Sónar 2012 – impressões, opiniões e fotos exclusivas do festival espanhol em São Paulo

No último fim de semana, aconteceu no Anhembi o Sónar 2012 SP, edição brasileira do renomado festival espanhol. Com um line-up certeiro e diversificado, o evento atraiu milhares de curiosos para os três palcos montados na arena. O Move That Jukebox esteve presente e conta, na sequência, algumas impressões, opiniões e relatos sobre o que de melhor – e pior – rolou no festival.

Sónar 2012, por Hick Duarte

Em sua segunda edição no Brasil, o Sónar São Paulo terminou na madrugada do último domingo como um episódio no mínimo marcante na recente e instável história dos festivais brasileiros de música. O que vimos tomar o Parque Anhembi – num fim de semana em que Los Hermanos e The Kooks também passavam por SP – foi diferente de qualquer outro evento da categoria, sobretudo pelo conceito e diversidade sonora que norteou o line-up. A tal música avançada em seu estado bruto, apresentada por artistas que já estão influenciando os rumos estéticos da música produzida no resto do mundo, matou a fome de um monte de gente carente de novos sons, de atrações menos óbvias, de experiências audiovisuais completas.

Justamente por esse caráter inegável de overdose musical, resolvi resenhar o Sónar São Paulo de forma a pontuar rapidamente os momentos mais marcantes do festival, sem me aprofundar em shows específicos e ignorar os eventuais erros de produção. Um relato sincero de quem, diante das dezenas de atrações, preferiu ver mais performances incompletas a apresentações na íntegra.

– O DJ set de James Blake, logo no início da noite de sexta, funcionou como um anúncio do Sónar aos mais desavisados: “é disso que estamos falando”. Passeando por nuances sonoras diversas, alternadas por mixagens surpreendentes, o inglês inaugurou o Sónar Club apresentando muito mais do que o seu pós-dubstep chorão. R&B submerso, synth-pop experimental, dubstep pesado, rap inglês e momentos quase silenciosos pontuaram um set que veio para convencer de uma vez por todas os indecisos para o show da noite seguinte.

– Houve gente dividida entre Justice e James Blake, DOOM e Kraftwerk, mas o quase-consenso da primeira noite do Sónar foi o show do Chromeo. Não teve público presente que não dançasse ou não entendesse o som do duo: ao vivo, o Chromeo é ainda mais groove, mais barulhento e ainda mais carismático. Dave 1 não economiza riffs de guitarra, P-Thugg esbanja malemolência funky, o repertório não te dá fôlego, é hit atrás de hit. “Fancy Footwork”, “Night By Night” e até a menos acelerada “Don’t Turn The Lights On” foram os pontos altos da apresentação.

– Quem ficou até às 3h30 pra curtir o Skream voltou para casa com os ouvidos pelo menos 10% menos eficientes. A medida dos subgraves estava tão forte no Sónar Club – culpa do galpão já vazio ou da mão extremamente pesada do moleque – que o “bass, sweet bass” era de sacudir o coração. Conduzido muito competentemente pelo MC Sgt. Pokes, outro nome importante nesta nova fase da música urbana inglesa tomada pelo dubstep, o show do Skream foi uma surpresa agressiva até mesmo para os maiores fãs do cara. Porrada sonora de primeira.

– Consegui pegar só o final do set do DJ Marky. Tinha tanta gente por ali no Sónar Village que, pra ver decentemente, só atento ao telão. E, do telão, a imagem era surreal: ao lado de um DJ Patife embasbacado, Marky estava dando scratch nos seus vinis segurando o toca-discos de cabeça pra baixo, praticamente em transe, manipulando uma batida drum ‘n’ bass tão acelerada que o público já não sabia mais como dançar. Marky, aquilo foi real?

– Os atrasos na programação foram um problema recorrente nos dois dias do festival. No sábado, o primeiro show do Sónar Hall (Psilosamples, às 16h) foi começar quase duas horas após o programado. Quem mais se prejudicou foram as atrações menores, que tiveram suas apresentações encurtadas para que os horários fossem realinhados mais tarde. Só para citar dois exemplos, Hudson Mohawke e Munchi (sexta e sábado, respectivamente) foram dois dos artistas que tiveram suas apresentações interrompidas pela produção do festival. Inclusive, após o corte brutal no som do Munchi (que tocava no Sónar Club antes do Modeselektor), o público disparou longas vaias em direção aos bastidores do palco.

– Gang do Eletro: WOW! A turma do saudoso DJ Waldo Squash, um dos maiores produtores de tecnobrega do país, só reforçou o quão bons eles são mesmo em palcos bem diferentes das aparelhagens do norte do país. Keila Gentil é uma vocalista de primeira, afinada e carismática o tempo todo, ainda que a sua presença de palco se intensificasse a cada segundo. Uma performance contagiante, muito carismática, de quatro pessoas claramente realizadas e entregues. O figurino colorido que brilha no escuro e o momento em que Keila dança como um robô sozinha no palco arrancou uma gritaria insandecida da plateia. O show contou com a participação do guitarrista Felipe Cordeiro (o Santana do Pará?) e teve o seu auge no momento em que Waldo Squash fez um set solo e apresentou suas habilidade como DJ de melody/electro/Daft Punk meets música regional. Sem dúvida alguma, música avançada tupiniquim.

– Que orgulho do nosso Silva, hein? Esperamos sinceramente que o James Blake tenha assistido ao show do cara e se impressionado também. A plateia, não muito numerosa, estava hipnotizada. Aparentemente, só gente realmente interessada e curiosa acompanhou a apresentação, o segundo na extensa programação do sábado no Sónar Hall. Silva se apresentou em um novo (e agora definitivo) formato ao vivo: diferentemente dos primeiros shows no Rio de Janeiro, quando tocou com uma banda, o live agora passou a ser executado apenas por Lúcio e um baterista. O setlist contou com as músicas do EP de estreia e outras duas inéditas, sendo uma delas “2012”, seu próximo lançamento. Por outro lado, infelizmente, a equipe técnica do Sónar Hall pareceu não entender o som do cara: com frequência e sem lógica, aumentavam o volume do violino, diminuíam o do teclado, bloqueavam o retorno no palco… o próprio Silva se mostrou atordoado com a confusão, principalmente em relação ao retorno, confusão que rolou durante quase todo o show. De qualquer forma, uma apresentação nacional muito comovente.

– O show do Cee Lo Green, me desculpem, estava insuportável. Dura até agora a dúvida da escalação do rapaz no line-up do Sónar, já que a apresentação destoa completamente de tudo o que assistimos antes e depois em qualquer um dos palcos. Parecia um show mal executado de música gospel, com um som estridente, pouco harmônico e muito monótono. Não insisti até “F* You”.

– O DJ set destruidor do Flying Lotus, no Sónar Village, teve Kanye West & Jay-Z, Tyler, the Creator, uma homenagem pancada ao MCA com Beastie Boys e muita distorção eletrônica. Do outro lado, no Sónar Club, o The Twelves mostrava a sua nova fase, incorporando vocais ao vivo e auto-tunados às batidas que os caracterizaram como um dos duos mais requisitados em remixes de indie/dance/nu-disco do mundo. Os cariocas fecharam o set com uma releitura dançante da clássica “I Want Your Love”, do Chic, liberando o palco para o Justice minutos depois.

– Sem muito atraso, o show do Justice se desenrolou no mínimo à altura das expectativas dos presentes. Claramente a atração que mais mobilizou público durante todo o festival, os franceses entregaram um live redondo, muito bem produzido, com cenografia delirante. O setlist, desde que Audio, Video, Disco ganhou o mundo, é um mix dos antigos sucessos com as músicas novas, pontuado por re-edições curiosas dos principais hits. Certa hora, a imponente cruz iluminada à frente do palco – símbolo do live do Justice por onde quer que eles passem – se abriu para dar espaço a um grande piano, que é tocado por Xavier de Rosnay durante uma versão sublime e delicada de “D.A.N.C.E.”. Tem também a parte em que todo o teto do Sónar Club é tomado por uma projeção de céu estrelado, que deixou o público embasbacado olhando pra cima. Não estamos falando de um show completamente imprevisível, mas o “capricho francês” esteve por todos os lados e foi impossível não se flagar de boca aberta em algum momento.

Sónar 2012, por Gregório Fonseca

Fui ao Sónar pra ser surpreendido. Não conhecia a maioria das bandas, mas sabia que poderia ter boas surpresas – e tive. Comecei o primeiro dia no DJ set do James Blake, que não me empolgou. Por outro lado, o James Pants que tava tocando ao mesmo tempo conseguiu me arrancar alguns sorrisos.

A grande atração do primeiro dia foi, no entanto, o Kraftwerk. Mais que musical, o show é um espetáculo visual. As imagens em 3D, mesmo abusando da simplicidade, conseguiram emocionar a plateia. Cada efeito com um pouquinho mais de profundidade fazia o público gritar. Ainda era comum ver pessoas esticando o braço para tocar as projeções como fazem as crianças no cinema. O mais interessante é notar como um grupo de pessoas que fica parado como uma estátua durante todo o show consegue ser tão carismático (e eu não estou sendo irônico).

Ainda acompanhei o show do Little Dragon, que não deixou que o som ruim prejudicasse o bom desempenho da banda. E fechei a noite com o Chromeo no momento mais dançante da noite.

O line-up do segundo dia era mais longo, mas meu pique foi menor. Os atrasos incomodoram bastante, e foi difícil ficar me baseando em suposições pra me programar. Ainda bem que existe o Twitter, e as pessoas podiam compartilhar em tempo real o que estava acontecendo.

Estranhei quando pediram para desligarem os celulares antes do show de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. Ao tocarem as primeiras notas, entendi o motivo: som baixinho, minimalista, que competia com pessoas dizendo “shhhh”, sem perceber que eram elas as que mais faziam barulho (e não quem elas tentavam calar).

O show do Cee Lo Green começou bem (teve até cover do David Bowie), até a hora em que ele chamou alguns rappers que fizeram o show perder o pique. O cantor encerrou a apresentação com os hits “Crazy” e uma versão estendida de “F* You”. Mesmo com um estilo diferente das outras atrações da noite, Green conseguiu criar bons momentos no festival. Ainda consegui pegar o finalzinho do Mogwai. Show intenso, com a plateia em transe. Mas cheguei atrasado, não consegui entrar no mesmo clima do pessoal.

Deixei o melhor pro final: Justice. Assim como o Kraftwerk no primeiro dia, a parte visual fez toda a diferença. Um show de iluminação perfeitamente sincronizado com as canções, resultando em um show que me deixou boquiaberto.

A organização do festival foi extremamente eficiente, perto dos eventos que costumamos receber no Brasil. Poucas filas, espaço agradável, nenhuma confusão. As únicas falhas graves foram a quantidade de atrasos entre os shows e o total desrespeito à lei anti-fumo. Os patrocinadores também tiveram um papel importante (acreditem, empresas, isso deixa a marca de vocês muito mais próxima do consumidor), distribuindo diversos brindes à vontade – principalmente salgadinhos e chocolates.

Sónar 2012, por Neto Rodrigues

Praticamente um mês após o Lollapalooza e seu line-up cheio de figurinhas fáceis e conhecidas (o que não é, necessariamente, um demérito), o Sónar chegou a São Paulo e fez o contraponto ideal em relação ao gigante americano: trouxe uma surpresa a cada show, vários nomes distantes do mainstream, sons de vanguarda e ambientação condizente com o conceito de “música avançada”, intrínseco à história do festival espanhol.

Claro que os atrasos nada elegantes causaram confusões entre os circulantes dos três palcos armados no Anhembi. A fila para retirada de ingressos no primeiro dia e o preço nada amigável de bebidas e alimentação também causaram algumas reclamações – mas nada que tirasse o brilho de grandes performances, nem a certeza da necessidade de um festival como o Sónar no Brasil.

Por exemplo, assistir ao Mogwai quebrando tudo e deixando todos os presentes no SonarHall surdos é história pra ser contada, orgulhosamente, aos netos. Os post-rockers escoceses não só roubaram boa parte do público do insosso show do Cee Lo Green, como também deixaram fãs e desavisados encantados com paredes de guitarras hipnotizantes e acachapantes. Um dos shows internacionais mais marcantes do ano, sem dúvida – e olha que nem tocaram a pedrada “San Pedro”.

Outro grande momento do Sónar foi o show farofa-dançante-mas-divertido-as-fuck do Chromeo, que não deixou nenhuma das almas do SonarClub, já às duas e tanto madrugada adentro, parada. Ainda no palco principal, o Justice mostrou a que veio e despejou doses cavalares de electro-hard-rock. A dupla francesa, seus dois muros de amplificadores luminosos, algumas projeções no teto e a cruz indefectível garantiram momentos épicos na noite de sábado – que o diga Reynaldo Gianecchini, que dançava todo felizão (até ser interrompido por alguém que queria tirar foto) a poucos metros de mim.

Além do Top 3 pessoal do festival, vale destacar também alguns pedaços de apresentações aos quais assisti: Kraftwerk e sua nova experiência visual (como vi os caras em 2009, resolvi pegar somente o começo do show); Tiger & Woods e seu som com níveis alarmantes de “dançabilidade”; a trinca rapper formada por Criolo, Emicida e DOOM; o não-show de Alva Noto & Ryuichi Sakamoto, que deixaram um incontável número de pessoas em transe no SonarHall.

Aliás, é justamente do SonarHall, um anfiteatro para pouco mais de três mil pessoas, que veio reclamações sobre o som, que prejudicou, por exemplo, a banda Little Dragon e o SILVA. Mas, repito, olhando de forma geral, os problemas que apareceram no Sónar 2012 SP são facilmente perdoáveis. A experiência envolvente durante os dois dias foi algo acima disso.

Com uma possível edição 2013 já nos planos dos organizadores, o evento espanhol tem tudo para ser o grande destaque anual no calendário de festivais brasileiros. E disponibilizar várias fileiras de táxis na saída do Anhembi, como encontrei, cansado, ao fim das duas noites, já é um enorme avanço a essa condição.

— Fotos por Hick Duarte/Fiesta Intruders. Clique aqui para conferir a cobertura fotográfica completa.