Sharon Jones & The Dap Kings – Give the People What They Want

sharon jones

Por Allan Assis 

Os backing vocals, trompetes e a sonoridade grandiosa da fôrma criada nos anos 60 e 70 pela Motown e seus associados estão de volta comandados pela voz da americana Sharon Jones e sua banda de apoio The Dap Kings, grupo que basicamente cria canções no presente preenchendo lacunas do passado, peças que facilmente se encaixariam em coletâneas soul de décadas atrás sem que houvesse o mínimo conhecimento de que foram lançadas recentemente. O presente Give the People What They Want , sexto álbum da carreira do grupo, traz nas letras os temas que moldaram o soul e r&b clássico:  das separações/declarações de amor à crítica social que distancia os objetivos da realidade do americano negro.

Embalado por uma triunfante aura de missão cumprida Give The People vem como  raspa do tacho de 2013. Originalmente gravado no ano anterior e engavetado após Sharon descobrir um câncer pancreático no estágio II, o álbum não traz faixas de superação à doença  em sua temática – como é de se esperar, entretanto -, já que a cantora preferiu esperar terminar seu tratamento para que o disco fosse lançado juntamente a uma turnê de divulgação, que começa a se confirmar. Recuperada do susto, Sharon apresenta o que de melhor sabe fazer na indústria, desde antes de o boom do retorno do r&b estourar no início dos anos 2000, com Amy Winehouse como seu nome principal.

Abre o disco “Retreat!”, canção da mulher ferida que toma consciência dos abusos de seu homem e só vê fim justo para o relacionamento por meio da vingança. Como em outros registros, Jones, revela além de sua evidente capacidade vocal, o insubstituível poder de interpretação de suas faixas: raiva, arrependimento e repúdio nas mínimas inflexões de sua voz. Segue “Stranger to My Happiness”,  ecoando Diana Ross e as Supremes, numa rápida ponte aos grupo femininos de época, uma quase aula sobre o efeito da voz principal numa faixa e a dimensão que a torna tão grande graças a suas backing vocals.

O delicioso doo woop “We Get Along”, possível repertório de um Temptations, destila simplicidade num cenário onde basta “se entender” para formar um casal. Cumprindo a parcela de canções sobre corações  partidos e voltas por cima, referência recorrente num gênero que deu a luz a discos como o vingativo Here, My Dear (1978), de Marvin Gaye, surgem “You’ll be lonely” e “Now I See” , prometendo que o futuro há de ser justo com aqueles que caminham sobre corações.

Há quem reclame que Sharon se beneficia do espaço vago no r&b com peso funk para criar peças que se encaixariam perfeitamente quatro décadas atrás, lançando olhos para a ausência de “inovação” em seu som e exigindo algo parecido com a criação de Damon Albarn na produção de The Bravest Man it the Universe, de Bobby Womack. Entretanto, a intenção simplesmente não parece ser a de criar um som com ecos modernos e pé na Motown, mas sim de tocar o que seria o resultado de canções retiradas de uma autêntica banda soul na ativa de seu auge até os dias de hoje – não é emular uma sonoridade antiga, mas assumi-la como foco principal de seu interesse. O resultado são sinceras peças que trazem como carro-chefe a admiração por essa estética a ponto de a confundirmos com uma autêntica garota negra num grupo r&b. Experimente jogar algumas das faixas aqui apresentadas numa coletânea com canções das Supremes, Shirelles ou Vandellas e tente reconhecê-las.

Sharon se posiciona muito além do que uma cantora de música retrô, mera memorabília dos tempos áureos de vozes marcantes e passinhos combinados nos anos 60, faria. Seu som não é material de embalagem para revivals ou festas temáticas. A recusa em trocar seus metais, percussão e instrumentos de sopro por beats é, sim, parte de sua identidade musical. Se a descobrimos graças a Mark Ronson e Winehouse, quase uma década atrás, é hora de manter o espaço aberto no mp3 pra canções de vozes fortes e metais onipresentes. Se Jones, Bobby Womack e Charles Bradley não são suficientes para que se reconheça que o soul ainda vive forte, a culpa não é da falta de esforço deles, mas negligência do ouvinte.