Uma música: Bob Dylan – Covenant Woman

A construção de uma faixa perfeita, nos moldes mais redondos que um artista consegue polir não é das tarefas mais fáceis. Todas as referências, sonoridades e experiências pessoais que levam às composições de um artista são parte de sua crença de aquela música em algum momento crie conexões com um número maior de pessoas – o que nem sempre acontece.

Assim, abrimos este espaço pra falar de boas músicas que se perderam no catálogo de grandes artistas, que foram esmagadas por um grande hit saído numa mesma época, ou que viram a luz do dia num massivo fracasso de vendas. Músicas que você deveria ter ouvido em algum momento, mas que acabou deixando passar. Separe uns minutos para ler e ouvir “Uma música”. Talvez ela entre para o seu grupo de favoritas.

 

bob dylan

O primeiro desentendimento entre Bob Dylan e o combo “crítica + público” vem de meados dos anos 60, quando resolveu, numa apresentação ao vivo, empunhar uma guitarra e dar uma banana à rotulagem folk. Deste momento em diante, as ocasiões em que foi chamado de louco, ou um artista que teve um mero vislumbre de sanidade no meio de uma obra confusa, não foram poucos. Não foi com surpresa (ou boa recepção) que Dylan lançou Slow Train Coming (1979), um álbum gospel em que revela sua conversão ao cristianismo. Saído de um longo relacionamento, teve contato com a igreja protestante por intermédio de uma de suas backing vocals, tendo se ligado à cultura cristã de tal maneira que chegou a promover shows onde misturava sets inteiramente retirados de canções temáticas e citações do velho testamento. Do primeiro álbum, seguiram-se mais dois em que Dylan pregava em muitas de suas letras – sem chegar a levantar clara bandeira de uma religião ou igreja específica, entretanto. São eles Saved (1980) e Shot of Love (1981), sendo o de 78 abraçado com mais entusiasmo pela crítica, embora nada comparado às suas produções anteriores.

A recepção dos fãs foi ainda mais fria que a dos jornalistas, principalmente por associar a imagem do compositor a uma doutrina que remontava a opiniões majoritariamente de esquerda, como seu apoio à classe trabalhadora e os shows em manifestações pelos direitos civis dos negros na década de 60. Para estes, o engajamento a um discurso pregado em igrejas pentecostais conservadoras, como as que Dylan passou a frequentar, simplesmente não combinava com suas canções de protesto e os avanços pelos quais lutou anos antes. O que nunca combinou com o americano era também o aprisionamento de imagens e ideias preconcebidas de si. Sua fase gospel trouxe discos em que usava sua música como um espelho do gospel tradicional americano: faixas mais lentas, com apoio de backings e mensagens de espiritualidade.

É desse período que retiro “Covenant Woman”, uma das menos óbvias da safra, onde a sonoridade é menos caricata que a do primeiro álbum (cândido demais) e serve de introdução a outras boas faixas de Saved (o melhor dos três, na humilde opinião deste que vos escreve). Ritmicamente mais agitado e com instrumentos que se atrevem mais, é uma transição ao último, onde Dylan diminui ainda mais o clima de sermão e passa a falar de sentimentos mais generalistas, como esperança, fé e amor, em uma de suas melhores canções sobre apaixonar-se: “Heart of Mine”. O período pouco apreciado pelos fãs pode servir só por essas duas faixas. Vale experimentar.

Covenant Woman by Bob Dylan on Grooveshark

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