Spoon - They Want My Soul

Spoon
They Want My Soul

Loma Vista

Lançamento: 05/08/14

O histórico do Spoon é invejável. A qualidade de seus lançamentos foi fator determinante para alçar a banda ao mais alto patamar do rock alternativo. A sonoridade do grupo de Austin representa bem o “estilo”:  é um rock esclarecido, que consegue ser direto e livre, para experimentar e se expressar. Assim, o cenário afastado do mainstream sempre pareceu ideal, ainda que o Spoon represente tanto para um grande público e invada, vez ou outra, o cenário pop em programas de TV e trilhas sonoras de cinema. Com uma evolução contínua, entre 2002 e 2007, a banda lançou o potente Kill The Moonlight, se inclinou ao pop com o bom Gimme Fiction e se encontrou num grandioso momento, de canções mais empolgantes e arranjos mais grandiosos, com Ga Ga Ga Ga Ga. Esse gigante álbum da última década colocou Britt Daniel e Jim Eno, membros fundadores, em posição onde jamais estiveram antes – e não havia mais nada a se provar.

Antes do hiato em que a banda se encontrou nos últimos quatro anos, quando os integrantes se dedicaram aos seus outros projetos (Daniel com o Divine Fits; Eno com produção; Rob Pope com sua banda The Get Up Kids; e Eric Harvey lançando trabalho solo), ela ainda lançou Transference, um interessante LP que mostrava um Spoon brilhando mais pra dentro do que pra fora, diferentemente de sua forma pomposa do álbum anterior. Apesar de ser um grande disco e de ter dado bons resultados, Transference não parecia uma sequência justa e isso só ficou ainda mais evidente após o novo lançamento, They Want My Soul.

O que fez bem mesmo ao Spoon parece ter sido o descanso – e a quem não faz? Sabendo voltar na hora certa e colocar a conversa em dia conosco, a banda não precisou correr atrás de nenhuma onda para nos alcançar e nem dar continuidade exatamente de onde parou. Com novas propostas e seu conhecido bom jeito de ser, nem ao menos precisou recorrer aos recursos do sucesso Ga Ga Ga Ga Ga, só se parecendo mesmo com uma sequência deste trabalho pela qualidade de se exteriorizar em cada faixa, embutida no cuidado do arranjo e produção.

A integração de Alex Fischel ao grupo é apenas um dos detalhes que caracteriza esse retorno de novas perspectivas. Fischel, que é admirado por Britt Daniel, e faz parte do Divine Fits, entra como suporte no apoio às guitarras e sintetizadores. A produção do renomado Joe Chiccarelli é o que traz uma alta acessibilidade em quase 100% das faixas. A mixagem de Dave Fridmann, conhecido por seu trabalho com Flaming Lips e, recentemente, com o Tame Impala, é o que contribui com a textura dos timbres. E são esses elementos que complementam a qualidade desse trabalho bem inspirado do Spoon.

“Rent I Pay” abre o álbum com intensidade, não procura soluções distantes do simples rock que a banda sempre soube fazer, mas se insere de forma incisiva. A masterização que aguça o volume da repetitiva bateria e do vocal rasgado, nos força a dar toda atenção a esse início. A canção é fácil e grudenta. Outro momento viciante é “Do You”, uma saborosa e encantadora canção pop, facilmente uma das mais empolgantes do ano (e da carreira do Spoon).

Sendo um álbum de vários momentos, a viajante “Inside Out” se mostra hipnotizante, com sua repetitiva e ecoada batida, enquanto sua letra canta sobre gravidade e abusa de todos os códigos que Daniel utiliza em sua poesia sempre intrigante. Talvez apenas em “I Just Don t Understand” ele se permite ser simples e direto nesse sentido. “Rainy Taxi” é acelerada e provocante; o phaser no violão de “Knock Knock Knock” cria a atmosfera perfeita com seus sintetizadores; “Let Be Mine” é um típico tema da banda texana, contando muito sobre seu passado recente; “They Want My Soul” é sentimental e de grande fechamento, que só cresce a cada segundo; “New York Kiss” encerra a sequência de 10 faixas de forma soberba: uma composição brilhante, de arranjo e produção certeira, que flerta com anos 80 como se essa fosse a mais revigorante década.

They Want My Soul é mais que simplesmente um retorno. A obra não se preocupa em compensar o tempo ausente do Spoon e nem ganha pontos por ser um trabalho de uma banda que volta à ativa após anos parada. Como se os integrantes nunca tivessem reservado um tempo para “descansar”, voltam e tomam o que é seu de direito: o status de ser uma das bandas mais relevantes e criativas de nossa época. De quebra, reserva seu espaço entre os melhores lançamentos do ano – apesar disso sempre ter sido do feitio deles.

  • Gama Figueira

    melhor do ano, nao conhecia os caras, estou viciado!!