Blur - The Magic Whip

Blur
The Magic Whip

Parlophone

Lançamento: 27/04/15

O Britpop foi dos poucos movimentos a não deixar herdeiros. Guitarras em ganchos com habilidade pop, letras sobre tédio e a decepção da entrada na vida adulta contrastando com sonoridades razoavelmente solares. Os membros da cena que nunca teve uma voz coesa traçaram caminhos muito distintos passadas décadas de seu surgimento: o Oasis se desmantelou de modo barulhento e tem Noel seguindo a cartela do rock com considerável afinco – mas pouca inventividade; o Pulp excursiona em pequenas casas de show fomentando nostalgia; finalmente, o Blur, com o irrequieto Damon Albarn de um lado e as estruturas inteligentes da guitarra de Graham Coxon do outro, resolveu voltar à ativa após uma série de shows comemorativos. Advindos de uma sonoridade particular e que não floresceu lá muitos frutos desde seu fim, fora um outro nome do indie rock, o Blur se pergunta se o rock britânico dos anos 90 ainda tem algum fôlego na nova cena que justifique um retorno.

The Magic Whip é, portanto, um disco que embora olhe com carinho para o início da carreira de seus músicos, não tem grande intenção em remontar a mesma banda que escolhia nos dados entre guitarras e refrãos pop. Primeiro de inéditas desde Think Tank (2003), mas que reúne a formação original em disco – desta vez incluindo Graham Coxon pela primeira vez desde 13 (1999) -, é um registro que cuidadosamente atualiza a sonoridade da banda aos novos tempos. Gravado em Hong Kong graças a uma janela na agenda de shows do Blur durante a turnê de retorno há dois anos, o álbum traz em menor escala o que viriam a ser os temas desenvolvidos com maior plenitude no solo de Damon Albarn, Everyday Robots (2014): a solidão que cerca o indivíduo mesmo quando rodeado por multidões e a interferência da tecnologia no trato social.

O que difere a nova empreitada do Blur de uma tímida sequência do disco anterior de Damon, além da produção – na maior parte do tempo, muito diferente da que o britânico escolheria em uma empreitada solo -, é o verniz nostálgico de faixas puramente rock como “Go Out”. Filha ilegítima de um álbum de Coxon, esta é barulhenta demais para o tato de Albarn, ao passo que é dançante demais para o gosto de Graham. Abre o registro a estritamente noventista “Lonesome Street”, capaz de confundir o fã mais desavisado se seus fones de ouvido não estariam captando o velho quarteto de Parklife (1994) em algum b-side. “I Broadcast” é outra pra relembrar o clima de entrada de um novo século e a simplicidade divertida que o grupo apresentava no meio dos demasiado sérios Oasis e Verve. Enquanto “Ice Cream Man” faz transição à segunda metade de The Magic Whip, as letras de Albarn e a curvatura a detalhes eletrônicos melancólicos abrem maior espaço ao ambiente de criação que impactou da arte de capa ao corpo sonoro do registro.

“Thought I Was A Spaceman” é dessas que recriam a sensação de abandono num mundo lotado de gente, o que em primeira análise pode parecer um tema de interesse restrito à cartela de Albarn, mas que facilmente pode ser o desenvolvimento natural de um grupo que sempre usou a observação da massa na escrita de suas canções. O Blur passa da zombaria da classe média repleta de idiossincrasias, à parte do todo, agora também envolto em seus próprios problemas banais, como as contas, o relacionamento em declínio, as amizades que passam por altos e baixos, etc. “My Terracotta Heart” traz a essência do equilíbrio nas conjunções entre Graham-Damon, e se a letra abandonada ilustra a dor de um ponto final entre duas pessoas, os dedilhados de Coxon parecem consolar o compositor da faixa com certa melancolia. Já as tensas “There Are Too Many of Us” e “Pyongyang” se abrem em curvas diferentes – a primeira usando a dramaticidade de violinos com qualquer ar de latinidade, e a segunda acenando longe a urbanidade em redenção do Gorillaz.

Seguindo a evolução de The Magic Whip, é possível notar que contra qualquer expectativa, Albarn sente, sim, saudades de sua juventude no Reino unido – chutando latinhas e reclamando de figuras de autoridade parcamente formadas culturalmente ao lado dos três companheiros. As faixas que acompanham desenvolvimento do álbum, todavia, mostram músicos que cresceram individualmente e em escolas distintas. Damon se rendendo ao eletrônico que deu origem ao Gorillaz e a seu álbum solo enquanto Graham Coxon seguiu estudando a dosagem de sua guitarra entre a sobreposição da mensagem e o reforço ao discurso. Com forte linha de argumentação sustentada a partir das letras de Damon, é um tanto quanto natural que as sonoridades melancólicas deem a impressão de todo que se sobrepõem aos detalhes mais pop. O Blur como grupo, porém, continua presente, ainda que pulverizado em sua essência. A banda procura apenas um meio de se renovar para um novo público e relembrar como é criar em grupo.

Revisitando lugares antigos, compondo em novos ambientes, o Blur se posiciona em algum lugar entre passado e o aperfeiçoamento de um novo som. O equilíbrio entre as partes parece, felizmente, apenas questão de tempo.

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