Schoolboy Q - Oxymoron

Schoolboy Q
Oxymoron

Top Dawg

Lançamento: 25/02/14

Rappers costumam dar boas histórias em tela grande. 50 Cent, Eminem e Tupac, entre outros, já tiveram suas trajetórias (romanceadas ou não) sendo vendidas em letreiros de cinema. O alemão Quincy Hanley provavelmente daria bom material de roteiro em Hollywood: de uma imigração ainda criança, passando pelo vício em drogas pesadas do tio presenciado desde a tenra idade, uma temporada como atleta profissional de futebol americano, desembocando numa prisão por tráfico de drogas. E em Oxymoron, Schoolboy Q usa suas experiências na criação de um álbum que poderia muito bem ter tom conceitual, usando alegorias que escondessem o compositor como personagem principal, ou a ilustração de um personagem qualquer, nascido no Sul da Califórnia e sugado pela única opção que lhe parecia realmente interessante: a vida de gangster. Escolhe a livre criação e o simples ato de tomar o microfone como meio de relatar o muito que lhe aconteceu, em seu lugar.

Sai a simplicidade das gravações e adentram samples mais elaborados, seguindo – claro – o bom faro de Quincy para as instrumentações densas e de polimento lisérgico, um possível resultado de sua entrada na gigante Interscope, gravadora de 50 Cent, Azealia Banks e do parceiro Kendrick Lamar. A melhor organização de ideias de Schoolboy e o acabamento mais redondo do álbum cobram seu preço, entretanto, com o atraso na liberação dos samples usados nas faixas de Oxymoron, roubando dois anos do tempo que separa Habits & Contradictions (2012), álbum que apresentava o rapper como “next big thing”, do atual momento. Neste curto espaço de tempo, Kendrick Lamar viu seu good kid, m.A.A.d city ser sucesso de crítica e público, Channel Orange, de Frank Ocean, elevado ao status de clássico contemporâneo, além do retorno de Eminem em The Marshall Matters II, um conjunto de discos que logo distraiu os ouvintes de Schoolboy, levando- os à correnteza de álbuns com interessantes profundidades e digestão lenta, ao passo em que soterrava o último lançamento de Quincy na pilha dos “apenas” bons discos.

Paciência testada, Oxymoron reapresenta Schoolboy num ambiente que não apenas delimita sua temática e interesses, mas cria uma identidade mais delineada de quem é sua persona num vasto campo de versadores em guerra pela atenção do público. Bom resumo do enredo que norteia o álbum é “Collard Greens”: mulheres nuas, sexo e drogas sintéticas – a última é usada não apenas nas letras do registro, mas servindo, inclusive, como dispositivo estético. A voz empastada de Schoolboy se intercala em camadas e as batidas que lhe seguem mudam subitamente de velocidade. Entre o relaxamento e o susto da paranoia, costura suas sonoridades determinando o que parece mover-se no ritmo dos estágios de suas viagens. “Studio” é outra das mais simples e melhores composições do álbum, usando da timidez como ponto de partida e desembocando no sexo explícito. É um daqueles estudos do rap que une amor a sexo da forma mais inconsequente possível. Afasta a ideia pura de amor, destituída de qualquer apelo sexual e o coloca como realização carnal e palpável: “No methaphors, nothing like that, I’m keeping it straight to the point with you. Imma put this dick up all in-side-of-you”. Mais claro, impossível.

À medida em que o álbum avança, cresce a complexidade na fresta que nos é apresentada como a vida de um gangster. E aí, Schoolboy refina seu olhar e usa de modo inteligente a restrição que se impôs na criação sonora de um fundo musical com impressões psicodélicas. Estaríamos diante de um álbum confessional ou do produto das impressões turvas de um homem que usou substâncias demais para que pudesse se lembrar de certos acontecimentos? “Prescription/ Oxymoron” é particularmente dolorosa nesse ponto, com a participação da filha do cantor numa faixa que relata os constantes apagões que as drogas prescritas lhe causavam.

A leveza e defesa de pontos de vista, como simplesmente curtir numa festa, dão ares menos densos ao registro, mas as melhores faixas residem em momentos que geralmente contam como o rapper quase saiu da curva: de “The Purge”, com participação do embaixador de uma Nova York pútrida, Tyler, The Creator e o veterano Kurupt , ao uso do imaginário de um ouvinte que aproveita os sussurros de mulheres na base do sample para criação de um fictício bar que tenha servido de inspiração para “Hell Of A Night”.

Oxymoron não parece o melhor que Quincy é capaz de fazer, mas deixa seus objetivos um pouco mais claros: cai por terra o status cool de “artista a se prestar atenção” e apresenta-se um conjunto de faixas sem escorregadas, ainda que às vezes sem tanto brilho. Devem cessar também as comparações com seu parceiro de coletivo, Kendrick Lamar, já que Schoolboy ainda não se preocupa em fazer um álbum tão conciso quanto a última criação do californiano – dois artistas juntos pelo acaso de um mesmo gênero, como Ocean e Tyler, mas envolvidos em momentos muito opostos de uma carreira. Por ora, distribui rimas em samples de artistas como Portishead e Chromatics (todos de ordem letárgica, em maior ou menor escala) para balançarmos a cabeça. Estabelece pontes com o rap dos anos 90 de Snoop Dogg, entre o aproveitamento de uma tarde fumando com os amigos e os relatos de sua vida de gangsta. Mas entre pérolas impossíveis de se ignorar, como “Collard Greens”, “Studio” e “Prescription”, fica o cheiro de uma capacidade maior que a apresentada. Se Schoolboy vai se limitar à ode à maconha, como seu ídolo acabou por fazer, ou alargar o espaço para a escuridão que avistou por vezes nas ruas, é questão de esperar para ver.

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