The National - Trouble Will Find Me

The National
Trouble Will Find Me

4AD

Lançamento: 17/05/13

Ao receber “Pink Rabbits”, Matt Beringer, o vocalista do The National, tinha uma nova obsessão. Deixou de lado a porção de outras músicas para as quais estava escrevendo as letras e se focou nela. Ao todo, foram nove versões diferentes escritas. Uma delas foi a que entrou como a décima-segunda faixa de Trouble Will Find Me, sexto disco da banda. Em entrevista ao The Guardian, Beringer disse que entre as outras versões, em três delas ele cantaria sobre a morte, “mas de um forma engraçada”. Entre as bandas contemporâneas, o The National deve ser uma das poucas que se atreve a cantar um assunto tão pesado sem usar uma estética pesada na sonoridade. Mas é, provavelmente, a única que acha ser possível falar sobre esse tema de forma engraçada.

Trouble Will Find Me chega três anos após o último trabalho, High Violet. O The National não é exatamente novo — nem são seus integrantes. Sempre vestidos de forma elegante, camisas e ternos bem caprichados, eles passam um ar sério e sóbrio. Muito diferente deste clima é a música, cheia de devaneios, perturbações e paranoias em suas letras. Sempre foi assim. Mesmo quando o grupo tinha um sonoridade completamente diferente do que ouvimos nos últimos álbuns, que tem como marco Boxer, de 2007, as letras perturbadoras já estavam lá. O disco de estreia, também chamado The National, já mostrava a bela melancolia característica da banda. Beringer já cantava, em “Theory of Crows”, que “If I forget you, I’ll have nobody left to forget” (Se eu te esquecer, não sobrará mais ninguém para esquecer). E Trouble Will Find Me não vem livre desses sentimentos. Um dos versos que mais incomodam vem em “Don’t Swallow The Cap”: “I have only two emotions, careful fear or dead devotion” (Eu tenho apenas duas emoções, medo cuidadoso ou devoção mórbida).

É difícil falar sobre qualquer evolução ou amadurecimento desde o lançamento de Boxer, há seis anos. Lá, a banda havia alcançado seu máximo. Parecia impossível superar o trabalho que havia sido feito ali – e, de fato, eles ainda não foram capazes disso. O que fizeram, no entanto, talvez seja ainda mais impressionante: mantiveram o altíssimo nível. High Violet trazia a mesma capacidade musical e de letras. Por mais que o perfil do álbum estivesse um pouco diferente, ainda era o mesmo ápice de Boxer. Com Trouble Will Find Me, temos o mesmo cenário repetido. Enquanto Boxer trazia um uso grande de pianos e violinos, por exemplo, High Violet abusava dos instrumentos de sopro. Trouble Will Find Me é uma mescla dos dois esforços anteriores. Em alguns momentos ele se aproxima bastante de Boxer, como com “Graceless”, que tem uma bateria bem parecida com “Apartment Story”. Em outros, a proximidade fica com High Violet. “Heavenfaced” soa muito próxima do clima de “Runaway” ou “England”, do disco anterior.

Com 55 minutos, Trouble Will Find Me é o CD mais longo da banda. Isso é bem perceptível na primeira audição. Ele tem sete minutos a mais do que Aligator, que vem em segundo lugar na discografia. Não que TWFM seja enfadonho. Mas para os acostumados a ouvir LPs inteiros do National, é difícil não pensar nas últimas faixas algo como “nossa, ainda não acabou?” Nada mais apropriado para o trabalho com maior número de participações especiais até agora. Músicos como Sharon Von Etten e Nona Marie Invie (do Dark Dark Dark) fazem sua estreia ao lado do grupo americano. Outros nomes aparecem novamente. Sufjan Stevens é figura certa desde Boxer e Richard Perry, do Arcade Fire, já havia participado em High Violet.

São poucas as novidades em Trouble Will Find Me, mas a mestria alcançada há alguns anos faz com que isso não seja problema. Passeando com elegância entre as 13 canções, o The National mostra que ainda está longe de entrar na parte ruim da sua carreira — por mais que Beringer tenha questionado até quando a banda pode aguentar. Desde músicas aparentemente alegres que cantam sobre humilhação, em “Humiliation”, passando por temas tristes com letras também depressivas, como em “This Is The Last Time”, e, finalmente, falando sobre a morte e a perda em “Pink Rabbits”. O conteúdo é pesado, mas todos temos um lado masoquista dentro de nós. E sofrer com o The National é uma de nossas atividades favoritas.

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  • Arthur

    “falando sobre a morte e a perda em “Pink Rabbits” vocês realmente escutaram o disco?

  • Victor Caputo

    Arthur, lendo agora, achei que pode ter ficado um pouco dúbio mesmo. A ideia era falar de morte para as versões que não entraram, que eu cito no primeiro parágrafo, e sobre perda e suas consequências (dentro de um relacionamento, uma separação, etc…) como a versão que entrou mesmo.

    Eu ouvi o disco, sim. Espero que você também tenha ouvido, pq ele é realmente bom.

  • Arthur

    relendo agora, meu comentário soou meio agressivo, desculpa ai cara. E sim, sim, o disco tá sensacional. abs =~

  • Vinícius

    O melhor disco de 2013 até agora (e até o fim também :]). The National arrebenta demais. Já sou fã há anos, desde Mistaken for Strangers, muito bom ver o sucesso alcançá-los com força, merecem demais.