Shearwater - Fellow Travelers

Shearwater
Fellow Travelers

Sub Pop

Lançamento: 11/13

O Shearwater consegue, com elementos bastante comuns, fazer um som que é só seu. Os violões, pianos e toques de guitarra e orquestra que compõem boa parte de suas canções desde o ótimo Rook, de 2008, não são diferentes do que se poderia encontrar em artistas como os Decemberists, o Smog e o Okkervil River (banda da qual o cantor Jonathan Meiburg também fazia parte). Mas o Shearwater tem um estilo muito particular de compor, que evita a tradicional forma de verso-refrão e se vale de algumas características geralmente encontradas no rock progressivo, como os compassos além do 4/4 e o pensamento no álbum como um arco narrativo, mais que apenas um conjunto de faixas.

Talvez essa estética tenha atingido seu pico em The Golden Archipelago, de 2010. Seu sucessor, Animal Joy, de 2012, fez a banda parecer, mais do que nunca, uma banda de rock: as músicas tinham um impulso que muitas vezes faltava às composições da banda, as melodias eram mais diretas, as guitarras mais presentes, as batidas tinham mais pegada. Foi um álbum excelente, que injetou uma dose de adrenalina no grupo, criando um ótimo ponto de entrada para a obra de uma banda cujo som, geralmente introvertido, pode ser difícil de se aproximar. Após esse período de extroversão, Fellow Travelers, uma coletânea de covers lançada apenas um ano e meio depois, decepciona um pouco por mostrar a banda voltando à sua postura sorumbática mais comum.

É necessário, primeiramente, fazer justiça à força de seu estilo. Se o ouvinte não conhecer a versão original dessas canções (que, com exceção de “Hurts Like Heaven”, do Coldplay, não são tão famosas assim), pode facilmente achar que todas são originais do Shearwater. Não só as faixas têm, todas, a cara do Shearwater, como também a forma como o álbum está estruturado, formando um coeso discurso com pouco mais de meia hora de duração, bem distribuído ao longo de dez músicas, lembra muito o que o grupo tem feito em seus trabalhos mais recentes.

“A Wake For The Minotaur”, a única original nesse lançamento, é um destaque fácil. Com a ótima participação da Sharon Van Etten nos vocais ao lado de Meiburg, ela se torna uma hipnotizante baladinha levada por um violão tranquilo, banhada por um suave reverb que faz parecer que ela foi gravada numa cabana no meio de uma floresta brumosa. As outras faixas mais lentas e silenciosas, porém, não são tão boas. “Ambiguity”, de David Thomas Broughton, aproveita mal seus quatro minutos, sem nunca crescer ou tomar um direcionamento interessante, e o tom meditante e recitativo de sua melodia vocal não se adapta bem à voz potente e precisa de Meiburg. “Hurts Like Heaven”, com pouco além de piano e voz, começa com um ímpeto contagiante, com um andamento rápido que poderia se desenvolver até virar uma gloriosa canção, semelhante à incrível “Animal Life”, do disco anterior, mas seu arranjo muda muito pouco ao longo de seus quase cinco minutos, perdendo essa oportunidade.

Quando a banda aumenta o volume, os resultados são melhores. Em “I Luv The Valley Oh!!”, a banda mostra uma pegada muito convincente, graças à guitarra poderosa com que ela começa. Essa mesma guitarra marca o começo de “Cheerleader”, um rockão de estilo bem Ziggy Stardust. Nas duas, a voz de Meiburg consegue se erguer por cima dos instrumentos de forma imponente, mas mesmo assim elas deixam um pouco a desejar em relação a melodias memoráveis (ainda que o refrão de “Cheerleader” seja legalzinho. “Natural One” tem clima um pouco mais sombrio e misterioso, batida bem marcada, riff excelente de baixo e um monte de detalhes interessantes escondidos na mixagem, na qual os talentos da banda são muito bem explorados. Menos ruidosa (mas não pior) é a divertida “Tomorrow”, que tem um clima legal de pessoas cantando e tocando juntas ao vivo. “Fucked Up Life”, que fecha o álbum, tem arranjo que vai crescendo num ritmo eficiente (e batida eletrônica, bastante incomum para a banda), e lembra bastante as outras faixas que o Shearwater costuma usar para encerrar seus discos. Mas, como as melhores músicas do disco, falta a ela um gancho melódico definitivo.

Fellow Travelers tem esse nome por homenagear as bandas com as quais o Shearwater já fez turnês e, sem dúvida, é uma boa homenagem: deixa claro que o grupo consegue se apropriar de qualquer canção e deixar ela com um estilo inconfundivelmente seu. Para os fãs, é um documento interessante (mas não muito mais que isso) para ver como eles se viram com as canções de outros artistas. Para quem ainda não conhece o som do Shearwater, porém, esse não é o melhor momento para conhecê-lo.

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