The Raveonettes – Raven In The Grave

Desde o comecinho, a fórmula dos Raveonettes tem sido a mesma: surf music, shoegaze e doo-wops, sempre com doses cavalares de ruído branco e vocais açucarados. No EP Whip It On (2002) e nos dois primeiros álbuns, os Raveonettes usavam esses ingredientes para fazer músicas dançantes, roqueiras até, que muitas vezes pareciam ter saído direto de algum vinil obscuro das décadas de 50, 60 ou 70. Com o novo disco Raven In The Grave, essa história muda, e bastante.


Os Raveonettes flertam com um lado mais escuro da música desde Lust Lust Lust (2007), um álbum dark do qual os dinamarqueses escolheram a faixa menos acessível (“Aly, Walk With Me”) como primeiro single. Depois disso, a banda anunciou que iria parar de fazer álbuns e passou a lançar só EPs (foram quatro no final de 2008). Mudaram de idéia e lançaram o disco In And Out of Control (2009), uma declarada tentativa de voltarem a ser mais pop e acessíveis. Deu só meio certo: os riffs espertos e bateria marcante davam cada vez mais lugar a melodias etéreas e chiados. Quando o pop aparecia, se mostrava forçado e sem a mesma pegada.

Em nenhuma dessas fases os Raveonettes se tornaram uma banda ruim, apenas diferente. Raven In The Grave é o grupo abraçando de vez esse novo lado. A surf music e os doo-woops rodaram: sobrou só o shoegaze, e bem do jeitão que ele tinha quando o gênero surgiu, no final dos anos 80.

E é bom? Sim, é muito bom, mas você precisa abraçar a idéia junto com eles. Não adianta esperar os mesmos Raveonettes de 2005, porque eles já não são e nem tentam ser aquela banda. A parte boa é que eles mudaram, mas não ficaram piores, o que não se pode dizer de todas as bandas que andam se reinventando por aí…

“Recharge & Revolt”, que abre o disco e é o primeiro single, é uma bela canção totalmente apoiada nas guitarras (uma com um riff que se repete infinitamente, outra com uma distorção barulhenta que fica de fundo). A letra fala de um homem que, impossibilitado de ficar com o amor da sua vida, vai lutar na guerra para tentar esquecê-lo. A segunda música (chamada “War In Heaven”, dando continuidade ao tema), possui um riff de baixo matador e uma guitarrinha com delay que deixa o timbre parecendo de teclado. No final, a música toda se embola com um ruído branco, perde o vocal e segue criando o clima até que, de repente, sobra só o chiado.

“Forget That You’re Young” abre com um riff no estilo Ennio Morricone e se torna um pop calminho com sintetizadores se misturando às guitarras. Sharin Foo, cujos vocais vinham aparecendo cada vez menos nos últimos álbuns, canta essa sozinha. Aí entra “Apparitions”, uma música cheia de barulhinhos e silêncios que se alternam com o vocal falado de Sune e, no final, novamente, dão lugar a uma nuvem de chiados. “Summer Moon” remete a outras baladas dos Raves (“Ode to L.A.”, “Oh I Buried You Today” e “Love Can Destroy Everything”), mas ganha contornos mais dramáticos com a falta de bateria e os vocais tristíssimos.

“Let Me On Out”, outra lenta, é um grito de liberdade (“let me on out, let me on lose, let me find someone new”) e é marcada por um uivo delicioso (de Sharin? De Sune? Não dá pra saber) que fica de fundo para os vocais. “Ignite” é uma faixa que come, bebe e respira The Cure. Ela tem tudo que há de melhor nos melhores singles da banda de Robert Smith, tirando o próprio. É o melhor e mais pop momento do disco, com uma guitarra rápida e teclados anos 80 que permeiam a música toda e dão força ao refrão grudento.

“Evil Seeds” começa com suspense e depois deixa entrar um riff que, estivesse numa música de outra banda, faria estádios tremerem. Aqui, ele desaparece rapidinho, dando lugar a uma guitarra mais simples que acompanha os vocais. Há outros elementos (na música e no álbum) que poderiam ser usadas de forma mais radio-friendly, mas os Raveonettes fogem disso no disco inteiro. “My Time’s Up” fecha o álbum como uma prece fecha um funeral, melancólica e sem concessões pop, embora, lá pela metade, ela vire uma balada muito bonita. E o disco acaba assim, com oito músicas só, sem fillers, sem desperdício de tempo.

Raven In The Grave é o disco mais difícil que os Raveonettes já fizeram. Há muitos barulhos e distorções, não há crescendos, só duas músicas têm refrão, os instrumentais são ultradepressivos e as letras beiram o maníaco-suicida. Mas é um álbum que, se exige concessões para ser ouvido, as dispensa para ser gostado. Não há ser com cabeça pensante e aberta que consiga simplesmente torcer a cara para essas músicas, nem que seja para odiá-las (mas acho mais provável o oposto). Bonito, melancólico e profundo, Raven In The Grave é um amadurecimento que, como na vida real, exige coragem para ser encarado.

  • Bom texto, Victor. 🙂
    Só acrescentando que, no período em que eles pararam de lançar álbuns e ficaram nos EPs, foi o período em que Sharin esteve grávida.