26 jul 2010

The Black Keys – Brothers

Por  @13:23

Depois de 6 anos usando basicamente guitarra e bateria para espalharem seu blues-garage-indie-rock, Dan Auerbach e Patrick Carney se mostraram mais abertos a algumas experimentações no disco que lançaram em 2008. Intitulado Attack and Release, o álbum mostrava elementos até então inéditos – ou escassos, pelo menos – nos trabalhos anteriores, que eram basicamente gravações sujas, mais vicerais e produzidos até mesmo em porões. Aparentemente, o The Black Keys gostou da experiência de ampliar as possibilidades sonoras – e o resultado de querer fazer algo além da “zona de conforto”, leia-se “guitarra e bateria”, fica evidente em Brothers, sexto disco de estúdio do grupo.

Logo de cara, os caras já mandam um dos destaques do CD. “Everlasting Light” tem algo de diferente, de sexy e uma levada não tão comum na discografia da banda. O falsete de Auerbach se contrasta muito bem com as graves notas disparadas por sua guitarra, que, por sua vez, é pontuada com perspicácia pela bateria contida de Carney e por ocasionais backing vocals femininos. Uma abertura digna do que poderia ser o melhor trabalho do Black Keys até então.

O alto nível continua com a dupla de faixas que vem a seguir. Em “Next Girl”, Dan reflete sobre como deve ser sua próxima garota enquanto guitarras e um baixo pesado invadem um imponente refrão. E o assovio mais grudento da temporada toma conta da introdução de “Tighten Up”, que ainda tem teclados retrôs e um riff pra ficar na cabeça por dias – além, é claro, do Frank.

Na sensual e apaixonada “The Only One”, sétima colocada no tracklist de Brothers, eis que surge a prova máxima de que o Black Keys pode ir muito além – e no mesmo padrão de excelência – da garagem e dos modos arcaicos de gravação. Não que precisasse: em 4 trabalhos, a dupla mostrou que tem cacife para criar pequenas pérolas com apenas 6 cordas e bateria e não se repetir. Mas qual é a graça em não sair dos moldes um pouco? A questão vai além do resultado final, se é superior ou não ao jogo ganho que é o blues rock garageiro que todos sabem que a banda pode fazer muito bem. O mais importante é que é de se valorizar músicos confiantes o bastante para “pensarem fora da caixa” e criarem algo novo. É uma pena que, às vezes, a intenção e a tentativa soam melhores na teoria do que na prática.

Brothers funciona muito bem em sua primeira metade, quando elementos fora do padrão da banda são acrescentados na medida e dão certa dinâmica às faixas. Depois disso, o que se percebe é uma boa vontade do duo em manter o ritmo do começo, mas é aí onde o disco se perde um pouco e se mostra mais longo do que o necessário. Em várias faixas, o piano e o baixo são os elementos centrais – e se juntam à incrível e versátil voz de Auerbach para criarem belas melodias com toques de soul, até. A (pequena) falha foi ter arrastado essa mudança de sonoridade por 15 faixas – o que deixa tudo bem cansativo e, antes do álbum terminar, você já se pega voltando às primeiras músicas.

Mas mesmo com o possível exagero na tracklist, o The Black Keys se saiu muito bem na missão do sexto disco de estúdio em apenas 8 anos desde o debut. Com 5 trabalhos praticamente impecáveis e similares entre si, Brothers mostra uma renovação corajosa, porém não necessariamente indispensável. Teclados, mais guitarras, baixo e até mesmo piano podem conseguir espaço vitalício nos próximos álbuns. Basta uma lapidada na quantidade de temas e o  melhor disco do The Black Keys pode ainda estar a caminho. Pra desespero dos fãs xiitas que até hoje não saíram daquela garagem cheia de poeira.

30 jun 2010

Broken Social Scene – Forgiveness Rock Record

Por  @2:46

Mais de uma hora depois de ter apertado o “play”, você abre aquele sorriso no rosto, satisfeito por ter ouvido 12 faixas que, independentemente das 2 últimas, farão de Forgiveness Rock Record um dos discos do ano. E aí, sem muita pretensão, surge “Water in Hell” pra te fazer lembrar que o CD ainda não acabou – e como é bom escutar músicas tão boas assim nos últimos suspiros de um disco. Ok, o Broken Social Scene não precisava ter jogado a insossa “Me And My Hand” para finalizar seu novo trabalho. Mas, pensando bem, ia ser covardia com as outras bandas lançar um álbum que começasse com “World Sick” e terminasse com “Water in Hell”.

Foram 5 longos anos de espera desde o último trabalho da banda liderada por Kevin Drew e Brendan Canning. Auto-intitulado, o terceiro disco do Broken Social Scene tinha a árdua missão de suceder o trono inquestionável que You Forgot It In People conquistou lá em 2002 (tem como não amar “Cause = Time“, por exemplo?). Já para o quarto álbum, o grupo que tem metade da população do Canadá fazendo parte de sua formação não teve pressa e entregou 14 faixas que sintetizam bem sua carreira até o momento: trinca (às vezes dupla, às vezes quarteto) de guitarras mandando riffs bem sincronizados; Kevin Drew se destacando como nunca nos vocais; experimentações bem-sucedidas com sintetizadores, metais e paredes de teclado; participações precisas, porém um pouco apagadas, de Feist e Emily Haines, entre outros convidados.

Tá bom, vai, Forgiveness Rock Record tem lá seus (poucos) defeitos: descarte “Me And My Hand” e mais uma ou outra do tracklist e você tem um trabalho um pouco mais conciso. Mas, convenhamos, pra que reclamar disso quando ganhamos o privilégio de apreciar uma música como “Forced To Love”? Só por ela já valeria a pena todos os 60 e poucos minutos que compõem essa pequena pérola lançada pelo BSS. E olha que eu ainda nem citei “Texico Bitches”, “Chase Scene”, “Sweetest Kill”…

-> Forgiveness Rock Record foi lançado no dia 4 maio, via Arts & Crafts, e teve produção de John McEntire.

14 jun 2010

Resenha: Arcade Fire mostra músicas inéditas em estacionamento de Montreal

Por  @15:18

Pela Internet, rádio, tv ou amigos histéricos, a notícia começou a circular aqui em Montreal só na quarta de manhã, dia 9: show do Arcade Fire hoje à noite. Gratuito. Não havia o que questionar. Eu, que estava me torturando por ter perdido o show secreto que a banda havia feito na sexta, agradeci pela segunda chance e já pedi a rota para o Google Maps. Lugar bem inesperado (até entenderia se Mr. Google viesse com um “você quis dizer…”): o estacionamento de um centro comercial de Longueuil, cidade vizinha de Montreal. Pois é, aproximadamente 10 mil pessoas (e uma quantidade incrível de crianças, por sinal) foram conhecer os subúrbios de Montreal.

Quinze minutos antes do horário marcado, eles entraram já mandando duas novas – “Ready to Start” e “Month of May” – e mostrando que The Suburbs, que será lançado em agosto, pode ser bem diferente dos dois primeiros álbuns da banda. Com duas baterias (Jeremy e Régine) e o ritmo mais acelerado, “Ready to Start”, em particular, foi uma grande surpresa. Uma pegada meio pop em comparação ao som denso e desesperado tão característico do Arcade.

Enquanto “Wake Up” e “Intervention” pedem um estádio, “Month of May” ficou perfeita no estacionamento. Não por uma questão de qualidade, mas a orquestração com mais espaço para os violinos e os coros feitos para serem acompanhados por toda a platéia (inclusive as crianças!) amplificam enormemente as primeiras músicas. Já as novas (foram seis no total) soaram discretas e menos ambiciosas – com exceção de “Rococó”, em que Win Butler pesa a mão no piano.

Mas a energia no palco não diminui em nenhum momento. E, por isso, arrisco dizer que esse foi um dos melhores shows que já vi. A banda parecia extremamente satisfeita mostrando o trabalho novo e talvez o lance de ter sido um show surpresa, confirmado de última hora (a banda só recebeu o aval da prefeitura na noite anterior), tenha criado uma empolgação maior por parte do grupo e do público. Mas conta também a urgência que parece mover a banda, como se cada música precisasse ser cantada.

Will Butler, correndo de um lado ao outro do palco, pareceu personificar toda essa energia, sobretudo nos momentos em que atacava na percussão. A voz de Régine, depois de ter roubado a cena em “No Cars Go”, apareceu em “Haiti” não como um canto, mas como expressão quase involuntária. No entanto, a catarse veio mesmo em “Neighborhood #1”, que não consigo mais escutar nos fones do meu Ipod, tão forte que ela foi no momento. Em seguida, “The Suburbs”, ainda bem nostálgica, mas já em um clima mais leve, equilibrou bem o setlist – afinal, precisávamos respirar de vez em quando. E nada foi mais prazeroso do que cantar o verso “in the parking lot we’re still waiting”. Nenhum Madison Square Garden poderia bater aquele estacionamento no meio do nada.

Bem, eu precisava ver um show do Arcade Fire antes de deixar Montreal. Não poderia ter sido ser melhor. Essa prévia mostrou que a banda está preparada e disposta a fazer uma grande turnê. Agora é aguardar para ver o que eles ainda têm para nos mostrar. E esperar que eles confirmem uma data para o Brasil…

Setlist:

Ready to Start
Month of May
No Cars Go
Haïti
Intervention
Modern Man
Rococo
Neighborhood #1 (Tunnels)
The Suburbs
We Used to Wait
Neighborhood #3 (Power Out)
Rebellion (Lies)

Bis:
Keep the Car Running
Wake Up

Esse texto é uma colaboração de Thaís Viveiro, outra nova colaboradora que – esperamos – irá aparecer nas páginas do Move That Jukebox casualmente. Ao lado de Eduardo Hiraoka, que também entrou pro nosso time, Thaís editava o blog Untuned.

Na noite anterior ao show em Longueuil, o Arcade Fire apresentou mais ou menos o mesmo setlist em Sherbrooke. Alguma boa alma gravou todo o show e liberou o download no megaupload e no hotfile.

7 jun 2010

Tokyo Police Club – Champ

Por  @15:57

O Tokyo Police Club certamente não está entre as bandas mais inovadoras que surgiram nesta última década. Suas músicas, extremamente simples, soam pequenas tanto em tempo quanto em ambição. As letras seguem a mesma linha, evocando trivialidades e inquietudes pueris. A voz de Dave Monks é como a de um adolescente geek permanentemente gripado. As linhas de seu baixo se restringem toscamente a acompanhar as tônicas de cada acorde e a bateria de Greg Alsop pouco foge do esquema caixa-bumbo-chimbal. E isso é quase tudo do que eu poderia dizer para explicar o que faz desse quarteto canadense tão certeiro e inevitavelmente cativante.

Em seu segundo disco, que será lançado oficialmente nesta terça-feira (dia 08), o TPC traz mais uma porção completa destes ingredientes que caracterizam a banda desde o EP Lesson in Crime (2006), que arrebatou público e crítica nas melodias de “Nature of the Experiment” e “Be Good”. Champ, o novo trabalho, assim como seu antecessor Elephant Shell (2008), é como uma coleção de conversas espontâneas, que por alguns instantes podem fazer o seu senso de urgência mirar nada, senão o fato de que você precisa aproveitar o que resta da sua juventude, antes que tenha que começar a levar a vida a sério demais. Monks, com seus 23 anos, bem sabe disso. Assim sendo, alguns poucos acordes e questionamentos sobre sua cor ou comida favorita são mais do que suficientes.

Para quem já conhecia a banda, a primeira impressão deixada por Champ talvez possa enganar e não soar tão empolgante. O clima acústico do início de “Favourite Food”, faixa que abre o disco, contrasta com a usual energia e o ritmo ligeiro da maioria das músicas da banda. Assim como a maior presença da guitarra de Josh Hook em relação aos trabalhos anteriores, onde o baixo pulsante era quem tinha maior destaque. Mas aos poucos, o álbum vai ganhando forma e a essência sonora do TPC começa a reaparecer, se sobrepondo a estas pequenas variações de estilo. Os refrões cantaroláveis, os versos intimistas, os barulhinhos do teclado de Graham Wright. Está tudo lá, ajudando a construir canções que, dentro de seus limites, expressam com muita eficácia aquilo que pretendem. Os melhores momentos estão em “Wait Up (Boots of Danger)”, “Big Difference” e na lenta “Hands Reversed”.

Às vezes, são de coisas assim que nós precisamos. Ponderações básicas, como as do refrão de “Big Difference”. “Less big words and more exclamation marks”. Simples, não? Providencial, entretanto. Logo, garanto que Champ, ou qualquer disco do TPC, não mudará sua vida, nem o mundo, e nem o rock. Mas talvez algumas músicas aqui possam inesperadamente melhorar o seu dia.

1 jun 2010

We Have Band faz show divertido em São Paulo, mas falta público

Por  @0:45

Quando cheguei ao Hot Hot, balada no centro de São Paulo, estranhei a ausência de movimentação em frente ao local. Alguns seguranças, meia duzia de fumantes… Depois de passar dois meses ouvindo WHB, álbum de estreia do trio britânico We Have Band lançado em abril desse ano, ainda estava surpreso com a possibilidade de vê-los tão cedo por aqui. Mas logo percebi que não era tanta gente assim que se sentia da mesma forma.

Ouvi muitos dizerem que estavam com “medo de acabar muito tarde e, afinal de contas, estávamos no inicio da semana”. Nao posso culpá-los. Esperar até as duas da manhã não foi tarefa fácil. Claro que os drinks incríveis da casa e o som do duo Database seguraram bem a onda, mas depois de um dia de trabalho fica puxado aturar até de madrugada. Não precisava.

Quando a iluminação maravilhosa da pista subterrânea do Hot Hot piscou para a entrada da banda e o público se aproximou do palco, olhei pra trás e vi mais da metade do local vazio. Chato isso. Estava no palco um dos maiores buzz de 2009 da cena inglesa – se estivéssemos no Rio de Janeiro eu entenderia, mas esperava mais de São Paulo. Mesmo assim, alheios ao cenário, Darren Bancroft, Dede W-P e seu marido, Thomas W-P, abriram a apresentação com o hit “Divisive”. Não era necessário mais do que isso para ganhar quem estava lá. Cantando e dançando junto, o que se viu foi um private party até o fim da madrugada.

Durante todo o show, o trio se alterna nos vocais num clima meio Hot Chip. Na sequência, tocaram “Heart in the Cans” e “How To Make Friends”. As caixas de som não seguraram muito bem as fortes linhas de baixo de “Love, What You Doing?”, música com sabor de New Order e irresistível ao vivo. Depois de “Buffet” com Dede em seu momento Nico, Darren anuncia – como se ainda fosse necessário: “Se vocês quiserem dançar, essa é a hora”.  E lá veio “We Came Out”. Logo depois tocaram, segundo eles, a primeira canção escrita pelo grupo quando esse se encontrou há dois anos em Londres: “WHB”. “Centerfolds & Empty Screens” e “Hero knows” foram as próximas. Quando a energia do show já não parecia a mesma, eles sacam “Oh!” e trazem o público pra mais perto, cantando junto.

O We Have Band ainda tocou a faixa que dá nome ao disco, “Honeytrap”, e terminou o show já taaaaaarde com “Time After Time”. A banda é uma simpatia só, o show é uma delícia, o set teve todas as músicas que alguém podia querer e, apesar do som meio abalado na noite,  o Hot Hot ainda é um dos lugares mais legais de São Paulo para shows de pequeno porte. Mas, mesmo assim, ainda ficou a sensação de que faltou algo no final. Óbvio que foi o público.

Você lê uma versão adaptada dessa resenha na próxima edição da Revista Noize.

Foto: Priscilla Vilariño / FFW

14 mai 2010

Kate Nash – My Best Friend is You

Por  @17:06

Em Made of Bricks (2007), as armas de Kate Nash eram melodias doces, pianos leves e sua voz soberba, que quase sempre entoava versos meigos e histórias românticas. Mesmo assim, Kate ainda aproveitava alguns momentos para soar um pouco ácida – é o que acontece nas letras de “Dickhead” e no hit “Foundations”, que ganhou uma roupagem alegre para falar de um relacionamento prestes a desabar.

Em 2010, a inglesinha aparece com seu segundo disco completo, My Best Friend Is You, e só agora mostra ser realmente feita de tijolos. A produção de Bernard Butler, ex-Suede, trouxe ao universo de Kate Nash estruturas mais sólidas e complexas, fazendo com que a antiga combinação de piano e bateria fosse deixada de lado. As guitarras, que antes apareciam eventualmente no background das canções, agora assumem espaços maiores em um bom número de faixas – “Take Me To a Higher Plane”, que nos remete à sonoridade quase punk do Los Campesinos!, e “Do Wah Doo”, single com corais no refrão, metais em evidência, toques de soul e clara influência do grupo sessentista Manfred Mann.

Continua no rraurl.

12 mai 2010

LCD Soundsystem – This Is Happening

Por  @12:45

Se os boatos de que This Is Happening será realmente o último disco do LCD Soundsystem se concretizarem, James Murphy e trupe fecharão a trilogia de discos, desculpem o clichê, com chave de ouro. No novo trabalho, o LCD destila muito minimalismo eletrônico, sintetizadores pulsantes, hits certos para as pistas e, é claro, músicas enormes – mas que se desdobram de uma forma convincente e não cansativa. Sim, existem exceções: a chatérrima “Somebody’s Calling Me”, por exemplo. Mas nada que tire o sorriso no rosto causado pelas lindas “You Wanted A Hit”, “Dance Yrself Clean” e “All I Want”. E não tem como não mencionar “Drunk Girls”. Até porque, neste exato momento, a faixa certamente está sendo tocada em alguma balada mundo afora.

Escrita para a 33º edição da Revista Noize.

5 mai 2010

Foals – Total Life Forever

Por  @17:48

Math Rock. Quando ouvi falar nisso pela primeira vez, fiquei me perguntando o que raios essa expressão poderia ter a ver com algum estilo musical. Ouvindo Antidotes, o primeiro LP do Foals, ficou bem fácil entender. As guitarras dedilhadas que nunca formavam acordes, em harmonia com uma bateria marcada, desconstruíam o som de uma maneira minuciosa, planejada, calculada. Preciosidade matemática.

Depois de passar um bom tempo com o trabalho principal, nada melhor do que buscar as famosas “b-sides”, aquelas sobras de gravação que eventualmente revelam preciosidades – e lá estava “Glaciers”, que me fez enxergar o Foals como uma banda de outras possibilidades, além das que se encontravam em hits como “Cassius” e “Red Socks Pungie”. A música era mais longa que as mais famosas e bem, mas BEM mais viajante e abstrata. Mas o calculismo matemático ainda estava lá, de uma forma diferente, como numa equação onde você não entende quase nada, mas sabe que tudo está no seu devido lugar.

Total Life Forever segue por esse caminho. A primeira pista do novo trabalho, “Spanish Sahara”, evidenciava essa atmosfera nova e mais viajada. Até mesmo o clipe era descompromissado com as primeiras impressões: mais uma vez a abstração pontuava aqui e ali. E aí veio “This Orient”, reforçando a postura dos garotos de franja comprida: até mesmo os hits possuem essa característica mais etérea. Enquanto boa parte das bandas se lançam com um som mais ousado e, pouco a pouco, vão se adaptando a melodias mais fáceis de se digerir, o Foals fez o caminho contrário: no caso do grupo, Antidotes, o debut, é mais comercial que Total Life Forever. No segundo, o que ouvia-se em “Tron”, última faixa do primeiro álbum, é intensificado e desacelerado. As novas músicas são mais longas e não parecem ter nenhuma pressa em se desenvolver. Tomemos como exemplo “Fugue” e “After Glow”: a primeira é um mero devaneio introdutório, enquanto a segunda começa devagar, num crescimento que culmina numa explosão com uma jam prolongada (aliás, jam essa que prova que, mesmo em meio à experimentação, o Foals não perdeu o swing).

A música que dá nome ao álbum é também um dos destaques: “Total Life Forever” é dançante e não deixa a peteca da precisão cair. “What Remains”, que encerra o trabalho, demonstra a habilidade que o Foals tem de lidar com suas guitarras. No disco, o Foals deixa transparecer que está ciente de seu talento e o utiliza de maneira mais eficiente do que antes. Os dedilhados nas cordas são tão sinérgicos que às vezes fica a dúvida: “Isso é guitarra mesmo ou é sintetizador?” Aqui, as barreiras da distinção ficam meio comprometidas – para o bem. E como último – porém, não mais importante – destaque, temos “2 Trees”, música de grande sensibilidade, com guitarras à la “Weird Fishes/Arpeggi”, do Radiohead, mostrando que a voz de Yannis Philippakis está cada vez melhor.

Em resumo: Total Life Forever é cheio de eco e reverberações sonoras. Um álbum que não vai agradar, necessariamente, aos que pulavam sem pensar ao som de “Hummer”, mas que provavelmente vai ficar por um bom tempo na playlist dos que gostam de mudanças e amadurecimento.

22 abr 2010

Goldfrapp – Head First

Por  @16:16

É fato que o Goldfrapp sempre teve um pezinho na dance music. Apesar do duo também mostrar muito de sua sensibilidade, os ritmos e agitos desses britânicos são sempre contagiantes. E agora, de uma forma bem diferente das músicas do último álbum, o Seventh Tree (2008), Allison Goldfrapp e Will Gregory nos botam pra dançar e… go disco!

As referências oitentistas já ficam bem claras logo no começo: “Rocket”, já um dos hits mais prazerosos e pegajosos do ano, nos entrega uma melodia envolta em teclados e sintetizadores mil, com um vocal de Allison que deixa claro: agora não é tempo de reflexão, mas de curtição. Isso ficou bem claro na apresentação da dupla no programa do Jonathan Ross, viu?

No trabalho anterior, músicas como “Clown”, “A&E” e “Caravan Girl” traziam consigo toda uma melancolia, um clima mais ameno e intimista, que não tem lugar em Head First. Até mesmo em faixas um pouco mais calmas, como “Dreaming” ou “Hunt”, o clima dançante é mantido com as batidas. Em geral, o que se pode perceber é que o CD inteiro é bem conciso nesse propósito, com algumas músicas menos agitadas, mas mantendo a mesma atmosfera move-your-body, bem típica da “década perdida” (será mesmo perdida?).

“Believer”, apesar de não ser nada ruim, fica um pouco na sombra da belíssima “Rocket”, por vir logo em seguida. A opção por fazer um álbum disco pode parecer cômoda, à medida que segue uma certa cartilha. Porém, Head First não tem cara de repeteco e tem energia de sobra. Em meio às convenções, “Voicething” é a faixa que quebra um pouco o tradicional e apresenta um clima etéreo e certa dose de experimentalismo, sendo a única das nove músicas que não se encaixaria bem numa pista de dança.

“Shiny and Warm” não é imediatamente anos 80, mas conforme vai se desenvolvendo volta aos eixos do álbum. Os destaques ficam por conta de “Hunt” e da faixa-título, “Head First”. As duas nos mostram algo mais do que simplesmente um bom ritmo pra dançar, desenvolvendo em meio ao climão disco melodias bem construídas, provando que mesmo em terreno seguro o Goldfrapp consegue fazer ótimas músicas, sem soar batido.

Finalmente, chegamos a uma conclusão: se você gostava de dançar com “Strict Machine” e afins e achava que estava na hora de mudar um pouco o playlist, agora é só vestir roupas divertidas, pendurar o globo no teto, botar o Head First pra tocar e go crazy.

20 abr 2010

Delorean – Subiza

Por  @21:32

Sempre tenha cuidado com as primeiras impressões: essa é a maior lição para se aprender ao som de Subiza, novo álbum do Delorean, que parece ser apenas o equilíbrio perfeito entre a piração eletrônica do Animal Collective, o rock dançante do Two Door Cinema Club e o mezzo-festivo, mezzo-melancólico Miike Snow – mas, como se uma mistura dessas não fosse suficiente, o Delorean é mais que isso.

Apesar da cara de hype de Subiza, o Delorean não surgiu na última semana. Formado por quatro rapazes simpáticos de Zarautz, uma pequena vila na costa da Espanha, o grupo está de pé desde o início dos anos 2000, mas passou por poucas e ótimas desde então – começando pela entrada de um novo vocalista, Guillermo Astrain, responsável por uma completa reformulação da banda.

A resenha continua no rraurl.