Temer Jamais e a Virada Cultural mais política dos últimos anos

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Durante o show de Ney Matogrosso também teve protesto. Foto: Folha de S. Paulo

Fui à Virada Cultural, mas os shows não foram protagonistas dessas vez e nem foi por conta de um monte de atrações diferentes, mas porque não tinha como passar imune aos gritos de “Fora Temer” que se estenderam a absolutamente todos os shows que assisti. Poucos foram os artistas que não se manifestaram no palco, mesmo que discretamente, como fez Tereza Cristina.

O pessoal do #Ocupeademocracia, que fez uma série de shows no Largo da Batata ainda lutando contra o início do processo de impeachment da presidente Dilma (falamos aqui sobre isso), distribuiu para quem quisesse uma folha A4 com os dizeres “Temer Jamais”, projeções também apareciam em prédios de maneira bem artesanal, mas chamavam a atenção de quem via.

A verdade é que quem estava na rua para acompanhar a Virada, também estava na rua tendo a ciência de estar fazendo um ato político, ocupando a cidade e aproveitando a cultura ali despejada em vários cantos de São Paulo. E foi durante o show de Elza Soares, um dos mais cheios que assisti, que as pessoas não tiverem vergonha e a cada intervalo mandavam um “Fora Temer” em coro apoiado pela cantora.

A verdade é que a situação está feia para o governo do presidente interino. Primeiro ele causou revolta com o fim do Ministério da Cultura, levando a uma série de ocupações em prédios por todo o país e a revolta da classe artística como um todo. Até quem foi a favor do impeachment, como o ator Marcelo Serrado, que passeou de camiseta verde e amarela, deu entrevista ao jornal O Globo dizendo estar triste com o fim do MinC. A pressão em cima de Temer foi tanta, que ele voltou atrás e o Ministério Fica!

Não obstante, agora veio à tona uma gravação relatada pelo jornal Folha de S. Paulo, que mostra o já ex-Ministro do Planejamento do “novo” governo, conversando com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, em que os dois deixam bem claro, que para barrar as investigações da Lava Jato é preciso que haja impeachment. Será que o povo ficou feliz com isso? Pelo menos, quem saiu de verde e amarelo por aí, deve ter se sentido traído, não? Ser usado de massa de manobra realmente não é algo confortável.

Bem, voltando à Virada Cultural… Este ano, as atrações foram mais esparsadas, para não criar tanto tumulto como nos últimos anos e, embora tenha se perdido aquela sensação de estar andando pela cidade e se deparar com algo maravilhoso, essa distância entre os palcos, realmente ajudou. Este ano, acho que faltou um pouco mais de novidade na programação, pelo menos quando falo de música, mesmo assim, a nota dada pela população ao evento subiu 0,2 ponto, indo para 8,4.

Primeira noite

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A rainha Elza Soares no palco São João dedicado às mulheres. Foto: Folha.

Yusa (Cuba)

A cantora cubana não tem um show empolgante não. Na verdade, ele é até meio morno, mas a moça canta e principalmente, toca muito. O som estava muito alto, o que atrapalhou um pouco. A cubana foi a primeira se solidarizar “com o que estamos passando no Brasil” e dedicou músicas para o momento e ainda pediu que a cultura não tivesse fim. Arrasou!

Félix Robatto convida Pinduca

Félix Robatto foi um dos curadores do Pulso, a ocupação artística que rolou no Red Bull Station e nós comentamos aqui, ele também é um paraense que está trazendo uma série de novidades para a guitarrada paraense. No show, além de mostrar músicas dele, como a divertira “Eu quero Cerveja”, também mandou clássicos da guitarra e ainda trouxe o Mestre Pinduca ao palco com seu indefectível chapéu cheio de chapeuzinhos pendurados.

Ellen Oléria

Ellen está apresentando o disco “Afrofuturista” e fez um dos shows mais políticos da primeira noite. Não teve vergonha de falar sobre igualdade, sobre o fim do Ministério da Cultura ou do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos e mandou a frase: “Nós queremos um mundo melhor agora e não apenas para os nossos filhos”.

Figueroas

Foi uma pena, mas Figueroas simplesmente decepcionou quem foi ver seu show. A lambada quente ficou morna e cheio de covers, totalmente sem necessidade.

Valeska

Não, não dava para não assistir a Valeska. Admiro muito a posição dela como mulher e feminista para simplesmente passar imune a isso, mas foi uma decepção. Valeska não canta as músicas e ainda manda um monte de cover, desde Xuxa, a música sertaneja do momento e Ludmilla. Não me lembro de ter ouvido uma só música dela. Pena!

Gaby Amarantos

Gaby fez um show totalmente diferente do que se esperava dela, ela aproveitou o palco da Virada para fazer um soundsystem, por isso, chuva de versões. Uma das melhores “Work”, de Rihanna e Drake.

Elza Soares

É uma unanimidade o disco da Elza é o melhor disco lançado em 2015 e o show não podia ser menos do que isso. É incrível, é lindo, é ótimo, é foda! Não vou falar muito por dois motivos: estava longe e um tanto alcoolizada, por isso, só lembro das músicas e não faço ideia do que ela falou no palco.

Segundo dia

Dormir, descansar, tomar água de coco e de volta para a Virada Cultural.

Genival Lacerda

Escolher ver o show do Genival segue quase o mesmo preceito da Valeska, seria difícil conseguir vê-lo em outra oportunidade e não foi nada errado. Ele cantou vários clássicos de grandes artistas, como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro e ainda fez a dancinha “segura bucho”.

Academia da Berlinda

Banda que levou apenas dez unidades do disco para a Virada, aproveitou para dizer que está para lançar um novo álbum que sai agora no meio do ano. O show foi divertido.

Teresa Cristina

Ela fazia uma apresentação apenas voz e violão em homenagem à Cartola e que show, hein? Estava muito bonito de se ver. No final pediu para tirar foto com o público e disse: “Cadê os cartazes?”.

Liniker e sua banda os Caramelows no Sesc Pinheiros lotadíssimo! Foto: Zé Carlos Barretta

Liniker e sua banda os Caramelows no Sesc Pinheiros lotadíssimo! Foto: Zé Carlos Barretta

Liniker

Antes de ir para o Sesc Pinheiros assistir, ou melhor, tentar assistir ao show de Liniker, dei uma passada no Criolo, que segundo a Folha de S. Paulo fez o show mais político da Virada. Se vocês derem uma passada no Instagram do Ganjaman, vão ver que rolou no palco a projeção do “Temer Jamais”. Bem, bem… Liniker no Sesc Pinheiros foi o que podemos chamar de caos. Para quem não conhece o espaço, o show foi do lado de fora e acontece no meio da praça, o porém é que o espaço não comportava aquele tanto de gente. Tava cheio, tava lotado. Não tava nem tranquilo, nem favorável. Mas depois de andar para lá e para cá, consegui achar um espaço para minimamente ver o palco. Quem não conseguiu entrar na unidade, gritava da rua “libera”, mas gente, não tinha mais espaço sério. O próximo passo ali, era gente morrendo pisoteado. Ainda bem que o pessoal do Sesc teve essa noção. Vamos ao show. Do que consegui ver, fiquei impressionada. Liniker tem uma voz linda, uma presença de palco invejável e é cheio de atitude. Foi dele a melhor frase contra o dito golpe: “Não vai ter golpe, vai ter lacre, isso sim!”.

A Virada acabou com um caldinho de feijão com bacon (maravilhoso!) na comedoria do Sesc Pinheiros e um gostinho de quero mais. Não podemos esperar para ir no ano que vem.

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