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Coffee & TV: os excessos de Wall Street e o lobo de Scorsese e DiCaprio

Em tempo de temporada de premiações e frenesi para conseguir ver todos os filmes do mundo antes do Oscar, já tenho o meu favorito – e olha que só assisti a dois dos nove indicados a Melhor Filme pela Academia em 2014. O Lobo de Wall Street, novo trabalho de Martin Scorsese, me ganhou pelo trailer e pela música, sem nem precisar da cartada Leonardo DiCaprio para que eu estivesse rendida. Quão boa foi a ideia de usar logo “Black Skinhead”, do Kanye West, no trailer de um filme sobre excessos com três horas de pancadarias moral, física e até química?

O filme, baseado nas memórias de seu personagem principal, conta a história real de Jordan Belfort, ex-corretor da bolsa americana que nos anos 90 resolveu explorar uma brecha no sistema que fez dele e dos seus sócios muito ricos muito rapidamente. O escritório que funcionava em uma garagem alugada em Long Island não demorou para tomar Wall Street em uma repartição luxuosa, com direito a festas bárbaras ao fim de cada pregão bem-sucedido, com orgias que fariam Baco corar – e olha que o termo bacanal foi cunhado em sua homenagem. Jordan queria ser rico, e o dinheiro era um fim em si mesmo. O que vinha graças a ele – diamantes maiores que o Ritz, mansões, iates, e prostitutas de diversas classes – era só um jeito de lidar com o problema de ter muito mais dinheiro do que era capaz de gastar.

No início de cada expediente, Belfort se colocava a frente do escritório e fazia um discurso inflamado, apaixonado e enérgico para estimular seus funcionários, que reagiam às suas performances como se estivessem diante de um sacerdote pagão, num culto eufórico e quase histérico ao dinheiro. Essa forma de retratar o protagonista como uma espécie de herói ou até mesmo um deus tornariam a escolha de Kanye West para encabeçar o tema do filme mais do que perfeita. Dá pra escolher melhor do que o artista que é dono do maior ego da atualidade e que chama a si próprio de deus, como observamos e ouvimos (muito) ele fazer em Yeezus?

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As batidas tribais e pesadas de “Black Skinhead” têm tudo a ver com o tom do filme também, que segue num crescendo sem nunca desacelerar. Quando você pensa que não dá pro buraco descer mais, que não tem jeito de DiCaprio se entregar mais a Belfort, que não cabem mais drogas nos corpos daqueles personagens e que Scorsese zerou o filme, ele vem e bate de novo: seja com uma briga histérica de casal com direito a muitos copos de água atirados de um lado para o outro, uma conversa cínica com um agente do FBI que termina com Belfort literalmente jogando dinheiro pelos ares, ou então com a sequência com personagens chapados mais brutal e impressionante que você provavelmente vai ver na vida.

E aí vem a parte mais genial da história: a trilha sonora oficial não tem nada de Kanye West, rap americano ou funk ostentação pelos quais nossas vãs filosofias aguardavam ansiosamente (quem vai usar essa carta, no fim das contas, é Sofia Coppola em Bling Ring). Tio Scorsese sabe ser gênio e sabe, sobretudo, ser elegante. A trilha sonora de O Lobo de Wall Street é instrumental, na maior parte das vezes, com números de jazz e blues dos anos 50, 60 e 70 vindo de nomes como Cannonball Adderley, Elmore James, Ahmad Jamal e até pega emprestado um dos temas mais clássicos do agente 007, “James Bond: Goldfinger”. Essa opção de trilha sonora cria um diálogo legal entre O Lobo de Wall Street e Os Bons Companheiros, outro filme animal do Scorsese, que acompanha a vida de três gângsteres nova-iorquinos dos anos 50 aos 80. O próprio Terence Winter, roteirista do filme, assume a relação entre eles. Até porque é difícil acreditar que dois filmes com personagens tão desprezíveis e ao mesmo tempo tão carismáticos, vindos de um mesmo diretor, seja mera coincidência, né?

Além de todo o glamour de décadas passadas trazido pelo blues e pelo jazz, gêneros que não ouço nem conheço como deveria, mas respeito pra caramba, O Lobo de Wall Street ainda traz em sua trilha alguns momentos bem contemporâneos – afinal de contas, é uma história da nossa época. “Everlong”, do Foo Fighters, pode ser ouvida brevemente, e o melhor momento fica reservado para o cover que o Lemonheads faz para “Mrs. Robinson”, do Simon & Garfunkel (trilha sonora antológica de outro filme). Sem querer puxar sardinha para os anos 90, mas já puxando, a música integra uma das melhores sequências do filme e, nesse, caso isso é muito.

Entre escolhas classudas, modernas e a melhor não-trilha sonora de todos os tempos (Kanye, fica tranquilo, que eu sempre vou associar você a esse filme), O Lobo de Wall Street é um filmaço, uma das melhores coisas que Scorsese fez nos últimos anos (e olha que ele quase nunca erra) e algo que deve ser visto e muito celebrado por nós, reles mortais, já que sabemos que se a Academia seguir sua tradição de anos, é bem provável que esse trabalho seja esnobado como muitos tantos outros do diretor. Tio Marty e Leo, meu Oscar é de vocês!