Tokyo Police Club - Forcefield

Tokyo Police Club
Forcefield

Mom + Pop

Lançamento: 25/03/14

A herança preocupa: o que deixaremos para as próximas gerações? Pergunta que rege a preocupação recorrente dos ditos responsáveis. No rock, a irresponsabilidade que sempre ditou nascimento, também sempre se converteu em encargo com o passar do tempo. Veja o exemplo do punk – do “faça você mesmo” para aqueles que “traíram o movimento” foram quantos passos? Se era algo tão livre e libertador, se não pregava mas representava o desprendimento e a vontade jovem, quando foi que se tornou obrigatório certa maneira de se fazer punk rock ninguém sabe bem. Mas com o tempo surgiu uma maneira correta de se explorar o estilo. O Green Day trazia o renascimento do estilo ou transformava a música em produto de catálogo? E quando, depois de bons anos, resolveu se vestir com camisas pretas e gravatas vermelhas, vendendo calçados, e maquiando os olhos? Não se podia “fazer você mesmo” o que quisesse no punk há um tempo.

Viajando certos anos, encontramos o nosso querido “indie rock” dos anos 2000 – ele não sobreviveu em grande forma nem por 10 anos, com suas baterias que nos colocava pra chacoalhar junto com suas estridentes e divertidas guitarras, mas teve sua forte onda ao ponto de assumir tal nome e caracterizá-lo de tal forma como se seu título não significasse apenas “rock independente”, independente da forma que ele viesse. Qual é a herança de tal estilo?

O Tokyo Police Club, filhote do meio da década, lançou seu ótimo EP intitulado A Lesson in Crime em 2006, e trouxe notoriedade ao seu trabalho por fazer o que a época e o estilo pediam – as guitarras eram rápidas, os vocais abafados, a velocidade certeira e os temas melódicos e líricos charmosos. Perfeito? E quem não fez isso em sua estreia no indie rock do novo século? Muitos assim também fizeram. Porém, esses muitos sobreviveram por pouco tempo e entraram no esquecimento, logica e naturalmente como aconteceu com qualquer outro boom em qualquer outro estilo. Mas o Tokyo Police Clube tentou manter um certo cuidado com sua carreira, o que não significou sucesso na missão de não “desaparecer” também. Mas é certo que Forcefield, seu novo trabalho, mantém intacta a proposta da banda, pro bem e pro mal, e ainda não há nada que afete a imagem deles tanto como o efeito do tempo afetou.

O terceiro disco de inéditas é o quinto trabalho autoral da banda (que lançou também dois EPs). Até hoje, A Lesson in Crime, aquele velho primeiro EP, é imbatível. O efeito foi estar no lugar certo e na hora certa. Porém, em tempos onde o Two Door Cinema Club já faz um revival do indie rock 00’s, confundindo nossas cabeças que não sabem se ele fez/faz parte do “movimento” ou se procura movimentar as novas cabeças assim como o Green Day, por exemplo, fez com o punk, o Tokyo Police Club tem a ingrata missão de ser relevante no universo enquanto sua nave e toda tripulação já partiu faz tempo. E isso atrapalha a compreensão de um álbum como Forcefield, que não é mesmo uma obra ruim, mas que já não consegue nos atingir com precisão, e foi 2010 ter chegado para que isso tenha ficado ainda mais difícil. A responsabilidade de tornar esse indie rock relevante para o futuro afetou o estilo como afetou qualquer outro, e o afastou dos ouvidos daqueles que tanto admiravam-no. A herança vai ser mais compreensível daqui alguns anos, quando revivais reais mexerão com a cabeça nostálgica de crítica e público,e tudo parecerá tão bom como um dia foi ou não.

Por enquanto, o quarteto canadense em questão tenta, digamos, sobreviver. A pop segunda faixa do álbum, “Hot Tonight”, poderia se encaixar muito bem em um álbum de Katy Perry, com um ajuste ou outro em seu arranjo – veja bem, isso é um elogio. Já fazendo divertidos rocks, a banda se parece ainda a mesma, porém com menos crueza do que tinha antes e tanto ajudava em seu encanto. “Miserable”, “Toy Guns” e “Tunnel Vision” são boas representantes de tudo que falo nesse texto. “Gonna Be Ready” freia e acelera algumas vezes, então não avança tanto. “Through The Wire” e “Feel The Effect”, que fecham o disco, jogam o jogo que derrubou tantas bandas da geração em seus discos posteriores à boa estreia: não são inspiradas e nem inspiradoras, ainda assim ganharam espaço em um curto álbum com muita coisa a ser provada.

O ponto alto e interessante de Forcefield é sua faixa de abertura: “Argentina (Parts I, II, III)” é uma opereta de três momentos e mais de oito minutos, que fala de uma paixão por uma garota, mas que na verdade acaba se transformando em uma grande homenagem à cena da qual a banda nasceu, o tal “indie rock”, como foi chamado. Sua abertura punk, seguida por sua graça em guitarras e efeitos em vocais, e todas as formas que assume em sua duração (de maneira bem menos esquisita do que pode parecer, quando a apresentamos assim) grita, certo que involuntariamente, pelas diversas e diversas bandas que, com o passar dos anos da última década, viram sua validade esgotar. Poderia ser um trabalho de (mate sua saudade) We Are Scientists, The Films, Someone Still Loves You Boris Yeltsin, Good Shoes, Bloc Party, The Wombats, Johnny Foreigner, Voxtrot, Hot Hot Heat, Black Kids, The Maccabees, The Drums, The Pigeon Detectives, The Rakes, The Futureheads, The Enemy, The Holloways, The View, Razorlight, Hard-Fi, The Sunshine Underground, Maxïmo Park, The Twang, Young Knives, The Subways, Cajun Dance Party, Kaiser Chiefs, Jet, The Cinematics, Babyshambles, Pete and the Pirates, Mando Diao, The Kooks, Klaxons, Kubichek!, Ra Ra Riot, The Vines, Dananananaykroyd, Shout Out Louds, Louis XIV… Poderia ser de tantos outros, mas foi do Tokyo Police Club.

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  • L.J.G.P.

    Tantas bandas sumidas como The Fratellis, ATHLETE, The Coral, Delgados…não vamos jogar toda a responsabilidade e salvação da lavoura nos ombros do T.P.Club, caro mio!!!

  • Paulo Rios

    Realmente não é um disco tão inspirado mas, como órfão do indie rock dos anos ’00, achei bem divertido. Principalmente a faixa inicial.
    Quanto ao comentário anterior que menciona o The Fratellis, eles lançaram um (bom) álbum no ano passado.