Brandon Flowers - The Desired Effect

Brandon Flowers
The Desired Effect

Universal Music

Lançamento: 18/05/15

A percepção de público trabalha contra Brandon Flowers. Do início do Killers em Hot Fuss (2004), a banda passou por uma crescente mudança de rumos que substituía lentamente o dramalhão das letras de Flowers, e as sonoridades que os atiravam na mesma pilha de artistas que atingiram o mainstream na época por guitarras ligeiramente mais abertas e dançantes. Não tentaremos fingir, claro, que o problema não foi quando o dançante virou ÉPICO e o Killers se tornou um arremedo de U2 (ou até pior, de Muse) em Battle Born (2012). Compreendendo o espaço de possibilidades entre o pop descarado e o pop rock e, dessa vez, virando a curva pouco antes de bater na música de arena, surge The Desired Effect, segundo álbum solo do compositor. Dando vazão e mais substância ao que sempre pareceu tentar fazer com sua banda principal, mas que acabou por ser interpretado como mero detalhe, Brandon arranja 10 faixas que evocam o espírito de diversão dos anos 80 como evidente influenciador de seu trabalho.

Completo oposto à sua estreia solo em Flamingos (2010), álbum onde enfileirava composições mais pessoais e tímidas impressões sobre a vida de celebridade em sonoridades que pouco escancaravam sua afeição pela música popular, a intenção de Brandon aqui se volta à música com potencial de ganhar as pistas de dança. A abertura à música pop encharcada de sintetizadores, gritos apoteóticos e refrãos fáceis não é, contudo, um redirecionamento ao puramente “pop”, mas uma maior comunicação com uma era em que o hoje desgastado gênero não mantinha grandes diferenciações do rock. Dos exemplos mais comuns de sonoridade que não buscava necessariamente um nome, mas um lugar no imaginário coletivo seguiam as programações das rádios faixas de Queen, Pet Shop Boys  e Police, seguidas por qualquer banda de som mais “pesado” sem que a pecha de insípido fosse levantada pelos mais puristas.

Em sua investida pelo universo dançante, a primeira metade de Desired… cumpre com mais eficiência o objetivo de divertir. Abrindo com a bela produção de metais acompanhada por detalhes de música africana, “Dreams Come True” é a personificação de como evitar um desastre, esquivando-se perigosamente por pouco de uma faixa em tons grandiosos à la Imagine Dragons. Natural campo de produção de hits, o pop de Flowers alcança o radiofônico em faixas como a excelente “Can’t Deny My Love”, mistura de inteligência na variação de percussões e um refrão que sobrevive no imaginário sozinho, após o fim da audição, além dos produtos de época “Between Me and You” e “I Can Change”. A primeira, composição fácil num repertório romântico como o de Cindy Lauper, a segunda, irônica canção sobre a mudança de comportamento impulsionada por um iminente pé na bunda.

Além da óbvia ausência de sua banda principal nos créditos do projeto, Desired Effect acaba por não chegar ao público com o rótulo do Killers na capa por receio de uma má interpretação das inspirações de Flowers pelos fãs do grupo. Por algum motivo ainda se espera que o quarteto retorne a um rock mais robusto, apresentando uma outra vaga referência oitentista acobertada por baixos e guitarras ao invés da natural abertura ao mainstream que Brandon vem construindo ao longo de seus lançamentos. É provável que haja certo receio de que o vocalista acabe por perder a mão na produção de seus álbuns e que o Killers acabe como a banda que projetou bons hits no início da carreira, mas que acabou descaracterizada ao tentar se projetar demais a um público vasto – se o exemplo do Muse não lhe parecer suficiente, Maroon 5 e Coldplay podem servir de deja vú.

The Desired Effect tem gosto de pedido de desculpas de Brandon Flowers. Um mea culpa por ter forçado sua banda principal à projeção de sonoridades que tinha intenção de escancará-los ao pop, mas que devido à má realização do último disco do quarteto acabou por ser melhor esquecido. Em seu álbum solo encontra maneiras mais interessantes de demonstrar reverência à música do passado sem se assemelhar ao que de mais enfadonho o pop rock tem apresentado ultimamente.  Revive clichês dos anos 80 como os solos de guitarra com predileção à farofagem, sintetizadores espalhados por onde alcançarem os ouvidos e refrãos cantados em coros soul para relembrar o quanto dançar já foi espontâneo. Se esse direcionamento é uma válvula de escape para suas composições longe do grupo a que pertence ou um primeiro passo para uma (segunda) reforma no som do Killers, aí é esperar para ouvir. Enquanto isso, o refrão de “Can’t Deny My Love” tenta persuadir para todas as possibilidades de uma mudança.

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