Criolo - Espiral de Ilusão

Criolo
Espiral de Ilusão

Oloko Records

Lançamento: 28/04/2017

As raízes da música brasileira tomam ramificações extremamente diversas. Do jazz que encontra o samba na base da discografia de Jorge Ben à impetuosa voz de Maysa chorando bossas e sambas, artistas têm influências tão abundantes que de simples detalhes em seus repertórios acaba se tornando possível explorar gêneros inteiros. Com esse misto inicial de estranheza boa, Criolo abriu um parênteses no rap de Nó Na Orelha (2011) para reverenciar o samba na faixa “Linha de Frente” – onde tomava emprestado a base de “Tristeza, Pé no Chão” de Armando Fernandes, sublinhando as origens de seu morro: uma retroalimentação que não cria distinções entre o samba que se ouve na esquina e o rap das rinhas de fins de semana.

Natural, então, que Criolo em seu quarto álbum de inéditas aprofunde as ligações de sua discografia buscando terreno onde possa explorar facetas do samba em Espiral de Ilusão (2017). Mergulhando nos pouco mais de 30 minutos de exibição do estudo de sonoridade que propõe, infelizmente, dois atributos surgem claros ao ouvinte: o apanhado de músicas do artista não consegue nem trazer nada que acrescente novidades ao gênero – como tem sido comum nos lançamentos de sambistas paulistanos; nem conceber faixas que se apresentem tão luminosas quanto o são suas referências.

Acompanhado por belíssimos arranjos organizados novamente por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, além de sublinhar um trabalho de voz que evidenciam o talento de Criolo também como intérprete, o principal problema do registro queda sobre as letras. Num estranho limbo de onde não consegue extrair vertentes como a simplicidade popular de compositores como Zeca Pagodinho ou a melancolia de Paulinho Da Viola; Criolo tenta sem sucesso emular algumas dessas intenções em faixas como “Filha do Maneco” – soando uma sobra pouco inspirada de Bezerra da Silva, ou a repetição de refrão que arrisca faixas festivas e acessíveis, mas ao final só testam a paciência de quem escuta, como em “Lá Vem Você”, “Calçada” ou “Boca Fofa”.

Quase que por toda a extensão do álbum, a intenção de Criolo parece ser a de demonstrar a capacidade de se servir de viradas clássicas do samba, como a tristeza de letristas como Nelson Gonçalves e Cartola, por exemplo, e reavivá-las em novas faixas, como já fizeram com êxito Romulo Fróes, Roberta Sá e Juçara Marçal em alguns de seus lançamentos. As concorrentes a esse intento “Espiral de Ilusão” e “Nas Águas” – entretanto, não alcançam a melancolia sugerida nas melhores faixas do gênero, combinação eficaz entre naturalidade e dor.

Em resumo, Espiral de Ilusão (2017) é apanhado de inspiradas sonoridades, lotada de violões, viradas de cavaco, sopros e percussões referenciando os melhores arranjadores de samba e diferentes aspectos que coexistem na sonoridade tornando-a plural, mas em letras pouco impactantes ou memoráveis. Criolo mira na simplicidade de Bezerra da Silva, mas acerta na simpatia inexpressiva de Diogo Nogueira.

Escute abaixo o novo disco do Criolo, Espiral de Ilusão: