The Stones Roses volta para casa com show no Heaton Park, em Manchester

Por volta das 21h do dia 29 de junho, muitos copos de cerveja já haviam sido entornados pelos quase 80 mil ingleses, e uma boa parte já havia sido arremessada para o alto com mijo dentro. O tempo estava bem nublado, mas, contrariando todas as previsões de “heavy shower” dos jornais, não choveu. E, conforme é normal para o verão inglês, o sol ainda estava alto e a vibe de “tarde no parque” continuava forte. Aí, os Stone Roses entraram.

Os gritos histéricos ainda ecoavam forte quando o baixista Mani iniciou o riff de “I Wanna Be Adored”. A plateia cantava a melodia, e mais forte conforme cada instrumento entrava – primeiro, a bateria de Reni, depois a guitarra de John Squire e, por fim, os vocais de Ian Brown. “I don’t need to sell my soul/ He’s already in me”, berravam os quase 80 mil ingleses em uníssono. Pronto, já não tinha mais volta. O Stone Roses, banda que iniciou uma revolução na música inglesa e depois se perdeu entre egos, processos e disputas com gravadoras, estava de volta. E Manchester, sua cidade de origem, estava de braços abertos para recebê-la após 17 anos de ausência.

Mas esta é uma história que merece ser contada do começo.

Cheguei em Manchester na quinta-feira, um dia antes do show. A febre era visível por todos os cantos: pessoas desfilavam nas ruas com camisetas estampadas com as capas dos singles, os jornais davam destaques para a banda em suas primeiras páginas e qualquer loja com um artigo relacionado aos Roses separava um canto especial para os itens. Um turbilhão de turistas invadiu a cidade, chegando principalmente de trem. É provavelmente o maior evento do ano na cidade.

Chegar ao Heaton Park é relativamente fácil, até porque todo mundo estava indo para lá. Havia avisos dentro do trem (metrô de superfície) alertando que os shows poderiam causar lentidão no serviço. E causaram, além de lotações dignas da estação da Sé às 18h. Mas só se via sorrisos no transporte público. Na saída, dezenas de cambistas se ofereciam para vender e comprar ingressos. Estava me sentindo em casa.

Após um perrengue básico com os ingressos (ficou combinado que eu os retiraria na bilheteria, mas eles perderam meus bilhetes), entramos eu e o amigo que me acompanhava. Ingleses de todas as idades se esbaldavam com copos gigantes de cerveja – a maioria andava com dois na mão ao mesmo tempo. Entre as cabeças loiras, ruivas e pretas (a Inglaterra tem muitos indianos e descendentes), os chapeuzinhos de pescador de Reni abundavam. Não havia área VIP, mas a área do gargalo era cercada e tinha acesso controlado para evitar superlotação. Fomos para lá e de lá não saímos.

Um inglês extremamente bêbado entrou em êxtase quando contamos que éramos do Brasil. “I can’t believe you came just for the Stone Roses, I can’t believe it”, ele dizia emocionado, me olhando nos olhos. As cervejas voavam pelos ares. Outro inglês tentou nos prevenir quando uma nos atingiu: “you know, that’s beer, but very soon, it’s gonna be piss”. E logo surgiram os copos de mijo mesmo – dava para reconhecer pela temperatura. A única opção era levar tudo com senso de humor e dar risada quando o atingido não era você. Também era engraçado quando alguém anunciava que ia jogar mijo, as pessoas se afastavam e o vento trazia tudo de volta para cima deles.

Os shows de abertura se iniciaram com Dirty British, apenas ok. E aí entraram os Vaccines, que levaram os ingleses à total loucura mesmo com um setlist equivocado. Os hits eram todos ensanduichados entre músicas novas ou menores, esfriando a plateia sempre que ela começava a esquentar. Durante o show do Vaccines, começou o empurra-empurra e também o que eu chamava de carrosséis humanos: três ou mais ingleses que se abraçavam em roda e saíam girando e cantando. Mas, por enquanto, nada muito sério.

O The Wailers trouxe amor ao Heaton Park tocando os sucessos de Bob Marley e o Primal Scream subiu ao palco com a energia que é conhecida. A baixista nova não chega aos pés de Mani (que deixou o Scream para reformar os Roses), e tira um pouco do groove do baixo de algumas músicas. Sorte que o Primal é uma banda de muitos recursos, como os solos animalescos de Barrie Cadogan e uma lista invejável de hits. Tocaram apenas sete músicas, mas a sequência final (“Loaded”, “Country Girl”, “Jailbird”, “Rocks”) era de vencer qualquer plateia. Os empurrões começaram a ficar fortes.

Quando os Stone Roses finalmente entraram e o Heaton Park praticamente se ajoelhou aos seus pés, a festa ganhou ares caóticos. Ficar nas primeiras filas era para os corajosos: o empurra-empurra era absurdo e chegava ao ponto de impedir que o show fosse visto. Muita gente caía no chão. “People are falling down, so if you see someone fall down, pick him up, will ya?”, pediu Ian Brown. Eu caí duas vezes, e nas duas fui prontamente resgatado. “Alright there, mate?”, “Yeah mate, thanks”. Depois da segunda, em que tomei uma pancada forte nas costelas, resolvi ir mais para trás. Fiquei ali pela sétima ou oitava fila, que estava perfeita em termos de visão e não tinha a loucura da parte mais à frente.

A rave inglesa tinha razão de acontecer. Os Stone Roses no palco mostravam total sincronia e faziam justiça aos tais ensaios diários de 8 horas que fizeram para se preparar. Como quase todas as músicas são hits, o set era imbatível: abria com “I Wanna Be Adored”, seguia com a perfeição pop de “Mersey Paradise”, engatava a clássica “Sally Cinnamon” e seguia sem perder o pique.

Os refrões faziam todo mundo pular absurdamente, mesmo nas músicas mais lentas (com exceção de “Ten Storey Love Song”, os Roses não têm propriamente uma música lenta). “Fools Gold” e sua jam funk-psicodélica entram no meio pra fazer o público dançar. A inesquecível linha de baixo e os solos de guitarra ecoavam perfeitos. E Ian Brown correspondia aos colegas instrumentistas cantando bem. Sua voz continua limitada, como sempre, mas ele estava afinado e conseguia se garantir.

Os fantásticos singles “She Bangs The Drums” e “Made of Stone”, únicos oficiais retirados do álbum de 89, apareceram no final, erguendo um coro gigantesco. Mas a catarse maior veio com “I Am The Resurrection”, o hino que marca o complexo messiânico do grupo e que, perante essas milhares de pessoas, se justificava totalmente. Aquilo era mesmo a ressureição, e estávamos todos ali para erguer as mãos e contemplar.

De todas as reuniões de bandas que têm ocorrido recentemente, a dos Stone Roses é a melhor e a mais importante. Primeiro porque seria muito injusto que a historia de uma banda tão importante fosse mesmo encerrada com aqueles shows malfadados de 1996. Segundo porque o carinho, as piadas internas e o entrosamento demonstrados no palco mostram que, mais do que sua música, os Roses conseguiram restaurar suas amizades. Nesse tão burocrático mundo musical em que todo mundo processa todo mundo e todo sucesso é seguido de stress, a comunhão dos integrantes tem um valor realmente especial. Eles saíram dos pubs vazios de Manchester para três noites lotadas no Heaton Park e estão aí para contar a história. Juntos.

A ressureição que pôs uma cidade inteira nas mãos desses quatro mancunianos acabou com uma explosão de fogos de artificio. Simples e bonito. Todo mundo estava explodindo por dentro também. Os Stone Roses no Heaton Park eram a história sendo escrita. E, como a reunião deve gerar um álbum novo, em breve, é ainda só o primeiro parágrafo. Sorte de quem está fazendo parte desta celebração, de um jeito de outro, porque, acreditem, this is the one.

Fotos: Victor Bianchin

  • Diego Corcino

    Sem Palavras,é impressionate como os Stone Roses são quase Deuses na terra deles,esse show deve ter sido simplismente Epico! parabens pela resenha