St. Vincent - St. Vincent

St. Vincent
St. Vincent

Loma Vista Recordings

Lançamento: 24/02/14

Vozes doces não faltam na música. De Regina Spektor a Katy B, passando por cantoras de programas de calouros, jovens de vozes límpidas impunham canções trazendo pouca representatividade a elas. Faltam intérpretes na música, no entanto – seja lá de que gênero for. Artistas que não são apenas veículos de uma letra, mas tornam impossível a audição de uma faixa em outra voz que não seja a sua. St. Vincent, cria da americana Annie Clarke, poderia ser só mais uma cantora branca e afinada, estandarte fácil numa estante que enfileira Sara Bareilles, KT Tunstall e muitas outras, não fosse a imprescindível capacidade em criar temas com sua voz. Da bem sucedida aventura com David Byrne em Love This Giant (2012), Clarke toma emprestado a ousadia de se permitir estranha; do anterior álbum Strange Mercy (2011), sobe o volume das guitarras e a influência de um art rock cada vez mais imperfeito e sugestivo. Tudo embalado pra presente numa voz limpa, mas livre para criar cenários esquisitos no álbum recente e simplesmente chamado de St. Vincent.

Apesar do título homônimo, esta não é uma reinvenção de St. Vincent e nem alguma mudança de rumos, que todo músico lá pelo quarto álbum tenta forjar ou passar uma borracha sobre sua discografia anterior e fingir que seu norte sempre foi este. A capa com Annie de cabelos descoloridos, postada em trono, bela e louca, é, na verdade, um reforço à imagem que há anos lhe persegue nos detalhes de sua música, desde as guitarras em off de Marrow. O fato é que St. Vincent nunca foi das artistas mais óbvias. David Byrne, gênio com olho clínico pra enxergar o invulgar mesmo que ainda em desenvolvimento, a notou antes que qualquer crítico, daí Love This Giant. Depois de uma estadia com o líder do Talking Heads, um dos pais do art rock, fácil seria usar sua amizade na criação conjunta de faixas à prova de erros. O caminho fácil é – claro – ignorado por Annie, e o novo álbum traz apenas o que seria produto de uma admiração pelo talento do, agora, amigo próximo, sem a assinatura dele em música alguma, porém.

Sons de 8 beats jogam o ouvinte pra dentro de uma estranha (e verdadeira) história sobre uma cobra no deserto e uma garota nua se perguntando sobre sua solidão em “Rattlesnake”, ajudando a explicar a obsessão e os extremos temas que inspiram St. Vincent. Basicamente, situações que poucos seres humanos escolheriam viver normalmente. A sonoridade fica entre o rock noise difuso e as incursões em elementos eletrônicos que o ouvinte nunca terá certeza em se tratarem de uma ajudinha de sintetizadores ou dos absurdos que a multi-instrumentista – que logo no disco de estreia escolheu gravar todos os instrumentos – é capaz de fazer em posse de uma guitarra. “Birth in Reverse” é simples em seu uso. Um riff cantarolável e uma letra logo de início despeja: “Oh what an ordinary day/ take out the garbage, masturbate”, pra versar sobre o quão comum é a morte (um nascimento ao contrário). “Digital Witness” é a cusparada final de sarcasmo na cara do ouvinte. Pondo em xeque a tecnologia como foco de atenção e expressão do egoísmo, a cantora pergunta à queima roupa por que você dorme, se ninguém em suas redes sociais fica sabendo.

Toques de delicadeza aparecem no coro de “Prince Johnny”, quase um acalento aos ouvidos, ou na oitentista declaração de amor de “I Prefer Your Love”. De “Regret” emergem os já citados  em outras obras ídolos Wayne Coyne, David Bowie e mesmo Byrne, numa viagem lisérgica que resvala no glam. Quando a realidade não parece interessante o suficiente para receber observações da compositora, Annie se deixa perder em sonhos como a viagem alucinógena na garupa dos Panteras Negras de “Huey Newton”, seguindo um roteiro que, segundo ela, lhe veio enquanto dormia. A voz empapada de  LSD em contraponto a um fim regado a heavy metal reivindica outro tipo de inspiração, porém.

St. Vincent é estranho, mas nem por isso pretensioso. Clarke não parece ter interesse em dialogar com a crítica e escrever meia dúzia de sons em estudo, ou mesmo tornar-se artista acadêmica, que cria ao bel prazer de não se fazer entendida; ou arquitetar faixas que um dia serão fagocitadas por um outro músico que saberá lhe dar formato e circunstância. St. Vincent é mais palatável que uma Bjork, ou talvez simbolize a islandesa em momentos menos orgânicos que as fases mais recentes, como em Homogenic (1997) ou Vespertine (2001). É dissonante, pouco dominável, mas ainda assim um álbum que se deseja ouvir muitas vezes e aproveitar a voz descontrolada de Annie lhe perguntando pra quê você dorme. Talvez seja para, assim como ela em sonhos, ver cenas tão interessantes quanto as que é capaz de criar. Sejam contadas em letra, sons de uma guitarra ou inflexões de uma voz.