These New Puritans - Field of Reeds

These New Puritans
Field of Reeds

Infectious Music

Lançamento: 10/06/13

Quem curtiu Beat Pyramid, genial trabalho de estreia de 2008 do These New Puritans, mas nunca ouviu Hidden (seu sucessor, de 2010) não vai entender nada quando colocar Field of Reeds pra tocar.  É de fato impressionante o quão longe a banda veio em apenas três discos. A energia e a imediatez meio punk do disco de estreia deles foram pro segundo plano no disco seguinte (embora ainda aparecessem de vez em quando), e aqui sumiram totalmente. No entanto, os experimentos do segundo álbum de Jack Barnett e companhia com instrumentos orquestrais, teclados analógicos e percussão afinada são levados aqui a um patamar quase inimaginável. Isso dá ao disco um som extremamente único e original, e essa originalidade é responsável tanto pela qualidade do disco quanto pelos seus defeitos.

Os ritmos pesadamente marcados, que apareciam no primeiro disco e eram ainda mais evidentes no segundo (especialmente em faixas como “We Want War”, que tinha tambores taiko, e “Fire Power”), foram pro espaço: apenas duas das nove canções do disco têm levadas de bateria, e na maioria das outras a impressão é de que não há marcação rítmica alguma. O som geral é de longas notas e acordes estranhos, que parecem tentar fugir da harmonia diatônica tradicional, tocados por piano, cordas ou metais, com belas melodias de instrumentos de sopro com palheta (ou, em inglês, “reeds” – provavelmente de onde vem o título do álbum) e detalhes de percussão por cima. Essa sonoridade esparsa criada pelo grupo dá ao ouvinte a sensação de estar andando por outro planeta ou no fundo do oceano, com os acordes e notas mudando no ritmo pulsante e vivo das ondas. As vozes de Jack Barnett e da Elisa Rodrigues, cantora portuguesa que é nova no grupo, são como peixes bioluminescentes que orientam nossa atenção em meio a todo esse desconhecido. É  uma atmosfera mais próxima da música de câmara do século XX que do rock, e as referências mais próximas que vêm à mente são os momentos mais tranquilos do Kayo Dot ou do Tartar Lamb, projetos do nova-iorquino Toby Driver.

As exceções a essa sonoridade são notáveis: “Fragment Two”, uma das que tem levada de bateria, talvez seja a mais “pop” do disco (se bem que essa palavra nem faz muito sentido aqui).  Com uma bela melodia de piano, uma linha vocal marcante e belas intervenções orquestrais, é a mais acessível do álbum – embora alterne de forma meio errática entre compassos de 3/4, 4/4 e 5/4 e não tenha refrão nem nada parecido. Outra que tem levada de bateria é “V (Island Song)”, a mais longa do disco, com nove minutos, e cuja duração é bem aproveitada: uma série de belas melodias de piano, sintetizador e voz guiam o ouvinte através de suas duas metades: a primeira poderia ter sido recortada da outra e, assim, seria uma outra faixa acessível semelhante a “Fragment Two”; na segunda, uma melodia de notas longas, que não estaria muito deslocada num disco solo do Steven Wilson, é tocada por vários instrumentos em cima da levada de bateria. Essa levada é bem hipnótica, e é deixada tocando sozinha em alguns momentos da faixa que, surpreendentemente, são bastante interessantes.

Outro destaque do disco é a bela “Organ Eternal”, cujo impulso rítmico é dado pela fantasmagórica melodia repetitiva, tocada por um sintetizador, uma marimba ou vibrafone e mais alguns instrumentos, que se tornam ainda mais belos na segunda metade da música, quando ela é levemente desacelerada e usada como base para que outros sons acrescentem detalhes. “Spiral” e “Nothing Else”, por outro lado, não têm quase nada que ajude a marcar o ritmo, e fluem de uma parte para outra de forma fugaz e quase imperceptível. A primeira delas tem, lá pela metade, frases vocais bem estranhas, seguidas por linhas de madeiras que fecham lindamente a faixa. A segunda, por sua vez, é meio cansativa com seus 7 minutos, e pode alienar um pouco o ouvinte, até o momento no final em que um trompete toca um lindo solo, criando um clima meio Bohren und der Club of Gore, e chama a atenção novamente. “Nothing Else”, aliás, ilustra bem o “lado negativo” do disco: embora a sonoridade brutalmente original do álbum seja interessante, pelo próprio fato de ele ser tão diferente ele muitas vezes se torna uma audição pesada, exigente e, eventualmente, ingrata.

“The Light In Your Name” tem uma espécie de refrão muito bonito, no qual Jack Barnett e Elisa Rodrigues cantam juntos, mas se desenvolve de forma tão estranha e lenta que quase não vale a pena. “Dream”, a penúltima faixa, também é belíssima, praticamente um monólogo musical da nova cantora, acompanhada por instrumentos orquestrais, mas sua forma também é demasiadamente elusiva e, um minuto depois do começo, já despista o ouvinte. Felizmente, porém, é frequente que nossa atenção volte à música graças a uma ou outra ideia interessante. No caso, logo após “Dream” vem a faixa-título, que fecha o disco e começa com um grandioso coro masculino (que parece ser tocado num mellotron, mas que talvez tenha sido gravado ao vivo – uma dúvida que torna essa parte ainda mais interessante).

Em termos artísticos, não há como negar o sucesso desse novo disco da trupe de Jack Barnett. Poucas bandas conseguem, em tão pouco tempo, desenvolver um estilo tão próprio. Por outro lado, o custo dessa originalidade vem em termos de acessibilidade, pois é necessária certa paciência para que o ouvinte revele, ao longo do tempo, os belos segredos do álbum – uma paciência que aqueles que esperavam a objetividade de Beat Pyramid possivelmente não terão. De fato, Field of Reeds é um disco difícil, exigente e completamente incomum, mas aqueles que tiverem a coragem e a paciência de desbravá-lo encontrarão impressionantes momentos musicais, diferentes de praticamente tudo que existe na música não-erudita hoje em dia.

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