Supercordas – A Mágica Deriva Dos Elefantes

Buscar definições para o novo álbum do Supercordas, A Mágica Deriva Dos Elefantes, baseando-se no que a banda fez há longínquos seis anos atrás em seu disco de estreia, Seres verdes ao redor: música para samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos, é besteira, apesar de quase inevitável.

Eles ainda são os mesmos, as influências também, o formato das canções ainda é bem similar e as predisposições, também, e apesar de parecer que isso dificultaria desvencilhar um trabalho do outro, é exatamente por isso que fica simples encarar A Mágica Deriva… como uma “nova estreia” dos cariocas. Algo como uma nova chance para surpreender. E não que eles tenham decepcionado em seu real debute ou que havia algum indício de que isso aconteceria nesse novo LP. Se trata apenas de enxergar essa produção de uma perspectiva diferente, assim como o Supercordas adora fazer a cada canção sua. Por que não imergir nessa como uma nova aventura?

A Mágica Deriva… é daquele melhor tipo de álbum que existe: a cada audição há uma nova experiência. Foram necessárias três semanas, após a disponibilização gratuita do disco no site oficial da banda, para que eu sentisse algum tipo de segurança para falar sobre ele. Não por ser um disco de outro planeta (apesar de parecer, por vezes), nem por ser algo tão espetacular que não possa ser logo compreendido, mas sim por perceber que a cada vez que ouvia as 12 faixas novamente, sentia ele um pouco melhor. Daria uma nota 7 na semana passada, e talvez uma 9 na semana que vem. Porém, a nota pouco importa. Os seis anos de intervalo que a banda tomou de um lançamento para outro mostra como o tempo é referência irregular quando se trata de mudanças – seja de notas ou seja nas músicas.

Se Seres Verdes Ao Redor deixava explícita sua temática, as novas composições parecem mais abrangentes. Apesar de a própria banda afirmar ter um álbum mais “urbano” em mãos, o disco não força essa compreensão e te deixa livre para tirar suas próprias conclusões sobre temas e conceitos, sendo que eles podem até lembrar bem a proposta do debute.

Não sabendo a fundo como funciona o processo criativo de composição da banda, dá pra imaginar que as músicas saem bem redondas de início e se complicam para tomar aquela personalidade psicodélica adorável. Tendo as melodias simples e de fácil assimilação, o próximo passo seria torná-las diferentes – e, se for assim mesmo que a banda trabalha, tem funcionado muito bem. Basta ouvir a primeira faixa, “Mumbai”, que aborda um assunto bem genérico e funciona mesmo assim, com sua bela melodia e suas arriscadas em arranjos, que vão apresentar até uma faceta mais lo-fi da banda, para se situar.

A guitarrada “Orquestra De Mil Martelos” e as ruidosas “À Minha Estrela Bailarina” e “Ninguém Conquista a Noiva Dançando” podem até lembrar Flaming Lips (ou Grandaddy) em alguns momentos. “O Céu Sobre as Cabeças” soa mais pop e como se tivesse saído do ótimo EP da banda A Pior das Alergias – até mesmo no refrão “Mas não se esqueça de afagar a terra” parece um prelúdio ao “Se não chover regue a horta”, refrão de “Meu Vidrinho de Fluídos Oníricos”. Outras duas faixas “pops até onde dão” que se destacam são “Mágica” e a linda “Índico De Estrelas”, escolhida como primeiro single do álbum.

“Um Grande Trem Positivista” tem aquela ótima característica folk dos cariocas, e é uma das canções que mais se destacam na primeira audição. Com uma viola caipira, “Declínio E Queda Do Império Magnético” também assume um pouco dessa onda folk, apesar de que o termo “rural” se encaixaria bem melhor – ou até “caipira”, se não fosse a lisergia descorrida.

A boa sensação sinestésica que fica ao fim da audição prova que Supercordas sabe não só reunir boas influências como sabe o tempo certo pra aplicar cada uma delas. O intervalo de seis anos, planejado ou não, auxiliou muito na recepção do trabalho, de forma que ele chega quando já se sentia uma certa falta de novidade no âmbito em que o quinteto se apresenta tão bem. A aventura, no fim das contas, era mais familiar do que imaginávamos – e, mesmo assim, tão fantástica quanto se a vivêssemos pela primeira vez.

  • fabricio

    É notável o fato de uma banda sem estrutura de estúdio e sem produção luxuosa, cometer dois álbuns tão bons. “Seres verdes…”toca até hoje muito bem, e comove na primeira audição os milhões que não tiveram acesso a ele. Neste atual, ao ouvir “Mumbai” disse a mim mesmo “vou ouvir muito isso…”. E como você ouvi muito, continuo ouvindo e sei que serão mais 6 anos de audição. Sinto experimentando uma atmosfera única na música brasileira, em que se misturam nossa tradição rural, com a psicodélica, com o Rock mais clássico. A “mágica deriva…”deriva-se disso, e se comporta como aquele elefante lento, devagar, que observa o mundo de forma indiferente, como se residisse em um mundo próprio.

  • Fizemos uma entrevista com eles no nosso blog. Confiram: http://lamparina.me/supercordas-na-pratica/

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