Daft Punk - Random Access Memories

Daft Punk
Random Access Memories

Columbia

Lançamento: 17/05/13

Por Victor Bianchin

“Nós não estamos tentando fazer música house para gente que gosta de rock – isso é besteira”, disse o Daft Punk para a NME em 1997, em uma fase pré-capacetes. Engraçado, porque foi justamente isso que eles fizeram. Desde que as caveirinhas começaram a dançar no clipe de “Around The World“, o Daft Punk é uma banda de comunhão, o ponto de convergência entre quem gosta de guitarras e quem gosta de pickups. Não que os franceses sejam os únicos, mas, de 1997 para cá (ou seja, para a nossa geração), são os principais.

Outra coisa que o Daft Punk negava era o “star system”, a mania de bajular os artistas em vez de suas músicas. Os capacetes eram para protegê-los disso. Mas essa história também foi meio deixada para trás, escondida pelos anúncios para Gap e Sony, pela trilha-sonora para filme da Disney, pelas roupas da Saint Laurent e, neste Random Access Memories, por uma das campanhas de marketing mais massivas da música contemporânea.

Não é que o Daft Punk tenha traído a si mesmo, não. É que tudo isso serve para mostrar que o compromisso maior da dupla sempre foi mesmo com sua música, e não com algum tipo de ethos. Eles não se comprometeram com a indústria: além de não produzirem com frequência (quatro álbuns em 16 anos) e nem de fazerem muitas turnês (a última foi em 2007), Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo também tiveram a ousadia de fazer um álbum de rock retrô (Human After All, 2005) enquanto seus antigos singles ainda infestavam as pistas de dança e toda a música pop os copiava, de Madonna a Justice.

Ninguém lembra hoje, mas Human After All foi mal recebido em 2005 (a nota no Metacritic é 57, repare). Acusaram-no de ser muito repetitivo, de carecer das melodias inspiradas de Discovery.  As resenhas, quando muito, eram complacentes. O fato de que o anúncio de Random Access Memories foi recebido como a segunda vinda de Cristo mostra como uma omissão pode ser importante para uma banda. Ninguém nem lembrava de ter falado mal de Human After All.

E o interessante é que RAM é uma sequência direta. Se, em HFA, o Daft Punk estava olhando para Black Sabbath, Deep Purple e krautrock, agora o foco são Bee Gees, Abba, Michael Jackson, Earth Wind And Fire e similares. Pulamos do rock para a disco, mas as referências ainda são todas dos anos 70 e 80. Para uma dupla de robôs, é curioso notar como o Daft Punk olha cada vez mais para o passado.

Não à toa, o álbum sempre soa familiar, como aqueles infomerciais de coletâneas da Som Livre. Dê uma passada no last.fm e você verá o pessoal caçando referências que vão de Wham! a Super Mario Galaxy.

RAM tem seu eixo em “Touch”, um épico de oito minutos em colaboração com o compositor Paul Williams, responsável por algumas pérolas dos Carpenters. A música é feita em camadas: começa com um texto teatral, vira um funk com trompetes, depois uma balada e, enfim, uma música de coral. A estranheza e a inconstância não incomodam porque as partes são excelentes sozinhas. Coladas, viram um experimento. E tudo faz mais sentido levando em conta a letra existencialista. “I need something more”, pede Williams, enquanto viaja pelos diferentes sons à procura. Fica a nosso critério saber se ele acha.

“Give Life Back to Music”, com sua intro rock ‘n’ roll seguida pelo seu groove suave, é um aceno aos irmãos Gibb e uma forma certeira de começar o álbum. Faz bom par com “Get Lucky”, o primeiro single, basicamente um loop repetitivo de guitarra que serve de embalagem para a voz agradável de Pharrell. Não fosse o próprio Daft Punk surgir lá pelos 3:30 com seus vocoders inconfundíveis (a melhor parte da faixa), a música poderia entrar em qualquer álbum que Nile Rodgers produziu nos anos 80.

A viciante “Instant Crush”, com vocais de Julian Casablancas, é melhor que todo o último disco dos Strokes. O estilo chorado de Julian, retocado na medida com o vocoder, cai como uma luva sobre a linha de baixo hipnotizante dos versos e os teclados new wave do refrão. Julian poderia dar uma personalidade a mais a “Fragments Of Time” se a faixa fosse mais acelerada. Do jeito que está, lentinha e com Todd Edwards, soa até agradável e tem synths interessantes, embora não tenha sido feita para estourar. Mas é um desperdício: a parceria com Edwards rendeu muito mais em Discovery.

“Giorgio by Moroder” tem o produtor falando por dois minutos antes de virar uma espécie de cruzamento entre todos os trabalhos anteriores do Daft Punk: estão lá o baixo alquebrado de Homework, a repetição de escalas de Discovery e as guitarras de Human After All. Tudo é amarrado de forma arejada, com espaço para solos de piano e baixo e, mesmo assim, o crescendo da música não perde efeito. Trabalho de maestro.

“Contact”, que encerra o álbum e é uma das melhores, segue a mesma linha, mas é bem menos suave. Começa com vozes de astronautas, passando para um riff de sintetizadores que vai casando com órgãos de igreja, solos de bateria, ruído branco, etc., sempre ficando mais urgente. É a trilha-sonora de um ônibus espacial levantando voo.

O álbum também tem seus maus momentos. “Motherboard”, que patina entre música de elevador e trilha-da-fase-da-água de videogame, tem um break pouco inspirado e mata o clima devido à sua longa duração. “The Game of Love” e “Within” se arrastam. E a minimalista “Doin’ It Right”, apesar de ser a melhor coisa já parida por um membro do Animal Collective, soa indie demais para um álbum que faz tanta questão de ser pop. Os vocais me deram saudade do Moroder falando.

Daqui a alguns anos, o Daft Punk vai sair de novo da toca para fazer mais um disco. Independentemente do que for, vai ser exatamente o que nós precisamos, porque o Daft  Punk ainda é a banda que une os roqueiros e os eletrônicos, os indies e os pops, os hipsters e os executivos. Pode ser que, na próxima vez, eles resolvam emular o Pink Floyd, os Beatles ou o Elvis. Afinal, o Daft Punk é uma banda que sempre faz questão de estar um passo atrás. O que importa é que nós continuamos querendo segui-los.

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  • Thadeu Dias

    Olha, como todo trabalho artístico, seja pintura, musica, performance… realmente, só o tempo dirá e demonstrará sua real relevância 🙂 por hoje, acho-o um otimo album, atendendo desde o gosto mais pop e radiofonico ao lado mais experimental e conceitual. não dou um 10, é dificil, mas é um otimo cd. achei bacana a resenha, so faltou “Lose Yourself to Dance”, que dá uma vontade forte de dançar lascivamente… hehe. Hoje, a preferida é “Giorgio by Moroder”, sendo que no inicio era super estranheza com ela, eu proprio me surpreendi com minha mudança de gosto em relação a ela. acho que é um cd para ouvir mais de uma vez, e deixar rolar. e no fim de tudo dito,.. É SO UM CD. deixe-mos de lado esse marketing pesadissimo. hehe. abraços

  • Thadeu Dias

    *deixemos

  • Troglô

    Todo disco hypado consegue êxito comercial, mas deixa a desejar pelas promessas … pq quem firma do disco no tempo são os RESULTADOS e não as PROMESSAS. Num adianta prometer e não cumprir ..fica um clima de aprovação por lavagem cerebral.
    Veja recentemente:

    MDNA da Madonna foi um lixo, mas no lançamento a hipocrisia do público falou mais alto.

    Born this Way, da Lady Gaga também.

    The King of Limbs, do Radiohead na mesma.

    Angles, do Strokes ou até este último.

    Esses aí de Pop prometeram mudar o cenário, mas ficaram só na verborragia. Os de rock, só prêmio de consolação de fanzecos apaixonados, cegos e fundamentalistas.

    Sua resenha é muito boa porque vc fala do contexto, dá a sua opinião e deixa a bola rolar.

    O Daft Punk não subiu um patamar. Também não desceu. Acho que conseguiu dançar a música do tempo atual trazendo uma discussão importante e se mostrando relevante, por mais que não tenha de fato essa força toda pra mudar o cenário, mas tem mecanismos pra criar buzz, hype e fuzuê sobre o status quo do cenário. Tenho certeza que as pessoas vão tentar produzir (músicos) ou até escutar coisas diferentes (ouvintes).

    O êxito do disco tá mais por aí: mostrar que ainda são relevantes, de alguma forma. E manter os fans roqueiros. Agora, não acredito que eles aumentem o rol de fans com esse disco. Contudo, já atingiram umas vendas e charts bons … tem que mostrar resultados pro patrão também … e não só pro público.

  • “Born this Way, da Lady Gaga também.”
    OI?

  • Davi

    Que vontade de escrever uma crítica ao Random Access Memories. É tanta gente falando besteira… O nome do álbum fala de memória, tem uma faixa que é o Giorgio (que produziu apenas a Donna Summer) falando sobre como ele ajudou a inventar a Dance Music, é cheio de referências sonoras à decada de 60, 70 e 80 e as pessoas ainda não entenderam essa carta de amor ao house e à história da música eletrônica e de como eles estão, através desse passado tentando “give life back to music” – nome da faixa introdutória. Em um tempo de Dubstep onde a batida é cada vez mais pesada, mais suja, mais violenta, o groove de “Lose yourself to dance” é a maior inovação que poderíamos ter. Viva Daft Punk, viva sua lucidez sobre o momento atual da música, e viva esse acesso às memórias, que nos faz lembrar que música eletrônica é mais que tribal, dubstep, goa trance, projeto de diva se espremendo pra cantar e 4×4 à 132 com uma escaladinha de tamborzinho militar no meio.

  • Vic

    Se decepciona quem espera demais!

  • KFZ

    O Davi falou tudo, esse album é um manifesto sobre a situação da música eletrônica, que se popularizou de uma forma que se esqueceu da parte humana da coisa, precisou que os “robôs” recuperassem o elemento orgânico da música Mainstream, o marketing do disco deixou muito claro que eles querem o grande público, especialmente agora sobre esse vácuo de um novo grande nome pra agitar as coisas.

  • miss P0P

    …o tempo dirá…

  • Troglô

    “O tempo dirá” é verdade! Já diz.
    O marketing e a lavagem cerebral vinda dele já articularam nossas opiniões para achar algo mediano ser entendido como grandioso.
    Aliás, os últimos do Radiohead, Strokes, Lady Gaga, Madonna e todos esses com muito orçamento também são grandiosos e mudaram o cenário da música como pretendiam, não é? O tempo já diz. Algumas pessoas tb.