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Coffee & TV – Alta Fidelidade, amores, desilusões e as noias musicais de Rob Fleming

“O que veio primeiro, a música ou a tristeza? Sou infeliz porque escuto música ou escuto música porque sou infeliz?”

Quem faz essa reflexão é Rob Fleming, protagonista de Alta Fidelidade, primeiro livro do inglês Nick Hornby. E não é à toa que a adaptação para o cinema, dirigida por Stephen Frears, comece com John Cusack se perguntando exatamente a mesma coisa. E vai além: se as pessoas se preocupam com crianças e jovens expostos à violência por meio da mídia, deveriam também perder seu tempo consternados com o fato delas ouvirem milhares de canções sobre dor, perdas e corações partidos. Segundo ele, isso causa um efeito no indivíduo. Rob Fleming não poderia ser descrito como um sujeito alto astral e de bem com a vida, e talvez “Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me”, do The Smiths, ser uma de suas músicas favoritas tenha algo a ver com isso. Mesmo que você nunca tenha escutado a referida, o título diz muito por si só.

Tenho um carinho especial pelo livro e pelo filme, tanto pela trilha sonora, que é fantástica, quanto pela forma perfeita com a qual Nick Hornby descreve a relação que temos com as músicas das nossas vidas. Rob sempre foi um aficionado por música e, por menor que seja o lucro que sua loja de discos lhe dê, ele se orgulha dela. Alguns têm uma carreira brilhante. Outros, o carro do ano. Ele tem discos e acha dificílimo respeitar qualquer coleção com menos de 5000 deles. Contudo, lá no fundo, ele se pergunta se essa paixão por música lhe fez bem ou mal, de forma mais ampla.

Explico: a arte possui uma carga emocional muito forte e quando você escolhe alguma manifestação dela para ser o centro da sua vida – como a música é o norte da vida de Rob –, simplesmente tem que aceitar que o sentimento de satisfação plena não faz mais parte da sua existência. Fleming queria que sua vida fosse uma canção do Bruce Springsteen, mas a gente sabe (e ele também, por mais que teime em fingir que não vê) que músicas são músicas, e quando aquele CD acaba, o que temos diante de nós é a vida, que é mais banal do que a gente gosta de admitir, com dores que pareciam mais fáceis de suportar através da voz do Morrissey, e é tão mais fácil se apaixonar se a trilha sonora ao fundo sugere um romance que te faz perder o rumo de casa!

Deixando de lado esse papo existencial meio deprimente, Alta Fidelidade é um livro que vai fazer com que uma enciclopédia musical se descortine diante dos seus olhos. Rob pode ter vivido toda sua vida agindo com seus instintos e se ferrando por conta deles, mas ele sabe escolher o que ouvir e talvez sua maior capacidade seja encaixar tudo que gosta em sistemáticos “Top 5” e mixtapes para pessoas especiais. Ele e os funcionários da Championship Vinyl, Barry e Dick, elencam desde as cinco melhores primeiras músicas de lado A dos discos até as melhores músicas sobre morte e para tocar em funerais.

O Rob Fleming do livro é um grande amante de soul, e foi por meio dele que fui apresentada a Solomon Burke, Otis Redding e Al Green. Essa base foi completamente desprezada na adaptação pro cinema, embora isso não signifique que a trilha oficial seja desprezível, passando por Velvet Underground, Bob Dylan e até mesmo Belle & Sebastian e Green Day; Pavement e Of Montreal se você prestar atenção nos pôsteres na parede. Mesmo tomando liberdade criativa, a produção acertou na mão, e apesar da seleção caprichada, o que fica na cabeça mesmo é o Jack Black cantando “Let’s Get It On”, do Marvin Gaye, um momento que certamente encontra-se no meu Top 5 de cenas favoritas do filme.

E o de vocês, qual é?

  • Lucas

    Ótimo texto!
    Fiquei fã do site…

  • Mariana Goulart

    Bem legal o texto, gostei da ideia da coluna, começou muitíssimo bem!

  • Cristiano Radins

    Texto arrebatador,alternando doses cavalares de fúria e ternura ,com muita perspicácia e relevãncia.Quando Rob Fleming faz a descricção,de que adora o jeito como ela se comporta,sem ser afetada,o estrago já está feito.

  • Estela

    Bacana a ideia, o filme é maravilhoso, porém, o texto passa longe disso e me pareceu muito vazio acabando repentinamente.

  • Barbara Bom Angelo

    Adoro o livro e gostei muito do texto. Parabéns!

  • Manoel

    Sendo chato, não é o primeiro livro do autor, pois este é Febre de Bola. Alta fidelidade é o primeiro romance.

  • Paulo Cesar Nogueira

    Adorei esse filme, mas ainda preciso ler o livro..tbm sou apaixonado por soul, Al Green, Otis Redding, Stevie Wonder, Sam cooke, não sabia q essa parte da paixão do Rob tinha sido limada no filme..(por isso preciso ler o livro :)), conheci Otis mesmo sem saber que era ele através de musicas marcantes..mas só fui mesmo saber de quem se tratava no filme ( nos extras alias) de “Elisabethtown”, outro ótimo filme..até mais. 🙂

  • Fanfarrona

    hirihrihri
    Gosto de ver a canastrice de Jack Black!!!

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