Spoon - Hot Thoughts

Spoon
Hot Thoughts

Domino Records

Lançamento: 16/03/2017

O Spoon é uma banda ótima em misturar influências diferentes ao seu estilo, e Hot Thoughts, seu último álbum, é um bom demonstrativo disso. Ele ainda gravita em torno da voz rasgada de Britt Daniel e das batidas firmes de rock em andamento médio do baterista Jim Eno, mas com menos guitarras e um monte de coisa curiosa jogada no meio: é quase como se o Spoon estivesse querendo ver até onde dá pra ir sem perder a identidade. Essas experimentações dão muito certo, mas junto delas vem outras faixas mais convencionais que, ao lado delas, parecem meio tímidas em comparação.

Muitas faixas ainda soam bem tradicionalmente como o Spoon do disco passado. O melhor exemplo disso é “First Caress”, possivelmente a faixa mais direta do álbum. Tirando uns sons eletrônicos que temperam o refrão, ela é basicamente um indie rock imediato, com um refrão bonitinho – nada de mais, mas nada de menos também. A própria faixa título, que abre o disco, também não é tão “diferentona” assim. Embora ela comece meio misteriosa e com com vocais mais reservados de Daniel, ela depois evolui para uma tradicional canção do Spoon, com forte presença de guitarras – algo meio raro no disco. E tem também “I Ain’t The One”, que lembra bastante “You Got Your Cherry Bomb” de Ga Ga Ga Ga Ga em sua harmonia, mas tem um clima mais reflexivo e pensativo. Quem é fã da banda de longa data deve achar nessas faixas justificativa suficiente para o álbum.

É quando a banda começa a viajar mais que Hot Thoughts ganha mais personalidade. O exemplo extremo disso é o encerramento com “Us”, uma piração muito legal de cinco minutos de saxofones, tambores, vibrafones e um clima de suspense e romance meio film noir. Como faixa final, ela causa menos impacto do que causaria no meio do disco, mas impressiona mesmo assim. Ela compartilha uma melodia com “Pink Up”, que essa sim está no meio do disco, e que, com seis minutos, parece uma radicalização de “Inside Out” do álbum passado. Há uma batida suave, um ritmo mais ponderado, um arranjo mais silencioso, uma melodia de vibrafones que toma o centro e uma série de detalhes sonoros que vão pipocando pela faixa. O efeito é o de uma bela e relaxante brisa noturna.

Com o sucesso dessas experimentações, é meio triste que não haja mais delas. Muitas das faixas do álbum incorporam apenas parcialmente esse espírito exploratório; isso colabora para deixá-las mais com aquela cara de “música do Spoon”, mas também para deixá-las um pouco genéricas. A grudenta “Do I Have To Talk You Into It?” é um pouco assim: tem uma batida gigantesca, um refrão legal e uma produção interessante, mas não vai muito além do que a banda já fez. “Can I Sit Next To You” também fica nessa, embora tenha um sample de cordas bem interessante no refrão. É quase como se fossem “canções do Spoon com umas coisas a mais jogadas no meio”. Mais legais são “Shotgun” (que começa parecendo um cover de “I Was Made For Loving You” do Kiss mas felizmente vira uma faixa bem legal do Spoon) e “WhisperI’lllistentohearit” (que passa por uma radical mudança de andamento lá pela metade).

Tem muita coisa legal nesse álbum – assim como na maioria dos discos do Spoon – e para quem já é fã, está tudo ótimo. Se há um problema nele, é o fato da discografia da banda ser tão consistentemente boa. Vindo depois de They Want My Soul (2014), Hot Thoughts não consegue deixar de causar uma impressão um pouco decepcionante – não porque seja ruim, mas porque aquele disco era muito bom. O mais legal de Hot Thoughts acabam sendo as curvas inesperadas que a banda faz, mas que, infelizmente não são mais frequentes. Se a banda tivesse levado esse lado experimental mais longe, dava para ter feito algo realmente diferente e especial; da maneira como ficou, porém, Hot Thoughts acabou sendo só mais um (bom) disco do Spoon.

Escute o álbum abaxo:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *