The Raveonettes – Rarities & B-Sides

Antes da puerilidade de In And Out of Control (2009) e das trevas de Raven In The Grave (2011), os Raveonettes eram uma das bandas mais interessantes dos anos 00, mesclando shoegaze, surf music, rockabilly, girl groups dos anos 60, Phil Spector e Johnny Cash. O primeiro EP e os três álbuns subsequentes da banda equilibravam esses elementos com criatividade e personalidade, injetando ar fresco em uma cena que parecia ser dominada por cópias dos Strokes e dos Libertines – embora boa parte da mídia internacional fizesse questão de ignorar isso. Rarities & B-Sides é o lançamento oficial da impressionante quantidade de lados-b que ficaram de fora dos discos dessa fase.

Mais que isso, é um lançamento necessário: boa parte dessas músicas havia saído em singles obscuros e permanecia inacessível para o público, mesmo via download ilegal. O máximo em que os fãs conseguiam colocar as mãos era um torrent chamado Rave-O-Rama, que não continha nem metade das canções desse novo disco. E o incrível é que, mesmo com 27 faixas, Rarities & B-Sides ainda deixa de lado algumas pérolas do duo dinamarquês, como a cover minimalista de “C’mon Everybody”, de Eddie Cochran, e a linda versão de “Everyday” (Buddy Holly) com Sharin Foo cantando, entre outras.

Nas primeiras faixas do disco, revemos os Raveonettes da época de Whip It On (2002), com as guitarras distorcidas jogadas contra paredes de barulho branco e um baixo sempre encorpado. Músicas como “Evil  L.A. Girls”, “Go Girl Go” e “Demon’ Fire” trazem as Fenders e Gretsches de Sune e Sharin rasgando riffs a cem por hora, com camadas e camadas de feedback e eco ajudando a dar aquela cara de Suicide-encontra-as-Ronettes que a banda tanto gosta. Mas a bateria, essa lembra sempre o The Jesus & Mary Chain.

Quando “Bubblegum” bate nas caixas de som, já estamos no terreno de Chain Gang of Love (2003). Um doo-wop delicioso, a faixa conta com uma das guitarras-base mais inspiradas de Sune e uma letra que, como em vários bons momentos da carreira dos Raveonettes, parece saída do diário de uma menina de 13 anos: “I don’t like this town / I’m going away / Yeah that’s right / Now heaven awaits / A better place / If you ask me”. Mais confortável, a banda começa a explorar mais seu leque de influências. “The Christmas Song”, que chegou a aparecer no seriado The OC, põe a caixa da bateria no topo de uma balada que poderia ser das The Crystals. “Vamp, Scratch, Whore”, surf music com um tiquinho de blues, ressuscita o The Ventures. “I Wanna Be Taken” é Roy Orbison. “Oh, The Time”, Velvet Underground. “Go on and kiss me”, Buddy Holly.

Mas nada que soe como reciclagem barata. A qualidade dos Raveonettes sempre foi juntar suas influências em uma mistura improvável, mas com estilo próprio e uma veia pop que apelaria muito mais a Nancy Sinatra do que a Debbie Harry. É rock, sim, mas idealizando o charme em vez da rebeldia, e sem abrir mão do barulho.

“Dreams Come True” já traz os timbres de Pretty In Black, o ótimo álbum de 2005 em que os Raveonettes começaram a esquecer o barulho branco (mas só um pouquinho) em busca de um som mais calmo e melódico. A faixa, um midtempo semiacústico, é outra ode ao pop dos anos 60, em especial aos Everly Brothers. “Please You”, que foi trilha de um filme dinamarquês obscuro, traz de volta as guitarras de surf music engolfadas pelos vocais doces de Sharin e por um feedback abrasivo que, quando chega o refrão, faz parecer que a música está sendo levada em um turbilhão de barulhos difusos. O fade-out é fantástico.

A fase seguinte é aquela em que os Raveonettes começaram a olhar um pouco mais para os anos 80, como pode ser visto em “Another Noise”, que traz, entremeados entre as guitarras shoegaze de Sune, solos agudos bem ao gosto do The Cure, uma influência que seria importante mais para a frente (veja nossa resenha de Raven In The Grave). O refrão para estádios de “The Landlord”, uma das raras vezes em que os Raveonettes tentam ser grandiosos, é outro exemplo. Todas são sobras de Lust Lust Lust, um álbum em que Sharin e Sune carregaram as músicas de ambientações etéreas e espaçamentos maiores. “Honey, I Never Had You” remete imediatamente a esse álbum, mas ainda há espaço para o Raveonettes clássico, como na pesada “Where Hearts Are Dead”.

Ao final da jornada de quase três dezenas de músicas, nenhuma ruim, percebemos como os Raveonettes de antigamente eram inovadores com sua salada sônica que viajava entre tantos estilos e épocas e não perdia seu pedigree pessoal. Retrô e modernista, áspera e delicada, masculina e feminina, preta e branca, pesada e acessível, a música dos Raveonettes era talvez o melhor símbolo do pop nesse novo século. Não é à toa que eles acabaram compondo uma canção chamada “Vintage Future” – que, aliás, não tinha vocais, pois, para algumas bandas e alguns momentos, palavras são desnecessárias.