Titus Andronicus – Local Business

“Rap é hobby, zoar é lobby/ Eu quero é que alguém ouça/ Meu grito de desespero pra não ter que lavar louça”. De Leve dizia isso em “Nego Gosta”, que estava no primeiro lançamento do rapper de Niterói. E o que isso tem a ver com Titus Andronicus? De Leve não é o tipo de rapper de piada – é engraçado, mas não é humorista –, e aí se encontrava nesse meio do caminho onde só queria escrever e contar histórias, sem ter a obrigação de protestar sobre alguma coisa ou reclamar, e sem ter que ser piadista o tempo todo (também dizia: “Não deixe que a palhaçada more na sua casa… Deixe isso comigo que sou babaca e sei fazer”).

Patrick Stickles, líder do Titus Andronicus, não vive exatamente um drama, mas se encontra numa posição similar a de De Leve lá em 2001: o punk já não precisa ser sério há muito tempo e nem ser engraçadinho demais. Stickles quer estar nesse meio do caminho outra vez, como esteve na estreia do Titus, The Airing Of Grievances, de 2008. Ele só saiu de lá pra fazer o incrível e grandioso The Monitor, de 2010, álbum temático sobre a guerra civil estadunidense. O que ele não sabia é que seria difícil voltar para a zona confortável e sem compromissos que o rock, ou mesmo o punk, sempre sugeriu e que, para isso, seria necessário invocar (o herói!) Joe Strummer, Thin Lizzy e até seus problemas pessoais MAIS PESSOAIS.

Contar histórias é um talento de Stickles, que até o assemelha bem a Conor Oberst (Bright Eyes), além de suas vozes similares. A diferença é que, enquanto Conor usava (ou usa) esse talento para o folk, o Titus Andronicus converte a tendência para um rock puramente americano, que irá até lembrar bem Bruce Springsteen em certos momentos. E se o rock é nativamente americano, e o punk e o folk também são, um contador de histórias pode usar tudo isso ao seu favor, sem necessariamente falar exatamente da “história americana”.

Em Local Business, álbum lançado pela XL Recordings, a banda usa todo seu poder para criar músicas que ainda soam barulhentas, mas já não tão ruidosas. Não que isso os torne radiofônicos: nada que o Titus Andronicus faz parece buscar isso, desde o nome da banda à duração das músicas, passando pelos seus títulos e temas. Seria um equívoco afirmar que a banda procura seu espaço entre um público maior – talvez queiram realmente atingir uma massa maior, mas sem fugir dos princípios (coisa de punk, sabe como é). E se já não há a obrigação de falar sobre a guerra ou a história dos Estados Unidos, sobra espaço pra falar (e reclamar também, por que não!?) sobre insatisfações do dia a dia, mudanças de personalidade, distúrbios alimentares e até sobre NADA.

Funcionando bem como unidade, é difícil destacar momentos isolados de Local Busines, mas são faixas como a ótima “In A Big City”, o adorável rock “Still Life With Hot Deuce On Silver Platter”, a quase balada “(I Am The) Electric Man” e a conveniente dobradinha “Food Fight!”/”My Eating Disorder” que permitem pincelar e apontar boas portas de entrada para o novo trabalho dos rapazes de Nova Jersey.

Sem muitas louças pra lavar e sem deixar a babaquice imperar, o Titus Andronicus não supera The Monitor exatamente por tudo que ele representava, mas não fica devendo nada em Local Business. Subir ininterruptamente os degraus nem sempre é a melhor escolha pra se chegar ao topo – às vezes sentar e descansar um pouco torna a subida mais fácil e ainda lhe dá um tempinho pra falar diversas coisas sem compromisso. Se The Monitor foi o auge da banda, Local Business é o descanso.