Entrevista: Emicida

Na última quarta-feira, Emicida, Projota e Rashid tocaram no Estúdio Emme, em São Paulo. O show, nomeado Três Tenores da Z/N In Concert, deu início à série de apresentações que terá vários convidados pra lá de especiais, sempre dividindo o palco com Emicida. Antes de rolar o som, trocamos uma ideia rápida com o rapper, que, mesmo correndo e mega ocupado, nos recebeu muito bem.

Foi mais ou menos assim:

Eu sei que você já falou bastante sobre o episódio da viagem pro Coachella, mas eu queria saber o que você aprendeu com isso e o que você não faria novamente, pra talvez não errar de novo.

Emicida: Na verdade eu aprendi que a viação dos Estados Unidos é um bando de filho da p#t@.

Mas foi treta dos caras lá mesmo?

Emicida: Os caras pediram todas as entrevistas que eu já fiz na minha vida. Muita coisa. Tipo, em uma semana, juntar todas as entrevistas que eu já fiz na minha vida. Puro ódio, puro ódio.

Outra coisa que andam comentando é o lance seu e do Criolo. Vocês estão aparecendo bastante por aí, se destacando. Você acha que isso envolve a cena do rap nacional como um todo ou é um bagulho mais pontual?

Emicida: Eu acho que algumas coisas estão começando a ebulir.

Você acha que envolve a cena mesmo?

Emicida: Sim. Muita coisa tá começando a aparecer. E a gente tá… Eu tô há alguns anos assim mesmo, aparecendo. E o Criolo, pelo trampo que o cara já fez ali no disco também tá dando uma levantada, tipo, o Criolo tá com uma equipe muito boa, colocando o trabalho dele nos lugares, e isso aí é fundamental. Então, eu acho que é o sinal de uma cena que tem aparecido.

É que, infelizmente, fica meio restrito, não é? No sentido de ter espaço na mídia.

Emicida: É, na real a gente aparece na mídia mais especializada, a gente não aparece na “grande” mídia. Vez ou outra a gente tá na Folha. A gente não tá na, sei lá, vamos ver… pegar a capa da Rolling Stone. Tipo, a gente tá numa notinha ali, às vezes, mas não é uma parada que é foda, com frequência. É como você falou, é pontual, não tem nada marcado, frequente. Mas comigo, às vezes, tem semana que a gente faz Jô Soares, Altas Horas, Veja, Billboard, a porra toda. Tem semana que ninguém lembra o que a gente fez. Mas é isso aí mesmo.

Eu queria perguntar sobre as letras. Eu não sei rimar, não sei fazer nada, mas queria ouvir de você o que você acha sobre o perigo de cair em repetição.

Emicida: Ah, quem fala mais tá mais sujeito a se tornar redundante.

E você já percebeu alguma escorregada sua? No seu som?

Emicida: Não que não seja proposital. Eu sou bem analítico com isso aí. Eu sei dos momentos em que eu repeti algumas coisas, mas são coisas que eu considerei que podiam ser repetidas, sabe? Por exemplo, eu tenho bastante música que fala de rap, faz alusão a isso. Mas o rap dentro da minha música se torna uma metáfora da vida das pessoas, sabe? É como se o pedreiro contasse a vida dele, e aquilo servisse pra mim. Da mesma maneira que eu falo que eu faço música e aquilo serve pra vários pedreiros. Então, às vezes parece que a gente se torna redundante, mas é uma questão das pessoas que buscam essa redundância, não das pessoas comuns que ouvem, as pessoas comuns que ouvem se encontram ali dentro. Tipo, “Triunfo” – ela começa falando “não escolhi fazer rap“, tá ligado? Se ela fosse uma música restrita ao rap, ela tinha morrido. Porque, tipo, a primeira frase dela seria para as “pessoas do rap”, mas não, as pessoas assimilam perfeitamente isso aí. É a questão de você ter uma causa, né mano?

Cara, eu nunca vi tudo isso mas, tão falando bastante que nesse novo EP você faz umas críticas nervosas aos caras que criticam seu trabalho.

Emicida: Não.

É esse lance da fama de “bonzinho”?

Emicida: Na verdade os caras se acham importante pra caralho, acham que estão sendo citados mas, mano, eu tô falando de mim. Agora, dói nos caras mas, tipo, nem é. Tem um bagulho ou outro. Mas é que é pra tirar uma onda mesmo da cara dos caras, eles fazem uma par de bagulho, fazem música pra caralho e nenhuma dá certo, nenhuma faz barulho. Aí eu faço mesmo, tirando uma onda mesmo, tipo, o melhor dos caras que eles podiam fazer não dá em nada, tá ligado? Aí eu falo isso aí mesmo. Mas não fico falando dos outros. São meus erros e meus acertos só, não tem essa parada não.

O que você acha desses festivais que tão rolando por aí, tipo o Urban Fest e o Black na Cena? Você acha que isso ajuda de alguma maneira?

Emicida: Acho que esses caras se precipitaram, na ganância, às vezes. No sentido de… Esse não é o momento do rap pensar “mega”, esse é o momento de se pensar a médio, longo prazo, é o momento da gente trabalhar médio. A gente foi pequeno pra caralho, a gente é pequeno ainda, mas já é um bom momento pra gente pensar médio. Saber fazer… tipo, é melhor você ter um espaço pra três mil pessoas e deixar oitocentas pra fora, do que ter espaço pra trinta mil, e irem sete, tá ligado? Foi o que aconteceu nesses festivais aí, cara. Tipo, os caras meteram o Urban e todo mundo botou uma fé na parada, só que quando viram, o bagulho não rolou, tá ligado? Também, os caras meteram Ja Rule no barato, pra afastar o resto do público que não ia.

E ainda teve aquela presepada dele.

Emicida: E o Black na Cena, cara, vou te falar que fiquei chateado, mano. Eu fui em um dia. Fui no sábado, no dia do Public Enemy. Eu fui no show do Public Enemy e fiquei decepcionado com a quantidade de malucos, porque eu achava que ia estar assim, lotado. Jorge Ben, Public Enemy, Black Rio, ia ter o Criolo participando e tal, só que não rolou. Aí eu voltei pra casa pensando nisso, tipo, a gente tá fazendo o caminho inverso da coisa, sabe? A gente não pode olhar isso aí agora e “ah, essa aí é a parada”, saca? E meter um festival pra trinta mil pessoas. Fora que eu acho que o Urban teve um vacilo de não dialogar mais com essa cultura da música urbana nacional, sabe? O Black na Cena tinha o Criolo fazendo uma participação com o Black Rio, mas também faltou uma coisa mais nesse sentido, saca? Nem precisava ser eu. O Pentágono ali já teria feito um estrago e talvez tivesse dialogado legal com essa geração também, tá ligado? Então, acho que os caras pensaram gigantescamente, tipo: “ah, agora é só a gente divulgar pra caralho que os eventos de rap vão lotar”. Mas não, cara, tipo, a música, ela precisa se enraizar mais em outros pontos ainda, pra gente poder colocar vinte mil pessoas em um festival. Vai acontecer, involuntariamente, mas ainda não é hoje.

Outra coisa, que acho que é até meio óbvio, mas você acha que o lance da pista VIP ali dá uma esfriada?

Emicida: Esse bagulho é foda porque é uma faca de dois gumes, né. Tipo, no show internacional, os contratantes falam que é caro pra caralho e a pista VIP pra pagar o show mesmo e tal. Só que, mano, é bizarro, né? Eu não sou a favor desse bagulho não, porque na pista VIP não vai quem curte o som, vai quem quer aparecer. Aí fica tudo ali, fazendo pose, de costas pro palco, isso é foda, é deprimente. Tipo, as pessoas que gostam da música, lá no fundo.

Pra acabar, você acha que rola machismo no rap ou falta uma participação maior das minas?

Emicida: Sinceramente, existe um machismo na sociedade. E o hip hop é um elemento que existe dentro da sociedade machista. São dois mil anos de machismo, tá ligado? O hip hop é feito pelas mesmas pessoas que integram essa sociedade podre que a gente vive. São as mesmas pessoas que estão aí, pagando ônibus, McDonalds e, tipo… sonhando ou não com um mundo melhor mas, tipo, eu vejo que ultimamente a manifestação das minas tem sido mais efetiva, e um bagulho que eu acho que foi o maior avanço foi as minas pararem de dizer que são minas e começarem a fazer música como MC, tá ligado? Não é tipo: “ah, eu sou uma mina, preciso de espaço, porque falta hip-hop feminino”. Não, foda-se essa ideia aí, tio. Vai chorar pro bispo. O barato é tipo “Foda-se. Se esses malucos não abrirem as portas, a gente vai derrubar”. Acho que é isso que as minas tem que ter na intenção delas ali, o bagulho de chegar como se tivesse pedindo um favor é foda, eu sou contra essa parada aí também. Acho que as minas têm que meter o pé no bagulho e mandar todo mundo tomar no cu, se foder. E fazer a música delas.

Algumas horas depois, o som comeu solto no Estúdio Emme, começando com a discotecagem nervosa de KL Jay e DJ Marco. Os DJs Ksalaam e Nyack completaram o time, que teve os três tenores do rap se apresentando de smoking e sapatos brancos. Teve espaço até pra comemorar o aniversário do Emicida, que completava 26 anos de idade. Enfim, uma noite memorável.

Contribuições fotográficas são creditadas à Raquel Santos.