Speedy Ortiz - Major Arcana

Speedy Ortiz
Major Arcana

Carpark Records

Lançamento: 09/07/13

De qual geração você gostaria de fazer parte? A juventude é o momento perfeito para se questionar quanto a isso, como se fosse possível transitar entre o tempo e escolher o século, a década ou o ano em que você gostaria de viver. Eu já tive minhas fases e você já deve ter tido a sua. Sadie Dupuis, líder, compositora e vocalista do Speedy Ortiz, quarteto estadunidense, escolheu a década favorita dela. Basta o dedilhado nas cordas de sua guitarra na faixa de abertura do álbum de estreia, Major Arcana, para notar que ela faz do instrumento sua máquina do tempo – surtiria o mesmo efeito caso você ouvisse o primeiro EP da banda lançado há pouco mais de um ano. O delorean de Sadie se materializa na forma de uma Fender Jazzmaster, não coincidentemente o modelo favorito de Thurston Moore (Sonic Youth), e a leva diretamente para os anos 90.

Mas, para o Speedy Ortiz, apenas soar como há vinte anos atrás não basta – é necessário agir, se vestir, se comportar, dar entrevistas e pensar como a geração de Nirvana e Pavement fez. Aliás, a garota tinha seu próprio conjunto cover da banda de Stephen Malkmus. Só que ela também não se contentou apenas na reprodução e isso a levou a criar suas próprias canções. E é assim, nesse cenário onde ser desbocado é obrigação e criar zines de poesia para levar aos shows ainda é cool que Major Arcana é desenvolvido, com todos os acertos, falhas e, principalmente, exageros que isso traz.

Ao contrário do que aconteceu com casos anteriores do revival 90’s, falo de bandas como Silversun Pickups, Yuck, The Pains of Being Pure At Heart e outros expoentes, o Speedy Ortiz não soa apenas com influências da década em questão. A banda parece ter sido trazida de lá e assim como seu disco, com toda crueza de produção e arranjo, canções que se apoiam nos vícios de composição e tiros que pouco se importam de serem certeiros (desde que haja muita atitude). Um pouco mais de meia hora compõe o disco com algumas faixas fortes  e marcantes, mescladas com outras facilmente esquecíveis.

Algo a incomodar é o desperdício, na maioria das faixas, de um grande punch – a ideia inicial é boa, o formato convém e convence, mas a música poderia chegar a algum lugar, um grande refrão ou um momento realmente impressionante, e não chega a lugar nenhum. Ao mesmo tempo que o disco parece ter sido um presente do tempo nos entregando algo realmente verdadeiro sobre uma década que já se faz distante e saudosa, Major Arcana é um registro que se apagaria em meio aos acertos tão precisos, de onde ele tanto se influencia, caso ele realmente pertencesse ao anos entre 90 até 94. Mas ok, não é o caso.

Como então o debute da banda funciona hoje? Com o lirismo do Pavement, os ruídos de Sonic Youth, o apelo mais pop de Nirvana e o carisma do Breeders – com mais artificial do que as referências –  o disco conquista bem os adoradores das bandas citadas. Se não conquista, mostra realmente esforços válidos, mesclando tudo isso e fazendo desnecessário pontuar, ainda que possível, momentos isolados onde a banda se assemelha mais a uma ou outra coisa especificamente. Os ingredientes a gente já conhece, o prato que tem um sabor novo (com pitada de nostalgia).

“Pioneer Spine”, “Casper (1995)”, “Gary” e “MKVI” são pesadas e melancólicas. “Tiger Tank” é hit e poderosa, a mais do disco, mas não tem o carisma de “No Below”, que fica com a segunda posição de melhor faixa do álbum. “Hitch” tem um potencial mais pop e pouco explorado em outras faixas. A enérgica “Fun” e a criativa “Plough” se destacam por se apoiarem em soluções mais criativas, já que o disco se mostra tão linear quanto repetitivo nas primeiras audições. E tudo melhora com o tempo.

Só que é esse tempo de digestão que talvez afaste os mais apressados. A não ser que você apenas procure por linguajar despreocupado, guitarras barulhentas e resgate nostálgico de outra geração- aí o disco quase se faz perfeito, mas também dispensável a qualquer momento. E quando falo “dispensável” é porque falta a ele algo que o torne, mesmo que um pouco, imprescindível para quem ouve. É um álbum que vale a audição, uma banda que merece a atenção, mas que talvez acerte mais em cheio num segundo momento. Por enquanto, o Speedy Ortiz impressiona, mas Major Arcana não se faria necessário nem com 20 anos de história para torná-lo clássico – o tempo o deixaria largado por lá e não teria ninguém a fim de gastar uma viagem no tempo para buscá-lo.

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  • Crítico Cítrico

    w0w! Tantas comparações, caro mio! Só esqueceu de acrescentar: L7 repaginado!