Vanguart - Muito Mais Que o Amor

Vanguart
Muito Mais Que o Amor

Deck

Lançamento: 27/08/13

O Vanguart, ex-quinteto cuiabano que recentemente se oficializou sexteto, nasceu para crescer. E não falo só da integração da violinista Fernanda Kostchak ao conjunto como a sexta peça; falo de uma linha evolutiva bem ascendente até então. O pequeno projeto, que nasceu com Hélio Flanders introspectivo gravando simples canções em seu quarto, se transformou em uma banda que se destaca no cenário nacional por ótimas apresentações e pela execução redonda ao vivo, com Flanders já sendo uma das figuras mais carismáticas do cenário, construindo discos mais completos e robustos ao passar do tempo.

Se o debut do Vanguart apresentava apenas uma coleção de canções, ainda que charmosas, desconectadas e se apoiava no valor individual de cada uma delas, o segundo trabalho da banda não se assemelhou ao de 2007. Boa Parte de Mim Vai Embora foi um disco mais consistente, e as faixas com temas mais penosos casaram bem entre si e geraram uma boa impressão no trabalho como um álbum com ”A” maiúsculo e bem acentuado. Acentuado, principalmente, no hit “Mi Vida Eres Tu”, que, se não conseguiu, chegou perto de alcançar a popularidade do primeiro hit da banda “Semáforo”. Essa organização de um trabalho bem amarrado no conjunto de músicas, com destaques para as mais certeiras faixas, é a estratégia mais óbvia e precisa para a construção de bons álbuns de música popular.

Muito Mais que o Amor, novo lançamento, com 11 faixas, segue a lógica do álbum anterior, e perde toda a lógica por ser tão abusivo em sentimentos. E perder a lógica, pra isso, faz todo o sentido. E faz muito bem.

Com ainda mais acentuações do que o trabalho de 2011, se o novo LP quisesse se basear apenas nessas canções com mais potencial para se erguer, conseguiria. Mas visto que o Vanguart não é o tipo que deve se preocupar com FM e trilha de novela (nem parece haver espaço pra isso, nem preocupação da banda), temos mais que apenas singles, temos a tal estrutura bem firme. E essa estrutura é construída sem a preocupação com a simplicidade do folk, com composições mais completas e focadas na fácil compreensão do ouvinte, apostando em vários detalhes para dar a densidade desejada, deixando cada coisa brilhar na hora certa, seja um violino, uma gaita ou um trompete – sem excessos e com bastante coesão. O clima é mais otimista, de forma geral, e apesar do Vanguart não ser exatamente reconhecido por isso, notamos que suas mais populares canções carregam esse clima. Crescer também é pegar atalhos, e essa iniciativa “otimista” parece um deles.

Bastaria dizer que Muito Mais que o Amor abre sua sequência com a mais precisa música já composta pela banda: “Estive” é livre de vícios do Vanguart e não remete a nenhum momento específico do seu histórico. O folk é direto e completo, conta com um Hélio Flanders de lirismo apurado e arranjo que não inventa nada fora do essencial para brilhar. Não possui um refrão de sucesso, mas possui uma sinceridade que nem a mais grudenta melodia ou a sequência de versos mais marcante bate. O ar de evolução da banda é evidente – a maturidade está na simplicidade e na amplitude do poder da canção. Não é preciso pertencer a um público específico, a uma cena “moderna” para ser atingido. Basta se deixar levar: “Uma vida é pouca pra gente ser feliz”, Hélio crava.

Mas se apresentei o álbum por sua consistência em conjunto, todo o resto se faz, sim, essencial. “Demorou Pra Ser” possui aquela melancolia de outrora em sua melodia e o romance em sua letra. Já “Eu Sei Onde Você Está”, continua entoando o amor em suas várias formas, e mesmo com seu clima mais ensolarado, é fácil relacionar sua melodia com a fase The Bends do Radiohead, ainda que possua uma leitura menos roqueira e mais rústica em seu arranjo. Somado ao timbre de voz de Hélio tão influenciado por Thom Yorke, temos o clima tão potente do refrão, algo tão explorado pelos ingleses na época e tão bem absorvido aqui. “Meu Sol” é fácil e pop. A arrastada ” A Escalada das Montanhas de Mim Mesmo” entra pra família de “recheio de álbum”, assim como “Pelo Amor do Amor” – belas canções, mas que não funcionam tão bem fora de contexto. O mesmo se aplica para a silenciosa e climática “Olha Pra Mim” e para graciosa vinheta “O Que Seria de Nós”, com sua letra romântica bobinha e seu clima havaiano, herança de Elvis Presley.

“Sempre que Estou Lá” e “Mesmo de Longe”, essa segunda cantada pelo baixista e também vocalista Reginaldo, são outras acentuações do álbum – possuem caráter mais popular e acessível. Mas poucas faixas aceitam tão bem essa faceta como “Pra Onde Eu Devo Ir”, essa tão apelativa faixa  (no bom sentido) que arremata o seu coração com sua linda melodia. A letra é fácil e o arranjo é perfeito para instrumentos e vozes. Pode te lembrar tanto britpop quanto música sertaneja – porque é de linguagem universal, e uma banda explorar esse seu lado e assumi-lo é também um sinal de evolução.

A linha por onde o Vanguart caminha continua em ascensão independente de uma cena específica, ainda que continue cabendo tão bem exatamente onde nasceu e cresceu.  E aquele jovem que se fazia de Bob Dylan em seu quarto agora abre seu coração com toda sua banda e seu público, e se veste de sinceridade pra fazer de todo sentimento um amor, ou mais que isso.

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    Gostei da primeira música e adorei a segunda! 🙂