The Black Keys – El Camino

Li em algum lugar no final de 2010 que Merriweather Post Pavilion, do Animal Collective, se assemelhava em alguns pontos ao Kid A, do Radiohead. Ambos eram discos complexos, com várias camadas e um tanto quanto inacessíveis, que encerravam uma década começada com discos garageiros seminais: Nevermind (Nirvana, 1991) e Is This It (The Strokes, 2001). Mais do que isso, em suas respectivas sofisticações, ambos encerravam um ciclo, abrindo espaço para que algum próximo grupo de adolescentes se juntasse em uma garagem, pisasse em cima de tudo isso e recomeçasse a história com um disco sujo, barulhento e genial. Na década de 2010, não há ninguém mais apto a seguir esses passos do que os Black Keys.

A banda já tem sete álbuns na bagagem, é verdade, mas foi só com Brothers, de 2010, que o grande público a descobriu. El Camino é o álbum da consagração. Desde que o riff de “Lonely Boy” começa a explodir no alto-falante (porque o disco é bom demais para ficar preso aos fones de ouvido), sentimos a força que ele carrega. Dan Auerbach não economiza no pedal de fuzz ao derramar suas lamentações sobre uma garota que o mantém “esperando, esperando”, enquanto Patrick Carney desce a mão na caixa, dando forma a um dos maiores singles do ano.

Há, como sempre, uma boa dose de rock dos anos 60 e 70 permeando o álbum, mas influências menos óbvias aparecem aqui e ali, como o riff de “Gold On The Ceiling”, emprestado de David Bowie e dos Yardbirds, a bateria inicial de “Dead And Gone”, que faz reverência a “I Am The Resurrection”, dos Stone Roses e a intro da fantástica “Money Maker”, que alude a “Where Have All The Good Times Gone”, dos Kinks. Um momento especialmente bom é quando a banda empresta o baixo de “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, de Michael Jackson, para a fabulosa “Stop Stop”, uma deliciosa faixa mais lenta que tem os dois pés no R&B dos anos 80.

Só que, acima de quaisquer influências, está o som que os Black Keys criaram ao longo de outros seis álbuns, em “El Camino” novamente com a cortesia do melhor produtor em atividade no mundo, Danger Mouse. Como é característico de Mouse, ele capricha em deixar o som cristalino e impedir que as melodias sejam encobertas pelo ritmo (igualmente importantes como são, a guitarra de Dan é sempre muito mais marcante que a bateria de Pat). A banda, livre para voar, entrega diversos momentos memoráveis, como em “Run Right Back”, em que o baixo e a guitarra base derramam um groove irresistível que explode em um refrão blueseiro de primeira estirpe.

Uma característica importante do álbum, os vocais femininos, herdados do funk dos anos 70, aparecem da primeira à última faixa, adicionando leveza a “El Camino” e um certo glamour vintage que, bem utilizado, sempre joga a favor das músicas. “Sister”, por exemplo, começa com uma batida firme que conduz a música até o refrão, onde os vocais femininos entram e varrem toda a crueza da faixa, pondo charme na história da sister abandonada por todos ao seu redor. Deixa imaginando como seria uma versão na voz de Amy Winehouse…

“Little Black Submarines” começa acústica e vira uma pedrada com um solo furioso que fará corar quem achava que não havia mais espaço para isso em pop-rock. “Gold On The Ceiling”, com suas palmas, sua letra autopiedosa e sua vibe country-glam, ressuscita Marc Bolan para as novas gerações, enquanto a ótima “Nova Baby” centraliza outro dos ingredientes secretos do álbum: os teclados (curiosamente, para um grupo de fãs antigos da banda, um dos maiores pontos negativos do álbum). Quando chega “Mind Eraser” e Dan canta “don’t let it be over”, você realmente espera que El Camino não termine ali e continue por muito, muito tempo…

Após uma década que viu sites e revistas influentes se ajoelharem perante ondas como a new rave, a chillwave, a electroclash e tantas outras, e em que qualquer fulano capaz de tocar alguns acordes e colá-los no GarageBand com bases baixadas da internet foi taxado como salvador da música, é verdade sim que, como em 1991 e em 2001, nós precisávamos ser salvos. Precisávamos de um recomeço. A van que estampa a capa do disco levou Dan e Pat por intermináveis turnês ao longo dos EUA, entre invernos gelados e verões infernais, ao longo de mais de 300 shows e com jornadas em que cada um passava até doze horas dirigindo. Tudo para desembocar aqui, agora. El Camino? Sim, o da nossa salvação.

  • igor

    excelente resenha

  • Alexandre

    Black Keys é a melhor coisa surgida no Rock de 2000 pra cá. El Camino só vem confirmar isso.

  • joaquim coelho

    Eu concordo, Alexandre. Aliás, vou ainda mais longe… acho Black Keys uma das pouquíssimas bandas remanescentes do bom e velho rock´n´roll. Depois de 31 de dezembro de 1979, poucas estrelas (sim, sou aficionado pelos anos 60/70) me chamaram tanto a atenção pelo brilho. Acho melhor até do que White Stripes, que também curto bastante.