“Compro e vendo ingresso. Compro e vendo ingresso”

Imagine essa situação: aquela banda da qual você tanto gosta, mas que nunca veio ao Brasil, finalmente confirma um show na sua cidade, mas os ingressos se esgotam quase que instantaneamente – e você fica sem o seu. A primeira sensação é de tristeza, pois a banda realmente mora no seu coração e vê-la ao vivo seria a realização de um sonho antigo.

No dia do show você vai até a porta do local e encontra inúmeros cambistas vendendo o ingresso por um valor equivalente ao dobro do preço da bilheteria. Você vai realizar o seu sonho e comprar o desejado ingresso da mão de um cambista, pelo dobro do preço pelo qual você pagaria se eles não tivessem se esgotado?

Agora vamos pensar em uma variação da situação anterior: agora os ingressos não se esgotaram, e você facilmente conseguirá comprá-los na bilheteria no dia do evento.

tickets

Só que ao chegar ao local do show, você se vê circundado por cambistas vendendo as entradas pela metade do preço da bilheteria. Como os ingressos não se esgotaram dessa vez, eles querem se livrar deles para o prejuízo ser menor. E aí, você compra o ingresso com desconto dos cambistas ou paga o preço total na bilheteria?

Por mais que pareçam situações quase que inversas, a minha postura em ambos os casos seria a mesma: não comprar do cambista, mesmo que isso signifique que eu não veja minha banda favorita, ou que economize menos dinheiro do que poderia. E isso não é falta de amor próprio. Comprando de um cambista, eu estaria sendo conivente com uma prática ilegal que prejudica muita gente ao troco do lucro de meia dúzia de pessoas.

Pense na situação dos ingressos esgotados: cambistas compram boa parte dos ingressos disponíveis, impedindo várias pessoas de adquirirem os seus legalmente. Para cada ingresso na mão de um cambista existe uma pessoa que queria fazer a coisa certa e foi impedida. Ao comprar de um cambista, essas mesmas pessoas acabam pagando um valor acima do preço do ingresso para o lucro dos (em parte) responsáveis pelo esgotamento dos ingressos. É meio contraditório você deliberadamente dar dinheiro para alguém que intencionalmente te prejudicou.

scalpers

Já a situação do cambista tendo que vender seus ingressos com prejuízo, em um primeiro momento pode até parecer interessante, só que ao comprar um ingresso nessa situação, você fará com que o cambista perca um pouco menos de dinheiro do que perderia, quando o ideal era que ele perdesse tudo – afinal ele agiu com a intenção de tirar vantagem sobre os outros. De certa forma, é um incentivo para que ele continue com essa prática. E não se esqueça, isso também é ilegal. E veja só: se ninguém comprar ingressos de cambistas, eles não terão para quem vendê-los. Sem mercado, eles provavelmente deixariam de existir.

Parece meio utópico pensar em um mundo em que não haja cambistas – eles estão presentes em todo tipo de evento, em todo tipo de país. O que procuro é fazer a minha parte, e convencer as pessoas a fazer o que eu considero correto. E se você chegou ao final desse texto decidido a nunca mais comprar um ingresso de cambista, o meu objetivo terá sido alcançado.

1 Comentário para "“Compro e vendo ingresso. Compro e vendo ingresso”"

  1. Além de não comprar de cambistas, tambem não vendo a eles ingressos que sobrem na minha mão (amigos que desistem de última hora – sim, tenho os piores amigos possíveis). Ou vendo pelo preço de face para algum outro amigo, ou para alguém na fila da bilheteria, ou então morro com eles na mão (na pior das hipóteses, o amigo furão pelo menos me paga o ingresso).

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