1 out 2012

Tame Impala – Lonerism

Por  @10:23

Kevin Parker é do tipo que não sabe brincar: se é pra fazer uma coisa, que faça direito. Isso vale desde compor ou gravar uma música até, e principalmente, assumir um personagem que é um sujeito dos anos 70 que vive num universo psicodélico regado aos mais lisérgicos momentos. Sendo assim, ser líder do Tame Impala (ou ser TODO o Tame Impala, como ele curte afirmar), parece tarefa simples. Só que, cá entre nós, não deve ser.

Assumir a alcunha de bandinha psicodélica do verão, cheia de influências de Revolver ou Pink Floyd ou Supertramp, é fácil. Manter, nem tanto – vide a quantidade de MGMTs que vimos surgir e morrer nos últimos anos. Já para o Tame Impala, isso não parece ser problema. Se a estreia do grupo australiano em Innerspeaker surpreendeu e encantou tanta gente, o novo lançamento, Lonerism, chega para provar que o debute não tinha sido uma jogada de sorte. O novo álbum é tão bom e interessante (se não mais) que o primeiro e, ao longo do tempo, será capaz de dar para cada canção a mesma força que hits do primeiro disco ganharam, como “Solitude Is Bliss”, “Alter Ego” e outras. Já dá para por a mão no fogo por Kevin Parker. Já dá para admirar Kevin Parker.  E confiança é tudo.

Confiança é tudo quando você é um artista entrando em estúdio para criar um álbum que não pertence exatamente à realidade da música pop de hoje – e, ainda assim, querer que ele seja pop. Não sabendo que era impossível, ou sabendo que era possível mas talvez não recomendável, Parker foi lá e fez. E nem precisou filosofar tanto assim para saber do que precisava: reformular as canções que compôs em casa ou na estrada, para que tomassem as características do formato que o primeiro álbum já sugeria, com muita psicodelia, distorção, efeitos e voz de John Lennon. O resultado final então é pop? Claro que não. Mas é muito bom.

Realmente, no geral, as faixas são mais facilmente digeridas que a do álbum de estreia, e isso se deve muito a já estarmos habituados com a proposta da banda. As melodias menos elaboradas nem entram em questão, apesar de estarem presentes em alguns momentos entre as 12 canções. “Be Above It” abre Lonerism e sugere algo novo para o Tame Impala, um plano de fundo com repetição constante de bateria e um loop de voz, onde uma melodia se desenvolve. Funciona bem e chama atenção. Eles já fisgaram você sem que percebesse, como numa espécie de mantra hipnótico. “Endors Toi” já apresenta timbres lindos logo nos primeiros segundos, como se aproveitasse de você imerso na atmosfera pra machucar o coração com uma introdução de um minuto e meio. Aí, com seus quase 6 minutos, a bela e já conhecida “Apocalypse Dreams” surge com seus lindos versos, “Everything is changing and there’s nothing I can do. My love is turning pages while I am just sitting here”, já querendo que você se entregue por inteiro. Dá pra entender o que Parker queria dizer com álbum pop, não?!

“Mind Mischief” soa como verão e “Why Won’t They Talk To Me?” soa como 2010. “Feels Like We Only Go Backwards” é “A” balada da banda. Já “Keep On Lying” nem será lembrada quando “Elephant” estourar no seu som – é hit e é quente.

Pra acalmar os ânimos, a viajandona “She Just Won’t Believe Me” faz você flutuar depois da porrada que foi a faixa anterior, e prepara você para a faixa seguinte, de nome tão grande que não vale a pena citar aqui (mas vale a pena ouvir!). Quando nada mais parece poder acontecer, a linda “Sun’s Coming Up (Lambingtons)” aparece através de um piano e de um vocalista inspirado.

Interessante é ver o Tame Impala não se acomodando. Enquanto poderia apresentar um trabalho que seria uma tentativa de repetição da qualidade do primeiro (não que isso seja normal, mas é comum), a banda acredita que é possível superar a tão elogiada estreia. E por mais que o novo álbum não seja creditado assim por aí, já que é sempre difícil vencer aquele trabalho já tão queridinho do público/crítica, a tentativa está feita. Lonerism é cheio de disposição e Kevin Parker está levando a sério esse personagem que criou – ele realmente deve achar que vive em outro universo (aquele que as drogas devem ter proporcionado) e não quer sair de lá de jeito nenhum. Não deixando isso fazer mal a ele está ótimo, já que faz um bem danado pra gente.

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