Sobre Palma Violets e o hype

palma violets - 180

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”

– Bertolt Brecht

Quando o hype em torno de uma banda chega ao nível “SALVADORES DO ROCK”, o meu radar apita: ENCRENCA. Não foi diferente com o Palma Violets, atração do próximo Planeta Terra Festival e oriundo da mal-humorada ilha cheia de pessoas taciturnas conhecida como Grã-Bretanha.

O que me fez dar uma chance ao álbum de estreia 180 foi a vontade de triunfar sobre qualquer preconceito sonoro latente ou pelo menos tentar. Como diria Foucault, “a alma é a prisão do corpo”, o que significa que naturalmente todo nosso histórico impacta na nossa percepção das coisas, sendo o resultado disso o controle da nossa razão sobre a matéria, aprisionando-a e impossibilitando-a transcender a forças que causam a opressão. Mas como evitar fazer careta quando o Palmas Violets foi jogado junto com um monte de bandinhas sem graça, marketados como líderes de uma suposta revolução indie, como se 2013 fosse o ano ZERO? Nessa gororoba jogaram o Palmas, e agora está vendo se a massa gruda. Diga-se de passagem, se você olhar, o “pacote” Palma Violets tem todos os pré-requisitos necessários para formar a receita de uma banda indie perfeita, de acordo com os moldes da faminta imprensa musical britânica: meninos nos seus 20 anos, vindos de Londres e com influências dignas de ovação (Gun Club, The Bad Seeds, Clash). O fato do Palma Violets estar agrupado com esses grupos não significa que eles sejam feitos das mesmas peças. São donos de gozo e algo sublime, tornando impossível de ser associado com esse saco de vômito que a NME tenta nos fazer engolir vez ou outra.

Eu gosto de definir as práticas da NME e BBC, entre outros, como executores da dialética “Hype/Backlash”: a banda ou artista emergente é elevada ao status de profeta (hype) para depois que o primeiro álbum é lançado ser rebaixado e tachado como passé ou modismo sem substância (backlash). Exemplo recente desse fenômeno foi o caloroso e universal recebimento das Savages quando chegaram à cena e os acontecimentos pós-lançamento do debut Silence Yourself. De um lado, temos os defensores das garotas dizendo que o uso da ideologia post-punk vai além de simplesmente pastiche: as ideias e os ideais da época foram utilizados para validar suas próprias concepções do que seria música e seu papel na produção cultural. Seus opositores acusaram de ser sem graça, denunciaram as Savages de distorcerem um estilo tão relevante sócio-culturalmente através do excesso. O que se perdeu no meio do hype e o backlash subsequente foi o apelo das Savages para que nos desligássemos de todas as informações irrelevantes encontradas na mídia, que acabam causando um tipo de alienação que é disfarçada de libertação. O manifesto foi ignorado solenemente sem ter a chance de ser digerido.

Mais uma situação similar foi o debate entre Neil Kulkarni e Eve Barlow que trouxe muitas questões que precisam ser discutidas, tanto quanto as da Savages. O primeiro é um crítico inglês que já escreveu para a extinta Melody Maker nos anos 90 se opondo firmemente ao furacão do britpop. A segunda é a atual editora da NME,  defensora dessa nova safra de bandas (Peace, Swim Deep, Splassh). O início do debate foi quando Barlow declarou a “volta das guitarras” para explicar o recente “sucesso” do formato guitarra/baixo/bateria/voz – suposto antídoto ao mainstream saturado com música eletrônica e R&B. Só que ninguém contou para a Eve que o que ela está fazendo é dando carta branca para a homogeneização da cultura indie. Dando uma desculpa para permanecerem acomodadas, sem ambição de mudar ou experimentar com o formato antes de mudar o mainstream. Em sua resenha sobre o debut do Peace, Barlow atacou os opositores da banda com a acusação de serem “buzzkillers”, velhos chatos que não sabem o que é se divertir. Ao ler isso não acreditei como uma suposta jornalista, em uma análise crítica, fosse agir de uma maneira tão condescendente, tão mesquinha. Pensei: o que ela vai fazer agora? Puxar o nosso cabelo e falar que o GameBoy dela é melhor que o nosso? E outra: perdão pela indulgência e indiscrição, mas cá entre nós, o disco do Peace é tão bom e relevante como uma poça de urina.  Mas, desviei da questão: faço minhas palavras as do grande Everett True: “o papel do crítico é dizer o que é bom e o porquê de ser bom”.

A resposta de Neil a essa declaração, além de ser um dos melhores ensaios críticos que eu já li nesse ano, destacou uma mal-estar existente hoje no reduto jornalismo/crítica musical: a tendência ao excesso de justificativa que efetivamente subjuga a nós, os leitores, ao papel de meros consumidores. E mais, torna cada vez mais escasso o prospecto da emancipação e liberdade que somente a Arte nos proporciona.

“Eu amo rock n’ roll. Eu acho que é uma forma de arte excitante. É revolucionária. Ainda é revolucionária e mudou as pessoas. Mudou seus corações. Mas yeah, até o rock-n-roll tem muito lixo, música realmente muito ruim.”

– Nick Cave

A trajetória do Palma Violets é um exemplo dessa emancipação que o punk prega: entediados com o circuito de shows e das artes do leste de Londres (Shoreditch, Dalston, Hackney) e a apatia por parte das bandas participantes, eles decidiram começar algo para eles mesmos. Primeiramente, os meninos tocavam em festas só para amigos, quando encontraram um lugar no culturalmente exilado distrito de Lambeth, sul de Londres – mais precisamente em uma casa localizada na 180 Lambeth Road – as noites de dança, risadas e selvageria tornaram-se cada vez mais frequentes. Trilha sonora dessas noites: Dr. John, “Bitch” do Rolling Stones, “We’re Gonna Have a Real Good Time Together” do Velvet Underground… Enfim, “trompetes dos anjos e trombones do demônio” (Laranja Mecânica, de Anthony Burgess). Imagino que essas festas seriam cheias de corpos dançando freneticamente intoxicados, um verdadeiro bacanal de sensações dionisíacas. Sonhe, bebê, sonhe.

A cacofonia contagiante e energia dos shows foi fazendo a coisa crescer a tal ponto que esses affairs começaram a ser anunciados com um dia de antecedência, causando frisson e antecipação. E veja bem, em nenhum momento os meninos pensaram em criar uma conta no  Twitter, muito menos lançarem uma demo – as pessoas dependiam de vídeos gravados em celulares e colocados no Youtube. Fora a isso, os curiosos dependiam da boa e velha fofoca mesmo. Logo, as gravadoras começaram a mandar os seus executivos de A&R munidos de cigarros e bebidas (a pedido dos meninos) na esperança de fisgá-los. Eles acabaram assinando com aquela que não os adularam: a Rough Trade Records. Em vez de fazerem um disco genérico, ascético, limpinho,  eles fizeram um atribulado, esquizofrênico, efêmero. 180 é um daqueles debuts que oscilam entre a grandeza e a estupidez, temos aqui a dicotomia entre o trunfo da proficiência e o charme do amadorismo.

A Rough Trade é fruto do idealismo de Geoff Travis, primeiramente como loja de disco, aberta em 1978, que tornou-se refúgio para a comunidade boêmia local de Notting Hill, composta por imigrantes jamaicanos e a classe trabalhadora branca. Geoff sempre tentou nutrir uma relação afetuosa com as suas bandas, promover um espaço fértil para a banda/artista ser criativa sem ter que comprometer-se.  Como selo, Rough Trade Records foi responsável por muitos artistas que contribuíram imensamente para a música por sua abordagem não convencional e distinta: Robert Wyatt, Subway Sect, The Raincoats, The Red Crayola, The Fall, Scritti Politti, Young Marble Giants, Swell Maps, Cabaret Voltaire, The Smiths, The Go-Betweens, Butthole Sufers, A.R. Kane, Mazzy Star, Jarvis Cocker, The Strokes, The Libertines, Micachu & The Shapes, Antony & The Johnsons.

Ao contrário do que a NME está pregando, os meninos do Palma Violets não estão aqui para salvar o rock n’ roll – e por que deveriam? O rock n’ roll em si virou uma instituição, com rituais e códigos morais rígidos e restritos – tem mais é que ser jogada terra por cima do caixão mesmo. Ao se libertarem da lustrosa, porém corrupta Tapeçaria do Rock, conscientemente ou não, desafiam a tendência ao marketing, de abastecer a máquina desenfreada do consumismo ignorante. Se eles chegaram até aqui foi por conta da convicção de que apesar desse mundo não ter mais espaço para o romantismo, o mito da transgressão sendo marginalizado e considerado insignificante, se abster da crença em algo além por completo é covardia. “Em tempos difíceis, ache um lar para ataque”, é o que está escrito na capa de 180. Ao lado desses meninos, a luta torna-se válida.

“O que precisamos perder agora é esse “sabe-tudo” insidioso, corrosivo, essa necessidade de recolher-se e conter-se. Nós precisamos usar nossos cérebros que foram paralisados e tampados com informações randômicas, e mais uma vez nossos membros entalhar no ar as formas de seu desejo – não as maneiras calibradas e síncope astuta do jazz-funk, mas uma música carnal de total abandono. NÓS DEVEMOS MAIS UMA VEZ TORNAR ALEGRIA UM CRIME CONTRA O ESTADO!”

– Barney Hoskyns falando do Birthday Party em 1981

  • Rafael Ferreira

    Adorei o texto! Adorei a maneira como foi escrito e além disso me deu muita vontade de conhecer a banda que infelizmente ainda não tive contato!
    E – Pensei: o que ela vai fazer agora? Puxar o nosso cabelo e falar que o GameBoy dela é melhor que o nosso? E outra: perdão pela indulgência e indiscrição, mas cá entre nós, o disco do Peace é tão bom e relevante como uma poça de urina. – Minha parte favorita!