Xênia França - Xenia

Xênia França
Xenia

Natura Musical

Lançamento: 29/09/2017

“Respeitem meus cabelos, brancos” é uma música de Chico César do disco de mesmo nome que foi lançado em 2002. A canção nunca havia passado para mim a ideia que ela realmente quer passar. Acho que por um motivo simples, há 15 anos, além de muito mais nova, não sabia da missa um terço sobre o racismo vigente no país. O tal, racismo estrutural. No caso do cabelos dos negros, fiquei absoltamente chocada quando descobri que eles sofrem tanto, por exemplo, com “curiosos” que diariamente querem tocar suas cabeleiras.

Então, foi preciso que em 2017, um artista também negra e que sabe muito bem do que está falando, regravasse a canção e eu passasse por uma transformação para que entendensse de fato que a canção é grito pela liberdade capilar da negritude. Essa música está no disco de Xênia França, Xenia, lançado em 2017 pelo Natura Musical com apoia da Lei Rouanet.

O álbum da artista soteropolitana é de muitas formas muito pessoal. Fala de ser negra, ressalta a cultura e critica, quando fala por exemplo de apropriação cultural na canção “Pra Que me Chamas?”. Este também foi o primeiro single lançado e nos versos cantados por ela fica bem claro algo que há tempos os movimento de minoria estão a todo momonento tentando explicar, o momento de fala: “De vez em quando um abre a boca sem ser oriundo/ para tomar para si o estandarte da beleza, luta e o dom”.

Xênia tabém não se esconde e fala sobre si. A artista que deixou sua cidade natal e veio tentar a vida em São Paulo como modelo, acabou se encontrando na música e hoje é uma das vocalistas do Aláfia. Na canção “Minha História” mostra como sua mãe ficou triste com sua partida, mas acabou “abeçoando” sua partida. O mais legal, cantou a música com a música na plateia de um Auditório Ibirapuera cheio (do sho, falaremos um pouco mais para o final). Ela também fala desse sintimento universal que é a paixão. Dóis, não dói? “Paixão aperta quase cega/Te domina/Queima, arde, engana/Enlouquece sim”.

É na sequência “Perfeita para Você”, “Tereza Guerreira” e “Nave” que Xênia mostra a mulher poderosa que é. Na primeira, fala de um amor delicioso, mas que se parte quando o outro simplesmente espera um perfeição inexistente. Afinal, quem é que nasceu dentro de um padrão? No música que vem logo na sequência, conta a história de uma mulher que se rebela após sofrer violência de seu companheiro. A mulher da canção chega até às vias de fato e mata o cabra. Durante a apresentação no Ibirapuera, Xênia foi clara, mas endossou: “Sou contra a violência e não concordo com ela. Mas só uma mulher sabe o que é viver uma violência assim”. Para fechar a sessão mulher, vamos de “Nave”. Canção que poderia estar facilmente num disco da Céu e na verdade, indico que ela procure a artista para fazer uns backing vocals ao vivo num próximo show!

E se você achava que ali no parágrafo anterior estava a música mais pesada do álbum, esqueça! “Breu” é simplesmente de fuder, meu amigo. A música (que na minha interpretação) fala de uma mulher negra que se “embranquece”, e que vai morrendo aos poucos (sua cultura vai deixando de existir dentro dela) a ponto de finalmente ser simplesmente utilizada como uma mercadoria, morta e substituída por outra. Outra mulher que sofrerá novamente com o sistema. Que música foda, amigo!

Então, o primeiro disco de Xênia França é um grito pela liberdade da mulher, em especial da mulher negra, pois este é o seu lugar de fala. O que me incomodou no show de lançamento do disco que rolou no Auditório Ibirapuera no dia 15 de outubro, foi que falta um pouco de comunicação com a plateia. Talvez, ela devesse ter falado mais e aproveitado o espaço para falar de suas experiências e de como as músicas nasceram. Não precisa ser monólogos intermináveis, mas, faria sentido para ajudar, inclusive quem ainda não se conectou com o disco entendê-lo melhor. Quem já conversou com Xênia sabe o quanto ela é espirituosa e divertida. E vou ter que dizer aqui, linda! Até agora não dá para entender como as marcas não quiseram utilizar aquele rostinho, mas tão aí botando papel higiênico preto para vender. Cof cof cof, engasguei aqui!

Faltou mais a Xênia mulher e sobrou a Xênia artista.

 

 

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