Sam Amidon - Bright Sunny South

Sam Amidon
Bright Sunny South

Nonesuch

Lançamento: 14/05/13

Existe um nível de interpretação de uma canção que transforma essa simples reprodução em uma nova música. Isso para Sam Amidon é o “feijão com arroz”. Não chamá-lo de compositor é uma injustiça, visto que seu trabalho em recompor canções (coisa que vem fazendo em discos desde 2007) tem sido altamente dedicado e trabalhoso. Seja nas tradicionais e folclóricas, ou em releitura pop, Amidon tem mostrado ao longo dos anos que composições podem receber versões inesperadas que mais esperávamos e nem sabíamos.

O cru All is Well, de 2008, fez Sam Amidon subir degraus em sua exposição e, até então, é o seu melhor disco. O bom I See The Sign, que surgiu dois anos depois, não tirou o trono desse, e o seu mais novo lançamento, Bright Sunny South, também não ameaça derrubá-lo – mas não o faz pouco brilhante.

Sempre com climas delicados e íntimos, o músico estadunidense busca inspiração nas raízes da música americana para construir suas leituras. Não se trata de fazer versões pasteurizadas ou criar peças para receber holofotes do público: Amidon parece querer costurar as canções escolhidas trançando veias, aquelas que sustentam a composição original com a sua própria ousadia e inteligência para construir arranjos tão sensíveis e orgânicos.

Com sua característica voz em primeiro plano e quase nada além de um violão, o disco abre com a faixa que dá nome ao disco e que conta, de forma bem melancólica, a história de um rapaz que parte para a guerra. Kenny Wheeler, importante trompetista canadense de 83 anos, participa da segunda canção, também melancólica e líquida, com um clima jazz bem arrastado, e na quinta música do álbum, a silenciosa “He’s Taken My Feet”.

Amidon é quem desenha a terceira faixa com seu violino e clima soturno. Mas logo esse clima faz uma pausa para que a iluminada “My Old Friend”, um dos registros do ano, se faça presente. A versão da música do cantor country Tim Mcgraw ganha sobrevida nas mãos de Amidon – muito mais rural do que a original, ela se mostra mais verdadeira e honesta, ainda que isso pareça não fazer muito sentido. E é isso que as releituras presentes nas obras do músico parecem fazer com nossa cabeça. O que ele poderia fazer por uma música gravada por Mariah Carey, por exemplo? Ouça a versão inesperada para “Shake it Off”, hit da cantora, feita pelo artista nesse seu novo trabalho.

O bluegrass de “As I Roved Out” é outro destaque, onde a voz de Amidon rasga de forma impressionante ao lado de seu tradicional banjo. A bela “Streets of Derry”, uma tradicional canção irlandesa levada ao violão e violino, encerra o álbum ao lado de “Weeping Mary”, tema do folclore americano que já tinha sido gravada pelos pais do músico no final da década de setenta – para sua versão, Amidon contou com Doveman, parceiro de outros discos seus, que também já trabalhou com The National, Antony and the Johnsons e Bebel Gilberto. Carregada por sons de órgão e distorção de guitarra, os três minutos são marcados por um clima etéreo, onde a voz caminha até de forma independente, trazendo estranhamente um clima cinematográfico à música – algo mais amplo do que o artista costuma trazer.

Sam Amidon transcende aquilo que o faria ser apenas um compositor de arranjos – ele compõe climas, substitui sensações, adiciona sentimentos e cria novas canções a partir do que já existia. Em Bright Sunny South ele só reafirma isso e vai, aos poucos, se reinventando. Não há muito o que inventar quando você se foca em uma certa identidade, mas ele ainda pode experimentar mais e vem fazendo isso aos poucos. A cada novo disco, desde All Is Well, o músico adiciona texturas, elementos, instrumentos e possibilidades. O tiro certeiro, dado lá em 2008 nesse disco citado, não parece ter sido disparado novamente, mas a mensagem é que ele está próximo de chegar. Esse “raspão” não é nem perto de doloroso – é adorável e admirável. Sendo assim, que Amidon dispare na velocidade com que dedilha seu banjo.

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