Solange - A Seat at The Table

Solange
A Seat at The Table

Saint/Columbia

Lançamento: 30/09/2016

Viver sob a sombra de uma personalidade gigantesca pode acabar atrapalhando o processo de formação de uma identidade própria. Solange Knowles tem uma vaga ideia do impacto disso sobre sua musicalidade. Falta de voz não era exatamente o problema, mas do início da carreira em Solo Star (2002) – álbum de um pop comum e pouco impactante, ao ligeiramente mais cativante R&B de Sol-Angel and the Hadley St Dreams (2008); as intenções musicais da irmã caçula de Beyoncé nunca pareceram muito claras. As bruscas mudanças de gênero e escolha de produtores/compositores de seus álbuns remontam um raro movimento de uma artista que foi encontrando seu nicho enquanto trabalhava. Se o surgimento de Solange parecia uma confusa tentativa de colar uma marca, hoje em A Seat at The Table, apresenta-se o mais claro – e rápido – exemplo de onde seu crescimento a trouxe: um registro que reafirma individualidade e incorpora visões/histórias à narrativa da luta da mulher negra norte-americana.

Representativa das bases sobre as quais Solange constrói seu álbum, a abertura “Rise” é puro simbolismo como introdução a esses temas. Espécie de mantra em que repetidas vezes fala em mergulhar em si mesma para encontrar sua verdade, estabelece em uma tacada só a diferenciação necessária para que se faça respeitar como artista individual – evitando comparações que não lhe fazem jus; ao passo em que também versa sobre reconhecer a própria negritude como parte de sua narrativa e nela encontrar expressão. Endossando seus pontos de argumentação as interludes do álbum dão mais substância a seus pontos de vista, seja em “The Glory is in you”, introdução em que um amigo da família fala em não buscar aceitação externa, mas encontrar sucesso na satisfação do próprio trabalho; ou das explanações da própria família de Solange em “Dad Was Mad” e “Tina Taught Me”. Existe qualquer espécie de cansaço em ter de reexplicar mais uma vez questões como o absurdo do “racismo reverso” e da errônea interpretação do orgulho negro pela supressão da cultura branca. Este é um disco que relutantemente acena a quem não entende essas questões, mas que não pretende redesenhá-las e educadamente convidá-lo à conversa se a postura do ouvinte for de reticência.

Nas sonoridades, uma atração à parte. Depois de se aventurar no pop, R&B em moldagens clássicas dos anos 60 e no new R&B de True (2012) – que trouxe o gênero de volta à apreciação em todos os discos capitaneados por Dev Hynes, naquele ano; o presente registro traz o easy listening de sons em sua maioria calmos, mas de várias maneiras entranhados na cultura negra norte-americana. O soul do fim dos anos 90 e início dos 2000 de discos como os de Erykah Badu e Alicia Keys, em cortesia da produção de Raphael Saadiq, em algumas das faixas.

Solange evidencia a estrutura atual de sociedade que permite nunca haver uma forma satisfatória de expressar o descontentamento diante do racismo. O protesto agressivo de figuras notórias como X assustam a população branca, a declaração pacífica, mas incisiva de Colin Kaepernick é vista como desrespeito. É nessa seara em que “Mad” – definitivamente uma das melhores do álbum – faz mais sentido. Tratando de estereótipos como a “angry black woman” usada para ridicularizar o povo negro e atá-lo a posições de insatisfação, que numa perspectiva caucasiana pouco fazem sentido, a compositora usa este absurdo de ter que justificar sua frustração num sistema que dizima seu povo e ridiculariza seus protestos. “Don’t Touch My Hair” fala da expressão da beleza através do uso de símbolos, como o empoderamento através do cabelo afro e em como o elogio dos brancos à questão vêm sempre carregado de um tom jocoso, adjetivação de ~exótico~, à primeira oportunidade.

Há um entendimento por parte da cantora também ao saber que assumir um posicionamento cobra seus débitos. Seja Janelle Monáe que após o sucesso de “We Are Young” ao lado do Fun, enfrentou críticas a seu cabelo, roupas, sexualidade e um mundo de assuntos que não deveriam interessar à meros consumidores de música, ou mesmo Beyoncé que após o lançamento de Lemonade (2016) riu da campanha que pedia boicote à suas músicas e shows devido ao conteúdo de seu álbum. Antecipando essa rejeição, Knowles faz questão de ressaltar no interlude “For Us By Us” e na subsequente “F.U.B.U.” que não há problema em não querer consumir o que ela tem a dizer, talvez a mensagem não seja endereçada a você, mas saiba que se relacionará com um mundo de gente.

Reforçando referências que vão de Herbie Hancock à Raphael Saadiq e criando uma celebração à negritude, A Seat at the Table amplia o espaço artístico que a cantora já havia reivindicado em True, e assume de vez compromisso com a renovação constante de suas sonoridade. Ao mergulhar na cultura e raízes de sua família, redefine identidade. Em seu auge artístico Solange pode se dar ao luxo de dispensar o reconhecimento de um público para se bastar sozinha como fiel à própria individualidade.