Sigur Rós - Kveikur

Sigur Rós
Kveikur

XL Recordings

Lançamento: 12/06/13

Se (), o terceiro disco do Sigur Rós, lançado em 2002, deu a entender que a banda não tinha a intenção de ir muito além do post-rock delicado e arrebatador do Ágætis Byrjun, seu antecessor de 1999, essa foi a única vez em que isso aconteceu. Desde então, cada disco novo do grupo islandês foi uma pequena reinvenção de seu som, que, apesar disso, nunca perdeu sua essência etérea e atmosférica: os vocais agudos e a guitarra tocada com arco de Jónsi Birgisson e a disposição para encher suas músicas com cordas, metais, piano, eletrônicos e toda maneira de sons que se pode imaginar – muitas vezes tocando todos ao mesmo tempo.

Með Suð í Eyrum Við Spilum Endalaust, brilhante trabalho de 2008, pegou esses elementos e os moldou na forma de canções diretas, objetivas e surpreendentemente alegres e pop, ainda mais se comparadas às faixas mais extensas, lentas e meditativas da carreira anteiror da banda. Mas foram essas mesmas faixas compridas e viajantes, com crescendos enormes, que pautaram Valtari, de 2012, quase uma antítese do álbum anterior: talvez o disco mais fantasmagórico e sideral da carreira deles. Por tudo isso, só se podia esperar o inesperado de Kveikur, que chega só um aninho após seu tranquilo antecessor.

E, de fato, é algo inesperado o que nos recebe logo de cara. A maravilhosa “Brennisteinn” começa com ruídos ameaçadores e explode logo no começo num clima pesado e quase industrial, com graves que parecem que vão virar seus alto-falantes do avesso e uma bateria que parece ser feita de barris de metal, panelas e chapas de aço. É uma das melhores faixas do grupo, e certamente a mais pesada. Ainda assim, os vocais surreais do Jónsi pairam suavemente sobre a barulheira, se enchendo de tristeza e pesar no lindo refrão. Talvez a saída do multi-instrumentista Kjartan Sveinsson tenha levado o grupo a focar nas guitarras e no lado mais pesado de seu som. Esse lado aparece também na faixa título, que conta com um ritmo bem marcado e uma espécie de baixo distorcido até a morte, que se unem à melodia vocal convidando o ouvinte a balançar a cabeça no ritmo.

Se essas duas canções trazem um peso e uma sensação de agressividade que são novos ao grupo, as outras exploram – muito bem, por sinal – sonoridades mais próximas ao que eles já fizeram. “Hrafntinna” mostra um clima bem mais leve e bonito, com camadas de vocais se sobrepondo nos refrões, e substitui a bateria pesada da música anterior por sinos e pratos mais agudos e brilhantes. “Bláþráður” começa com linhas tristonhas de guitarra, às quais logo se unem ondas de distorção grave e uma batida simples: a exemplo das canções de () ou de Takk, ela cresce lentamente até chegar num ápice de som e melodia, mas isso tudo acontece em menos tempo (e em escala menor) do que a banda costumava se permitir anteriormente.

Além delas, há também canções como a espetacular “Ísjaki” (iceberg), que mostra que as tentativas de sintetizar as características do grupo em pérolas pop não ficaram para trás. As belas cordas e percussões afinadas que abrem a música vão crescendo junto com Jónsi até explodirem num refrão alegre, animado e muito bonito, com vozes agudas que lembram um pouco o Passion Pit cantando em meio a uma montanha de sons indescritíveis e uma batida dançante.

O baterista Orri Páll Dýrason merece destaque: talvez esse seja o disco do grupo no qual ele mais apareça, e aproveita a oportunidade para acompanhar as melodias do grupo com batidas sólidas e interessantes, que às vezes fazem lembrar Bryan Devendorf, do The National. “Stormur” (tempestade) e “Raufstraumur” (corrente elétrica) também contam com levadas marcantes, que dão ímpeto e força impressionantes às canções, sejam elas belas e delicadas ou pesadas e intensas. Essa última faz jus ao seu nome graças ao clima feliz e seus refrões envolventes, que contam com backing vocals animadinhos no fundo.

No final da curtinha “Var”, a “limpadora de paladar” que fecha o disco, dá pra perceber que Kveikur é um álbum completo: remete a várias fases da carreira dos islandeses, aperfeiçoando ideias que eles já tinham desenvolvido antes e, ao mesmo tempo, traz coisas novas – tudo isso com muito sucesso. Com uma mão dada ao passado e outra ao futuro, o Sigur Rós mostrou mais uma vez que consegue renovar seu estilo de maneiras bastante inesperadas, sem perder a qualidade e sem sacrificar sua essência. Para aqueles que ainda não conhecem o grupo, é um ótimo ponto de entrada. Só não é mais imediatamente acessível que Með Suð í Eyrum, mas consegue ser ainda mais interessante.

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