40 anos de Ziggy Stardust

Por Victor Bianchin

No dia 3 de julho de 1973, a banda de David Bowie, maquiada e vestida como o grupo fictício Spiders From Mars, soltou os últimos acordes de “White Light/ White Heat”, cover do Velvet Underground, e se preparou para encerrar a apresentação com “Rock & Roll Suicide”, como havia feito nos últimos shows do camaleão. Mas Bowie resolveu fazer um pequeno interlúdio antes. “Não apenas é este o último show da turnê, mas é o último show que faremos. Obrigado”, declarou o cantor friamente a uma platéia efusiva. A banda, desavisada e em choque, começou a tocar. Nem eles e nem o mundo jamais veriam novamente Ziggy Stardust, o personagem que Bowie criara para si mesmo.

O adeus repentino de Ziggy fechava um ciclo que, como tudo nessa época para Bowie, movia-se mais rápido do que as pessoas ao redor do cantor conseguiam processar. Tudo começou, propriamente, em junho de 1971, quando Bowie e sua banda entraram em estúdio para gravar o álbum Hunky Dory, que seria lançado em dezembro. As músicas já haviam sido compostas há algum tempo. Enquanto o produtor Ken Scott mixava as faixas com os alto-falantes no último volume, Bowie compunha, com papel e caneta, músicas novas para seu próximo disco. The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, o álbum que mudaria tudo, e que faz 40 anos de seu lançamento neste mês, estava composto antes de Hunky Dory ser finalizado.

Em novembro, Bowie e a banda voltaram ao estúdio para gravar essas novas faixas. A ideia de que Ziggy era um álbum conceitual, contando a história de um roqueiro alienígena que comete suicídio, é polêmica. “It Ain’t Easy”, por exemplo, havia sido gravada para Hunky Dory. “Starman” foi adicionada a pedido de gravadora, que havia sentido falta de um hit no álbum. E a ordem das faixas foi decidida com o objetivo de deixar o lado A e o lado B do vinil com durações semelhantes.

Ainda assim, o personagem estava ali. A versão de carne e osso surgiu ao longo de dezembro e janeiro, quando Bowie e sua esposa Angie começaram a compor a parte estética. Havia de tudo no Bowie alienígena: Lou Reed, Iggy Pop, Marc Bolan, The Legendary Stardust Cowboy, teatro japonês, mímica e a tradicional fascinação pelo espaço. O corte de cabelo, criado pela cabeleireira Suzi Ronson, era uma mistura de três cortes diferentes que Bowie viu numa revista. Na capa do disco, Bowie ainda está loiro – depois, para aumentar o impacto, decidiu-se pelo tom vermelho-fogo.

Difícil foi fazer a banda aceitar usar as roupas extravagantes dos Spiders From Mars. Mick Ronson (guitarrista e sidekick de Bowie), Mick Woodmansey (baterista) e Trevor Bolder (baixista) eram três sujeitos hétero, vindos da classe operária. Foi estranho para eles, mas não que tivessem escolha. Naquela época, tudo girava ao redor de Bowie e qualquer extravagância acabava sendo absorvida. O único desconforto real foi quando Bowie declarou que era gay à revista Melody Maker, em janeiro de 1972. Mas tudo ficou bem de novo quando o grupo fez seu primeiro show travestido e, para total surpresa do trio, a plateia adorou.

O álbum Ziggy Stardust só seria lançado em junho de 1972, mas Bowie começou sua turnê em fevereiro. “Starman”, o primeiro single, saiu em abril, e mudou a carreira de Bowie. Ele agora era uma estrela. Seus shows eram lotados com moças histéricas que copiavam seu cabelo e maquiavam um círculo na testa, igual ao do ídolo. O cantor foi ao tradicional programa Top Of The Pops tocar “Starman”. Sua casa começou a ser frequentada por gente do naipe de Mick Jagger e George Harrison. Bowie era finalmente o ícone que queria ser.

Mas Ziggy só é o que é porque o disco, de fato, foi uma das melhores coisas a surgir na música em muito tempo. “Five Years”, que levou o cantor às lágrimas durante a gravação, abre o álbum com seu crescendo emocional narrando a triste constatação de que o mundo vai acabar e todos temos apenas cinco anos para aproveitar. Quando os gritos desesperados param, entra o R&B de “Soul Love”, em que Bowie observa que o amor não é para todos e que “amor não é amar”. A dureza da letra contrasta com a humanidade da melodia, marcada pelo baixo quente de Bolder e por um saxofone econômico.

“Moonage Daydream”, a belíssima balada de piano em que Bowie pede a alguém para “apertar seu rosto espacial contra o meu”, foi a única música do disco em que o cantor levou mais de um take para gravar os vocais. Bowie geralmente causava correria no estúdio porque, quando se colocava para gravar, a captação precisava estar em total ordem – seu primeiro take era geralmente perfeito e, se fosse, ele não o repetia.

“Starman” foi a música que fez o Reino Unido lembrar que Bowie existia – para muitos, ele tinha feito “Space Oddity” e só. O megahit empresta os la-la-las do T. Rex e evoca “Over The Rainbow” no começo do refrão, mas o charme e a personalidade pop de Bowie dominam a música do começo ao fim. “It Ain’t Easy” destaca o croon do cantor sobre um violão e um baixo simples e ganha corpo só no refrão, quando um coro explode cantando “it ain’t easy to get to Heaven when you’re going down”. Os backing vocals femininos e as alusões religiosas da letra dão um toque gospel à faixa, que, somada à sua origem country (ela foi composta pelo americano Ron Davies), forma uma versão peculiar e ótima.

“Lady Stardust”, uma homenagem ao amigo e rival Marc Bolan, chegou a ser tocada ao vivo com o rosto do vocalista do T. Rex projetado no telão. Uma balada nostálgica com trejeitos de piano bar, a faixa abre caminho para o doo-woop de “Star”. Emulando os momentos mais pop de Paul McCartney nos Beatles, Bowie se apoia em um piano martelante e em backing vocals quase engraçados (“uuuuh chaa-ya-ya-ya”), mais alguns riffs poderosos de Ronson, para falar sobre suas ambições de ser um astro. “Hang On To Yourself” traz vocais falados e uma guitarra vibrante que culminam no refrão com um ótimo riff de baixo e palminhas.

“Ziggy Stardust” é a música que pessoas que nunca ouviram o disco usam para falar de Bowie, como se fosse seu maior ou melhor hit. Não é nenhum dos dois, mas seu riff de guitarra, que usa bem o silêncio para dar clima, cria um ambiente rock bem adequado para Bowie descrever seu personagem. A letra é uma egotrip deliciosa – quem mais, além de Bowie, conseguiria cantar um verso como “The kids were just crass, he was the nazz, with God given ass” sem soar brega?

As guitarras cocainadas de “Suffragette City” e suas referências à linguagem de Laranja Mecânica (uma influência forte para Bowie na época) a tornam uma das melhores do disco. Guitarra e piano disputam atenção no refrão, enquanto um sintetizador tentando imitar um sax faz o fundo e depois é trazido à frente no solo. Enquanto isso, um Bowie adolescente e pilhado implora para que o colega de quarto deixe o apê vazio para que ele possa receber uma garota (“she’s a total blam-blam!”). Há uma energia nessa música que só se veria de novo no punk, anos depois. E, ao mesmo tempo, existe a malícia do rock dos anos 50. Uma pérola.

Em “Rock & Roll Suicide”, o tempo pega um cigarro, coloca na boca de Ziggy e pede a ele que tome uma decisão. O alienígena rockstar, “too young to lose it, too young to choose it”, escolhe se matar. Bowie se descola do próprio personagem e conversa com ele (“gimme your hands”). A música cresce em drama e ganha metais e backing vocals sisudos no final, até terminar quase de surpresa. Um epitáfio sem condescendências.

Quando Bowie matou Ziggy ao vivo em 1973, a fama já havia subido à sua cabeça – ele não conversava mais com a banda e só via os músicos em cima do palco. A decisão de não contar a eles sobre o fim da turnê foi entendida como uma traição, e a banda acabou se desfazendo. Mas Bowie ainda tinha muito a criar. Seu próximo álbum, Aladdin Sane, foi tão genial quanto Ziggy, embora menos prestigiado, e a trilogia de Berlim traria a ele um respeito artístico que poucos alcançam. Destruir foi o modo que Bowie encontrou para poder seguir em frente. Só que, agora, ele poderia ir para onde quisesse.