Wilco – The Whole Love

Você pode não gostar de Wilco, mas é indiscutível que Yankee Hotel Foxtrot foi um dos melhores e mais importantes álbuns dos anos 2000. Gravado em 2001, ele correu o risco de nunca ser lançado. Na época, a banda tinha contrato com a Reprise, um braço da Warner Music, que recusou-se a lançar o álbum. Depois de um tempinho em streaming, e um barulho considerável, ele fecharam novo contrato com a Nonesuch – ironicamente outro braço da Warner, que lançou, em 2002, o CD.

Contando com o próprio Yankee Hotel Foxtrot, foram quatro álbuns de estúdio lançados em parceria com o selo. Até agora. O The Whole Love, que tem lançamento oficial agora no dia 27 de setembro, é o primeiro LP da banda lançado pelo seu próprio selo o dBpm.

Retomando a carreira do Wilco, o negócio é basicamente o seguinte: você ouve, ouve, ouve e não descobre onde os caras querem chegar. Desde os primeiros álbuns, depois do Uncle Tupelo, com uma pegada bem mais country, o Wilco passou também por alguns trabalhos magistrais de música pop – como foi o Yankee Hotel Foxtrot – até cair em uma época que na qual eles não se arriscam tanto, que vem desde o Sky Blue Sky. O The Whole Love continua nessa linha e mostra que, apesar disso, o Wilco ainda assim é uma das bandas mais importantes da atualidade.

Ao contrário do que se podia esperar, o novo trabalho não mostra um grupo mais soltinho por ser independente. Apesar do contrato com um selo que havia anteriormente, a banda já era moralmente independente fazia um tempo. Talvez o maior choque venha exatamente na faixa de abertura. “Art Of Almost” vem com alguns elementos eletrônicos e chega até a lembrar um pouco o Radiohead.

Em seguida vem “I Might” e sua batida meio “Pump It Up”, de Elvis Costello. A música já era velha conhecida: havia sido lançada como primeiro single do trabalho. Logo na terceira faixa, vem uma das mais fracas – se não a mais fraca –, “Sunloathe”, uma balada sem muita graça.

O nível volta a subir com “Dawned On Me”, que disputa o prêmio de uma das melhores do CD. “Black Moon” vem como a primeira baladinha interessante. O charme especial da faixa tem origem na guitarra solo de Nels Cline. O músico, aliás, tem um papel bem marcante durante o álbum todo, que deve ser o trabalho no qual ele tenha se sentido mais à vontade ao gravar.

Para bater de frente com “Dawned On Me” pelo posto de melhor faixa vem “Born Alone”, com um clima mais felizão, lembrando um pouco a vibe do disco Summerteeth. Continuando no revezamento entre faixas mais animadas e baladas, “Open Mind” aparece com uma das letras mais bonitas do álbum, mostrando um lado mais romântico de Jeff Tweedy.

“Capitol City” chega com um clima bem lúdico e abre portas para “Standing O”, que começa bem enérgica. Em contraposição à força da música anterior, temos “Rising Red Lung”, uma balada que apesar de não ser fraca, também não encanta muito.

Para fechar o álbum, duas boas músicas. A primeira dá nome ao LP: “Whole Love”. Para fechar, “One Sunday Morning (Song For Jane Smiley’s Boyfriend)” – e o álbum não poderia acabar de forma melhor. A faixa vem com 12 minutos de uma confissão de um filho para um pai e mostra toda a capacidade de Tweedy de escrever uma bela letra. O instrumental cria todo o clima e apesar do longo tempo é possível ouvir a música por várias vezes seguidas sem se cansar.

O The Whole Love marca a carreira da banda principalmente por ser a estreia do selo próprio. É inegável que o Wilco já fez alguns trabalhos com apelo pop muito mais aflorado, mas agora, em outro clima, os caras apresentam a cada novo álbum uma capacidade de composição que faz com que eles ocupem um dos grandes lugares no rock atual.