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Coffee & TV – 50 Tons de Tarantino

Semana passada, mais especificamente no dia 27 de março, um grande ícone do cinema e da vida (pelo menos da minha) completou cinquenta anos. Calma lá, querido leitor, que Lua de Cristal é uma bagaceira irresistível e acho que a gente só tem mesmo que amar quando o Sergio Malandro interpreta o príncipe de algum filme, mas não é da Xuxa que quero falar hoje. Estou me referindo, claro, a Quentin Jerome Tarantino, um dos cineastas mais legais da nossa época e que, tenho certeza, acharia Lua de Cristal o maior barato. Aliás, consigo enxergar perfeitamente algum personagem de sua filmografia problematizando a cena em que a nossa célebre rainha faz uma planta renascer graças às suas lágrimas.

Nostalgias de Sessão da Tarde à parte, Tarantino é um dos meus diretores favoritos da vida e também uma das minhas pessoas que não conheço preferidas do mundo. Gosto da impressão que ele passa de estar sempre se divertindo horrores com o que faz, tanto que, muitas vezes, tenho a sensação que alguns de são filmes são só isso mesmo: uma desculpa para filmar sequências longas e malucas de perseguição de carros e o que mais vier na cabeça do cara – À Prova de Morte, estou falando com você.

Além disso, Tarantino é mestre em temperar contextos tensos com diálogos estranhamente banais, a exemplo da discussão sobre massagem nos pés que rola entre Vincent e Jules, os gângsteres de Pulp Fiction, antes de operarem um pequeno massacre; e também em inserir referências pop nos cenários mais improváveis – ou alguma vez você já imaginou ser possível que, antes de assaltar uma joalheria, os cães de aluguel conversariam sobre os significados por trás de “Like a Virgin”, da Madonna?

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Outra característica de seus filmes que não pode deixar de ser mencionada, muito cara à temática central dessa coluna, é a da música. Além de ser um grande nerd do cinema, com conhecimento pra dar e vender sobre filmes dos gêneros mais obscuros e imagináveis, Tarants – dá licença que eu gosto de dar apelidos pra quem eu gosto – manja muito de música e, mais importante, parece sempre saber a hora correta de lançar mão daquela trilha perfeita.

Pensando nisso, acredito que uma forma bacana de homenagear esse querido – já que instituições grandes como a Academia parecem fazer questão de esnobá-lo sem reservas – é elencando alguns dos melhores momentos musicais de seus filmes. Escolher apenas alguns é uma tarefa inglória, posto que cada um de seus filmes oferece momentos preciosos que, por si só, seriam dignos de uma lista própria. Sorte que a vida é tão longa quanto a fila desses momentos e não faltarão oportunidades de falar dele de novo e outra vez.

No seu primeiro grande trabalho totalmente autoral, Cães de Aluguel, acho que é impossível falar de qualquer outra cena que não a marcante e inesquecível – no bom e mau sentido – orelha cortada. A dancinha de Michael Madsen antes de extirpar um membro de seu refém é digna de nota, bem como o contraste entre o clima ameno da canção e o grau de violência do que está acontecendo.

Seguindo a ordem cronológica, é hora de falar de Pulp Fiction. Acreditem, dói mais em mim do que em vocês ter que escolher um único momento dentre tantas cenas fabulosas, por isso vou direto no twist de Mia Wallace e Vincent Vega, já que, tendo feito uma coluna inteira dedicada aos musicais, sinto que é meu dever cívico compartilhar a improvisação mais legal de todos os tempos.

Ainda que não esteja necessariamente inserida na ação do filme, “Bang Bang”, interpretada por Nancy Sinatra, não poderia ser uma escolha mais pertinente para nos inserir na história da menina Bellatrix Kiddo, aquela que só queria matar Bill.

Sozinha, “Down in Mexico”, do Coasters, já é um bocado sugestiva. Tarantino aproveitou o gancho e acrescentou Butterfly na história para colocar os pingos nos is. Inimigas choram e o resto da humanidade pira em uma das cenas mais sexies já filmadas.

Colocar o Ennio Morricone no meio de qualquer trilha é uma espécie de garantia que todo mundo vai ter que comer muito arroz com feijão para superá-lo. Em Bastardos Inglórios, sua “Rabbia e Tarantella” toca só (e infelizmente) nos créditos finais, e mesmo com outras composições do maestro na trilha, nada (nem o David Bowie), consegue superar essa pérola, que vai prender sua atenção até que o nome do último contra-regra apareça na tela.

  • Freskilda

    sou sensível demais pra apreciar tais películas.