Você não precisa ir longe na internet brasileira para saber dos dois shows de Paul McCartney em São Paulo. Setlist, efeitos especiais, curiosidades, tudo já foi ferozmente esmiuçado pela imprensa, antes, depois e durante o show. Com vinte minutos de pesquisa, dá para saber tanto sobre a apresentação quanto alguém que foi.
Então, não vou desperdiçar o seu tempo falando sobre como é o show do Paul McCartney. Vou falar sobre minhas impressões pessoais.

Acho que, se houvesse uma lista de pessoas mais amadas no mundo, Macca figuraria fácil entre os cinco primeiros. Só amor explica a massa de 60 mil pessoas enfrentando calor e filas quilométricas (no primeiro dia) e chuva e engarrafamentos quilométricos (no segundo) para ficar três horas ou em pé ou sentados bem longe de um palco onde um senhor de 68 anos cantava músicas de quatro décadas atrás.
Mas é injustíssimo fazer uma redução dessas porque Macca não é um artista comum. Esqueça U2, esqueça Madonna, esqueça a porra da Lady Gaga. São todos artistas relevantes, mas nenhum deles chegou nem perto do que McCartney conseguiu: uma carreira baseada exclusivamente na música.
Veja, a Lady Gaga sai por aí vestindo carne porque ela PRECISA disso, faz parte do personagem. Assim como o U2 precisa do ativismo. Macca faz suas campanhas, sim, mas nada nunca se tornou maior que seus discos. Tanto é que o show é simples, muito simples – os luxos são o telão, a pirofagia de “Live And Let Die” e uma chuva de papel no final, só. As 60 mil pessoas não se importaram porque, oras, foram lá pelas músicas.
E quem não quer ouvir Beatles ao vivo? É esse o cerne do show: Beatles e tudo que eles representam para a música mundial. Todas as principais bandas de todas as gerações pós-Beatles foram influenciadas por eles. Não importa a partir de onde você comece a cavar: seja a partir dos Arctic Monkeys, do Nirvana, do Depeche Mode, do Joy Division, dos Ramones, do Clash ou de qualquer outro, você vai dar nos Beatles.

E, de repente, lá está ele, um Beatle, um cara que fez alguns dos maiores hinos da história da música, tocando na sua frente, fazendo piada, dançando. Não tem como não ser envolvido, como não se emocionar. Seria desumano. Desconfie de quem foi indiferente ao show do Paul McCartney – essa pessoa tem problemas.
Tudo que o show prometia ser, ele foi. Teve os clássicos (meus preferidos foram “Back In The USSR”, “All My Loving” e “Helter Skelter”, e os seus?), teve as homenagens (as fotos de George Harrison passando em “Something” me emocionaram), teve as palavras em português (“essa música eu fiz para minha gatinha Linda”, “essa música eu fiz para meu amigo John”), teve a catarse coletiva de “Hey Jude”, teve até uma bandeira do Brasil empunhada.
Tudo seguindo o script da turnê, claro, mas isso é o de menos. Há um esforço genuíno ali em cima para que o público se emocione, para que a experiência seja marcante. Macca faz questão de que seja o show da sua vida, e ele consegue não só porque tem 40 anos de músicas brilhantes para concentrar em três horas de show, mas também porque ele se importa o suficiente para isso. Uma coisa é executar suas músicas, outra é tocá-las de coração. E ele toca. Numa turnê com quarenta datas (eu vi três, uma na Inglaterra), ele toca de coração em cada uma delas.
Daí você diferencia Paul McCartney do resto. Compare com os outros shows do fim de semana. Você aguentaria três horas de Metal Machine Music? Três horas de virtuosismo e músicas irrelevantes dos Smashing Pumpkins? E, mesmo que aguentasse, acha que eles se disporiam a tocar tanto tempo assim? Provavelmente não, mas Macca está aí, fazendo isso por dois dias seguidos. Como ele não precisa mais provar nada para ninguém, só concluo que faça tudo isso por consideração mesmo. E por gosto.

Sabe aquele amor de que eu falei lá em cima? A última coisa que Paul McCartney canta no show é “and in the end, the love you take is equal to the love you make”. É a 3ª Lei de Newton reinventada pelos Beatles. Se for verdade, então Macca não era só a pessoa mais amada naquele estádio nos dias 21 e 22 – era a que mais amava também.
E, se for verdade o que John Lennon disse quando compôs “All You Need Is Love”, então todos nós, fãs devotos e emocionados, passamos seis horas com a vida completa no estádio do Morumbi.

Eu, sem sombra de dúvidas, passei. E você?