Well, my heart went boom: Paul McCartney no Rio

Lá pela metade de seu segundo show no Rio de Janeiro, Paul McCartney olhou para a platéia, apontou para si mesmo e perguntou: “carioca?”. 45 mil vozes se ergueram em uníssono de todos os cantos do Engenhão lotado para confirmar que, sim, Paul era tão carioca naquela noite quanto qualquer pessoa pode ser. Satisfeito com a resposta, ele pegou o violão e começou a tocar “I’m Looking Through You”, aquela que diz: “you don’t look different, but you have changed, I’m looking through you, you’re not the same”. Impressão sua, Paul: nós continuamos os mesmos. E, para nossa sorte, você também.


Os primeiros segundos de “Hello, Goodbye”, que abriu o show do dia 22, foram suficientes para enterrar todo o blábláblá sobre Paul estar voltando “cedo demais” e sobre o segundo show não ter sido esgotado. Pouca gente pára para pensar que dá para contar nos dedos a quantidade de artistas que, hoje, conseguem reunir mais de 250 mil pessoas em um único país, em um período de seis meses e com ingressos custando os olhos da cara. Paul McCartney é uma criatura única.

E o show de Paul, é claro, é sempre mais do que um show. Duração longa, produção impecável, fartura de hits, muita simpatia e comunicação constante com o público – não há do que reclamar.  A platéia, como nos shows de São Paulo, esteve à altura: no primeiro show, a voz de Macca chegava a sumir entre os berros do público, que não se privava de continuar cantando as músicas depois que elas acabavam e ainda improvisava outras fora do set, como “She Loves You”. “Hello, Goodbye” foi o primeiro presente de Paul aos cariocas. O outro veio no final do segundo show: “I Saw Her Standing There”, o melhor doo-wop já feito na história da Música. Havia a sensação de que, mesmo com cinco shows no Brasil, Macca iria embora sem tocar essa – nunca foi tão bom ser desmentido.


O show seguiu com o roteiro tradicional, incluindo o estouro de “All My Loving”, o momento intimista de “Blackbird”, a homenagem a John Lennon em “Here Today” e a George Harrison em “Something”, a dança do baterista Abe Laboriel Jr. em “Dance Tonight”, os fogos de “Live And Let Die”, a catarse coletiva de “Hey, Jude” e as conversinhas tradicionais com o público – “olááá, cariocassss!”.

Paul cantou, tocou, dançou e fez todas as gracinhas de sempre. Desta vez não teve “tudo bem in the rain?”, mas pudemos observar o ex-beatle fingindo ser atacado pelos bichos de pelúcia arremessados no palco e imitando trejeitos femininos em “Hey, Jude”. À vontade, Macca não se privou de algumas informalidades, como enfiar o “uh-uh-uuuh” de “Back In The USSR” no começo de “I’ve Got a Feeling” e de cantar “Sing The Changes” fora do tom no primeiro show. No domingo, alguém jogou uma camisa da seleção no palco com o nome Macca e o número 10. O cantor pegou a roupa e anunciou: “I’m playing for the Brazilian team, it’s official!”.


No final do show de segunda-feira, durante “Hey, Jude”, o telão do palco mostrava o público quando uma menina surgiu nos ombros de alguém vestida com o terno azul de Paul da capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Não consegui tirar uma foto dela, mas fiquei com a menina na cabeça: montada naqueles ombros, vestida com aquele terno e com um sorriso de orelha a orelha, ela era a síntese do público no show: feliz, agradecido e arrebatado. De novo.

Paul, lá no alto, parecia estar nas mesmas condições. Agradeceu e declarou seu amor ao público mil vezes, sempre fazendo questão de valorizar as manifestações de carinho que ia recebendo. Seus recados de “até a próxima” ao final de cada apresentação faziam parte do script, mas pareciam autênticos: mesmo que Paul esteja cada vez mais perto de encerrar a carreira, parece que o Rio de Janeiro terminou o trabalho de fisgá-lo para o país: podem anotar, ainda ouviremos falar de Paul McCartney por aqui.

Enquanto Paul ia embora e os papéis nas cores da bandeira nacional voavam pelo Engenhão, nós, brasileiros, atravessávamos os portões do estádio de volta para a realidade dos trens superlotados, da depressão pós-show e de uma terça-feira muito improdutiva. Mas atravessávamos com a certeza de que a maior beleza do Rio não está nas praias, no samba ou no futebol: está nos momentos em que, cariocas ou não, nós nos unimos para celebrar o que nos faz felizes. Paul McCartney nos faz felizes, e é recíproco. Então ele diz hello, diz goodbye e vai embora, mas nós olhamos através dele e sabemos: você continua o mesmo, Paul. E vai voltar.

8 Comentários para "Well, my heart went boom: Paul McCartney no Rio"

  1. Maravilhosa resenha. Nunca achei que veria Paul ao vivo. Agora, depois de dois shows maravilhosos, podemos dizer que já vimos um Beatle. Foi lindo, lindo.

  2. Fui nos dois shows de SP , e nos dois do Rio , e pude perceber que os shows do Rio ( principalmente o 2° ) tiveram uma energia diferente , uma clima mais íntimo , que posso dizer que foi uma sensação mágica … Saudades desse verdadeiro ESPETÁCULO !

  3. lindo, muito lindo, me emocionou 🙂
    só quem estava lá pra poder dizer como se sentiu né?
    eu me sentia flutuando.
    foi maravilhoso :~

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