The Black Keys - Turn Blue

The Black Keys
Turn Blue

Nonesuch

Lançamento: 12/05/14

Sempre vai haver espaço para nostalgia no rock. Um dos headliners do Lollapalooza do ano passado bem o experimentou ao se deparar com uma plateia de milhares de pessoas esperando a slide guitar de Dan Auerbach despejar suas misturas de rock e blues. O The Black Keys, hoje em seu oitavo álbum, é uma banda que esperou tempo demais por reconhecimento. Uma clara mudança de rumos veio pelas mãos de Brian “Danger Mouse” Burton, produtor de Attack & Release (2008), direcionando Dan e Patrick numa veia cada vez mais dançante e, por consequência, eficiente geradora de hits. “Fever”, primeiro single do presente Turn Blue, apela para o lado do ouvinte que espera o Black Keys de temas rápidos de guitarra e batidas rítmicas de bateria, mas a entrega é uma fuga para um recanto calmo, melancólico e vagamente psicodélico.

Se a mão de um produtor parece ter sido determinante no sucesso do duo, partindo de um início mais puro, formado pela crueza do garage rock com raíz no blues, seu envolvimento gerou por resultado faixas abertas a temas menos complicados, que usavam a sonoridade dos anos 40 como mais um ingrediente “diferente” aos ouvidos do público. Abriu-se aí o precedente que alçou a banda aos pés de uma plateia messiânica, e às costas dos puristas que torcem o nariz para misturas de gêneros. O Black Keys se complica ao passar a ser enxergado por uma torrente cada vez maior de pessoas como “banda de produtor”, que trabalha levando a matéria-prima, mas tem resultado final tão remexido que talvez não possa reclamar autenticidade para si.

Turn Blue é a prova de que computar todas as mudanças ao braço de Danger Mouse talvez seja incerto. Momentos trazem por vezes, sim, sonoridades de facetas claramente usadas pelos produtor, seja nos contornos que trazem o “space sound” de seu projeto Broken Bells ou no sombrio desgosto que tomou conta da voz de Norah Jones em Little Broken Hearts (2011), produzido também por ele. A nova faceta, entretanto, é abastecida pela psicodelia setentista de “Weight of Love”, interesse de Dan e seus longos solos de guitarra. Alimentado pela melancolia estática de Auerbach e o complicado divórcio do vocalista, altamente explorado pela mídia, surgem letras, mas principalmente sonoridades, que usam momentos esparsos, como páginas em branco onde o melhor a se fazer é não sentir. Encontra em dedilhados de guitarra e violões acústicos de inspiração setentista um modo de traduzir a dor sem apelar ao exercício da pena de si mesmo, o que poderia tentar trazer nas letras. “Bullet in The Brain”, “Waiting On Words” e “In Our Prime” são bons exemplos de sua eficiência.

O presente do Black Keys, então, é marcado por mudanças. Abrem mão de soar facilmente dançantes, embora lembrem muito bem o caminho, como se vê em “Fever” e nos ecos de Bruce Springsteen de “Gotta Get Away”. A dupla estuda suprimir sua máquina de hits na busca por experimentações de um viés de rock que pouco havia buscado até o momento. Seguindo nova linha de raciocínio, parecem menos interessados em fazer seus ouvintes pularem euforicamente em seus shows, como o faziam explorando os materiais de Brothers (2010) e El Camino (2012) – álbuns igualmente competentes e bem próximos na estética. Turn Blue pode decepcionar quem esperava mais da combinação entre Dan Aurbach, Patrick Carney e Danger Mouse, como aquele slide guitar acompanhado por falsete de outros registros, feito sob medida pra cantar junto. O fato é que a banda já conquistou, a duras penas, verdade, sólida base de fãs para se juntar às garotas gritando nas primeiras filas de festivais: público finalmente conquistado, agora é hora de ousar mais. Seja em “10 Lovers” ou “Weight of Love”, o Black Keys tem coisa nova pra contar.

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