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Coffee & TV: Tchau, MTV Brasil

Fiquei muito triste quando soube que a MTV Brasil, tal qual a conhecemos, está prestes a desaparecer para todo sempre. A Abril, que tinha os direitos da marca no Brasil, como você já deve saber, resolveu não renovar o contrato e agora ela será devolvida para a Viacom. Foi divulgado que a partir de outubro a empresa americana vai lançar um canal diferente, fechado, com programação nacional, mas com muitas ideias inspiradas em programas de sucesso da grande dos Estados Unidos. Para todos os efeitos, aquele canal que volta e meia nos mandava desligar a TV e ir ler um livro não vai mais existir.

Há uns anos deixei de acompanhar a programação da MTV por não me identificar mais com o trabalho que era feito, e mesmo assim sinto que estamos perdendo um bocado com a sua partida. De acordo com o próprio nome da marca, a proposta era unir música com televisão e foi isso que eles buscaram fazer, de formas diferentes e inovadoras, durante muito tempo. E conseguiram. Os videoclipes serviam de espinha dorsal que justificava a existência da maioria dos programas, cujo pretexto na maioria das vezes era o de exibir clipes. O quão demais é pensar que já existiu na grade de TV um programa cujo intuito era fazer listas com temas inusitados e divertidos envolvendo o mundo da música? O Top Top MTV fazia isso toda semana, listando desde os 10 artistas mais badass mothafuckas até os dias que mudaram a história do rock. E o Piores Clipes do Mundo, o que era aquilo na TV aberta brasileira e quando já assistimos a uma coisa tão divertida e descontraída quanto?

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Nos tempos em que minha vida se resumia a ir para a escola e passar a tarde toda na frente da televisão, a MTV foi muito importante para minha formação musical. Foi através dela que eu comecei a me interessar pelo mundo da música, a descobrir novas bandas – e antigas também -, suas histórias e movimentos importantes.  Assisti também a muitos shows incríveis e morri de dar risada com aqueles programas totalmente fora da casinha que eles exibiam, como Hermes e Renato e todas as suas produções paralelas. Quando penso sobre a forma como conheci grande parte das bandas que fazem parte da minha vida e da minha história, quase todos os caminhos levam à MTV, seja pelo lançamento dos clipes ou pelo resgate de outros em programas específicos. Eu devo The Cure, The Doors, White Stripes, No Doubt e Strokes à MTV Brasil, e quando analiso minha história com a música e todas as coisas que foram e são importantes pra mim, isso não é pouca coisa.

Desde o início desta semana, a MTV está exibindo em sua grade um apanhado com os melhores momentos desses 20 anos de emissora, selecionados pelos VJs que fizeram história na casa. Entre um programa e outro, eles contam um pouco sobre como era o trabalho, os bastidores, curiosidades sobre a rotina do canal e essas coisinhas que a gente adora saber. Do pouco que consegui acompanhar dessas maratonas, uma coisa consegui perceber na lembrança de todos eles: trabalhar na MTV era a coisa mais legal no mundo, e eles sentem que nunca vão ter um emprego que lhes ofereça oportunidades tão legais e tamanha liberdade para pirar na frente das câmeras. O Cazé Peçanha literalmente colocava fogo nas coisas na época do Teleguiado, e a Tatá Werneck passava trote nas pessoas durante o Trolalá, esse era o mote do programa.

Como muita gente da minha geração, eu também já tive minha fase de sonhar em um dia trabalhar na MTV. Não como apresentadora, porque eu sempre tive um certo horror a essa ideia, mas na produção, nos bastidores. Quando era mais nova, imaginava uma grande sala de arquivo da emissora guardando todos os clipes do mundo, e meu sonho era ficar ali o dia todo curtindo a videografia das minhas bandas favoritas e inventado listas para o Top Top. As chances de esse emprego nem ao menos existir são enormes, mas é uma perspectiva de futuro reconfortante, com 13 ou 19 anos. Se até então eu não tinha tirado essa fantasia da cabeça, é melhor tirar agora que eu tenho certeza que não vai rolar mesmo. Mesmo assim, gostaria de aproveitar o momento pra brincar de VJ aposentada e elencar aqui as lembranças mais legais que tenho com o canal.

Disk MTV: Numa época pré-Youtube, o Disk MTV era tipo a coisa mais importante do dia pra quem curtia acompanhar as novidades da música. Sei que é um discurso de tia esse de na-minha-época-as-coisas-eram-diferentes-e-as-crianças-de-hoje-tem-tudo-na-mão, mas existia uma emoção especial em esperar uma hora de programa pra ver o clipe da Britney Spears em primeiro lugar na parada do dia. Eu gostava do Disk na época da Sarah e curtia ver as entrevistas dela com os artistas. Foi nesse programa que eu ouvi Strokes pela primeira vez, na estréia de “You Only Live Once”. Eu tinha uns 13 anos e aquele clipe foi a coisa mais legal que eu tinha visto na vida. Portanto, obrigada, Disk MTV.

Top Top MTV: Bem, eu já disse que meu sonho era ser redatora desse programa, que semanalmente apresentava as listas mais legais do mundo. Os melhores temas, os melhores critérios e as melhores notas que apareciam na tela. Além das listas, o programa era bacana por ser cheio de curiosidades inúteis sobre o mundo da música, boa parte da minha bagagem de cultura totalmente inútil eu aprendi com o Léo Madeira e a Marina Person. Por exemplo, como eu poderia saber que o White Stripes só usava vermelho, preto e branco porque essas são as cores que os bebês vêem mais nitidamente e que eles (Jack e Meg) têm uma ligação toda peculiar com as crianças?

Rockgol: Ok, esse tinha mais a ver com futebol do que com música, mas não deixava de ser sensacional. Aliás, eu não sabia que futebol era tão legal até começar a acompanhar o Rockgol, e por causa dele hoje eu sei até o que é um impedimento. Eu adorava ouvir músicos e jogadores tricotando sobre a rodada de jogos da semana junto com o Paulo Bonfá e o Marco Bianchi, amava os comentários deles sobre aqueles jogos de interior duros de assistir e morria de rir do campeonato que rolava anualmente com times formados por artistas.

Todas as faixas de clipes. Videoclipe é uma das coisas mais legais do mundo porque consegue unir outras duas coisas mais legais do mundo: música e cinema. Um clipe é uma espécie de filme sobre a música, uma plataforma visual daquilo que você está ouvindo, alguns com historinhas coerentes e outros só com pirações conceituais. Sempre serei grata aos Beatles por serem incríveis e desejados mundialmente o suficiente para se gravarem tocando e poderem estar em vários lugares ao mesmo tempo, permitindo que, décadas depois, a gente tivesse a dancinha do clipe de “Lonely Boy” como referência para dançar de um jeito bobo e divertido nas festas. E se a razão de existir da MTV era, pelo menos de início, exibir clipes, aquelas horas ininterruptas de música que eles passavam durante a noite e pela manhã nos fins de semana foram o motivo para que tantas horas da minha vida (e acredito que da de várias de vocês também) fossem passadas na frente da TV, pensando em nada, num mundo onde zumbis dançam pela noite e bandas tocam impassíveis num contêiner que se enche de óleo.

  • Letícia

    Adorei o texto e me identifiquei muito! Também foi através da MTV que conheci The Strokes… e o estrago foi feito 😉

  • Saudosista do D.F.

    Nessa fotinha faltam os v.j´s que eu mais amava: Soninha, reverendo F.Massari e G.Moreira!
    Quando apareceu a MTV Network eu e minha amiga de colégio sonhávamos que um dia teria isso no Brasil e suspirávamos: NEVER!
    Ainda bem que foi um lêdo engano! Eu adorava o MTV Clássicos e Non Stop – único canal que nos mostrava bandas diferentes, os outros canais de musicas são muito pops! Lado B…quem teria coragem? Kid Vinil, claro!
    Lembro do Zeca Camargo entrevistando R.Russo, MTV Sports – quando me apaixonei pelo Márcio Garcia(rs)!
    Blog de musica é bom p/ nos apresentar bandas novas, mas na MTV eram muitas; minha primeira vez com W.Stripes, Blur, Suede, Placebo, F.Ferdinand…

  • Não acho que vai mudar a MTV,assim.Na real,mesmo com esse discurso todo,ninguém sabe como vai ser e vão perceber se for uma merda.Eu espero que não,que volte a ser como era antes,mesmo mudando.E se a MTV mudou foi porque não quis respeitar seu publico,se vendeu para o mercadão e fez de tudo para ser popular demais.Espero que isso tudo mude de novo,para o bem.

  • Mel

    Ia escrever um texto sobre o fim da Mtv, mas vc conseguiu escrever tudo da mesma forma como me sinto.

  • Nairon

    Gostei muito do texto, agora eu vou defender a MTV, eu sou dessa época quando a MTV tinha todos esses programas clássicos e tudo mais. É uma pena que essa MTV Brasil como a conhecemos está chegando ao fim, mas isso é assunto administrativos. A MTV Brasil tinha o seu público alvo, não tinha tantas concorrentes e o conteúdo não era de tanto acesso como hoje em dia, eles faziam o que era legal e tinha resposta comercial nisto, continuaram a fazer o que “achavam legal” para o momento atual e visando o retorno comercial, mas nem tudo é flores.

  • Mari

    me senti velha pq comecei a gostar de strokes na msm época, mas eu tava no fim da faculdade.

    eu me acho estranha c isso da mtv, pq eu tbm lamento, mas como não era canal aberto na minha cidade, eu só tive pelo pouco tempo q assinei tv a cabo. eu me sentia A mal informada musicalmente pq não tinha MTV e tive q correr atrás das coisas depois q a banda larga e o kazaa (dps o torrent) chegaram na minha vida.

  • Pingback: MTV, música, lembranças e um pouco de nostalgia | Almond blossoms()

  • Paulo Cesar Nogueira

    È vai fazer falta, muito da minha “educação musical” veio da MTV, uma pena q ela tenha sido engolida por erros do caminho, como musicas e bandas modinha, programas pendendo para uma faixa etaria mais adolescente. E tbm para o empobrecimento musical nacional, Hoje soa como um veiculo datado, ja que a maioria dos artistas com alguma criatividade se lança independente, tanto seus discos, qto vídeos. Com a facilididade de canais de video. Parece uma grande cadeia alimentar cultural. As radios foran meio que mortas pela MTV..e a Mtv sofre do mesmo mal agora pelas mãos da internet. Mas foi ótimo enqto durou. RIP MTV. :s