Wado - Vazio Tropical

Wado
Vazio Tropical

Independente

Lançamento: 07/06/13

Wado sempre pareceu perdido pra qualquer tipo de cena ou mercado: não tem grande popularidade para o mainstream, não tem pose o suficiente para fazer morada em cantos indies disponíveis. Alheio a tudo isso, ele sempre praticou seus feitiços, como ele julga fazer o sol na primeira faixa do seu novo álbum, Vazio Tropical. Seus feitiços vinham em forma de boas canções (e muito carisma) que só cabiam às regras da tão indefinida MPB. Usou de funk americano ou carioca, samba e rock ou samba-rock, raízes africanas ou o que fosse necessário para se expressar. Falhava ou acertava, mas nunca pareciam falsas ou forçadas cada uma de suas tentativas. Com os dois pés fincados na rua (asfalto, terra ou areia da praia), Wado sempre foi o artista que pertenceu ao povo, mesmo não sendo uma figura aceita em larga escala por ele.

O catarinense radicado em Alagoas não parece ser diferente agora, mas após seu bom disco cheio de participações (algumas até de gosto duvidoso), Samba 808, ele estava disposto até a gravar um disco apenas “voz e violão”, devido ao orçamento tão limitado que já esperava encontrar. Seria uma boa ideia sim, eu apostaria. Porém encontrou Kassin e faria um disco com ele — e nessa, quase foi para Argentina fazer um álbum de tango (aí pareceu boa ideia pra ele, eu já não acredito tanto). Foram os desencontros com Kassin que inviabilizaram tal projeto, mas foi ele quem conseguiu o contato com uma gravadora que investiu em um novo projeto, e o colocou também junto a Cícero, que sugeriu: “Por que não uma produção de Marcelo Camelo?” E foi essa aposta que criou todo o rumo e formato de Vazio Tropical.

A liberdade dada por Wado a Camelo criou toda a atmosfera do álbum: o artista perdeu muito do seu aspecto popular (aquele dos pés fincados na rua) e o carregou mais para um ambiente que deve estar cheio de universitários barbudos. Eu já fui um desses, não há problema algum nisso. Mas se tinham aqueles momentos tão ousados de Wado que me faziam questionar suas escolhas tão verdadeiras, o seu foco exclusivamente na canção pela canção e sua beleza, com arranjos, ainda que caprichados, pouco ousados e com o menor peso até hoje apresentado em um de seus discos, tirou um brilho de pureza do artista que cantava: “fortalece aí meu coração, com aquela força”, e fazia desses simples versos a coisa mais sincera e simples do mundo.

Mas esse momento se fazia necessário, onde Wado precisaria se focar nas canções mais silenciosas e mostrar todo seu lirismo. Eu já esperava por isso desde “Pavão Macaco”, canção lançada em 2009 no disco Atlântico Negro (e ali parecia até um pouco perdida) — já era inevitável a escolha de um registro de canções. Sendo assim, Vazio Tropical não só surge na necessidade, como cumpre a missão com louvor e se torna um destaque na discografia do artista.

Canções com cunho social, que tão bem caberiam em discos anteriores, ficam até perdidas em meio a outras que parecem perfeitas para esse sentimento de “vazio tropical”. Isso acontece com “Primavera Árabe” e “Carne”, que conta com participação do uruguaio Gonzalo Deniz. Aliás, as participações são destaque: MoMo, Cícero e o próprio Camelo brilham ao lado de Wado (cantando, compondo ou tocando). Quem também brilha no arranjo é Fred Ferreira (Buraka Som Sistema) na percussão precisa e detalhista. Mallu Magalhães aparece de relance, mas com sorte em uma das mais “pé na rua” do disco, “Quarto Sem Porta”, com sua letra graciosa e criativa, em ritmo envolvente.

Por serem canções lindas de doer, “Zelo”, “Cidade Grande” e, a melhor do álbum, “Canto dos Insetos” ganham o ouvinte de maneira como poucas faixas já lançadas por ele conseguiram tão facilmente. As mais roqueiras, ainda que nem próximas disso, “Rosa”, com seu bom refrão, e “Tão Feliz”, com seu Radiohead nas veias, também conquistam com facilidade, e assim deixam a pergunta: será esse o momento mais popular de Wado? Ainda que não no sentido de se aproximar do que chamamos de “povão” (e não de maneira pejorativa), com suas apostas de músicas de apelo mais amplo, mas sim da possibilidade de maior popularidade, com um público específico e seleto, se aproximando da sonoridade de trabalhos de Marcelo Camelo (autoral ou de produção sua, como Mallu Magalhães).

Wado continua “perdido”, mas não está sendo problema, e nem nunca foi, vê-lo praticar música como quem não quer perder tempo em se localizar, mas nos traz diferentes possibilidades para nos encontrarmos em suas diferentes versões de si e, por que não, de nós mesmos.

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