue planejar uma viagem para Londres em pleno verão europeu. Ainda mais raro é pegar os Rolling Stones em turnê. E quando essas duas probabilidades se formam diante dos seus olhos, na mesma época, é o universo gritando pra você: “aproveite, porque isso não vai acontecer de novo, cara!” Assim, “encarei” a “missão” de pegar um show que já nascia histórico: Stones no Hyde Park, 44 anos depois do seminal e até então último show da banda em um dos parques mais emblemáticos de Londres.

Claro, foi de chorar. Literalmente.

Mas antes, um pouco de contexto: a performance fazia parte de um dos dias do British Summer Time, megafestival do verão britânico que ainda teve/terá shows de Bon Jovi, Elton John, Lionel Richie (?), Ray Davies, Elvis Costello e Beach Boys, entre outros. No dia em questão, sábado, 6 de julho, as atrações eram Palma Violets, Temper Trap, Vaccines e outros nomes que, se colocados em outros festivais, com bandas de porte “parecido”, poderiam ter chamado a atenção – mas não em um dia que terminaria com Mick Jagger berrando que não consegue se satisfazer. Os outros nomes eram coadjuvantes, e sabiam disso.

O evento em si era de deixar brasileiros acostumados a Lollas e Terras da vida boquiabertos. Entre pegar ingresso no “guichê”, validá-lo, passar pela segurança e entrar na área do festival não se passaram 10 minutos. Uma vez lá dentro, o que se via era um clima de exaltação a um escaldante sol inglês, motivo de alegria para os habitantes da cidade, que não pensavam duas vezes antes de tirar sapatos e camisas e se jogar no gramado com uma cerveja na mão. Para comer, as opções eram inacreditáveis. Uma verdadeira feira gastronômica, com inúmeras opções. Muitas. Mesmo. De todo o jeito. De todo o lugar. Fancy an ostrich hamburger? Na hora. Comida orgânica? Claro. Gordices típicas de algum país? Era só escolher a bandeira. Resumindo, já seria um sábado incrível no parque de qualquer forma – mas esse tinha o “plus a mais”: Rolling Stones comemorando 50 anos de carreira.

E aí, é um daqueles shows infalíveis. Mesmo com andamentos mais lentos em algumas canções, o que se via era provavelmente uma das últimas “bandas unânimes” ainda na ativa. Você não encontra ninguém por aí dizendo que odeia Rolling Stones. Digo, você encontra. Mas entende o que quero dizer? Em algum momento da vida, a maioria das pessoas parou o que estava fazendo para ouvir “Jumpin’ Jack Flash”. Qual aprendiz de guitarra nunca ficou intrigado com as afinações que Keith Richards usou para compor vários dos riffs mais famosos da história? Como passar incólume a “Gimme Shelter” em Os Bons Companheiros?

No palco, os vovôs deram um banho em muita gente com um terço de suas idades. Jagger simplesmente não para. Dança, rebola, toca guitarra, canta como nunca, troca de roupa várias vezes. Enfim, o frontman rockstar definitivo. Já Keith Richards anda em marcha lenta. Não que ele precise provar alguma coisa pra alguém, mas a idade chegando é visível, tanto que na primeira metade do show quem pega as principais linhas de guitarra e solos é Ron Wood, que mostra vitalidade e técnica impressionante durante o set. Já Charlie Watts desacelera o ritmo e conduz os Stones com calma e elegância. Afinal, pra que a pressa em pleno 2013, sendo que você já faz parte de qualquer enciclopédia do rock que se preze?

O setlist, obviamente, é enfileirado com um hit atrás do outro. Só pra ter noção, a trinca i-n-i-c-i-a-l é composta por “Start Me Up”, “It’s Only Rock n’ Roll (But I Like It)” e “Tumbling Dice”. Tá bom? Também vale citar a novata “Doom And Gloom” e a belíssima “Miss You”, que criou um clima de fim de balada dos anos 70, com o baixista Darryl Jones disparando slaps e solos cheios de groove. Dali pra frente, era só mimar mais um pouquinho as quase 70 mil pessoas e pronto: mais uma apresentação no currículo deles, e “O show” da vida de quase todo o resto. Como se precisasse, o público ainda viu participações especiais do grande Mick Taylor (guitarrista de uma das fases mais brilhantes da carreira do grupo) e Gary Clark Jr.

Depois de emendar “Gimme Shelter”, “Jumpin’ Jack Flash”, “Sympathy For The Devil” (com “woo-hoos” entoados pela plateia i-n-t-e-i-r-a, num uníssono de arrepiar) e “Brown Sugar”, o grupo saiu de cena e retornou logo em seguida para completar a missa roqueira iniciada há mais de quatro décadas, naquele mesmo lugar. “You Can’t Always Get What You Want” começou o bis e encontrou uma divertida ironia no ar: naquele momento, vendo os bloody Rolling Stones a metros de distância, com o sol do verão europeu ainda brilhando, o pensamento coletivo era basicamente o oposto do título da faixa.

“Satisfaction” fechou a performance de forma história. E a sensação era de que não importava se você já ouviu a música em questão 20000 vezes; se a vez de número 20001 vier da fonte de origem, é ela que vai ficar estocada na memória. Ainda mais quando é sucedida por fogos e outros artifícios visualmente impactantes. E aí, não teve pra ninguém. Lá na frente, os Rolling Stones agradeciam a presença. No restante do Hyde Park, as lágrimas invadiam o rosto até do do mais durão dos hooligans.

Uma hora após o último acorde, descendo meio que sem rumo a Oxford Street, ainda era possível ouvir os tais “woo-hoos” de pessoas aleatórias ao redor. Estavam todos, sim, satisfeitos.

  • Thaís

    nossa, cara :~~
    que lindeza

  • k ano é hoje?

    Elvis Costello, Beach Boys, Lionel Ritchie