Entrevista: Holger

“Sabe o que eu descobri ultimamente?” Foi essa a deixa para que Marcelo Pata, um dos Holger, soltasse o som do Luiz Caldas no computador que fazia a trilha sonora do papo. Quase esquecido nos dias de hoje, Luiz já carregou o título de Rei do Axé, foi uma das grandes figuras do mainstream brasileiro nos anos 80 e é defendido pelo Holger a todo o momento – “Se ele cantasse em inglês, estaria rico agora”.

Quanto mais o papo andava, maior ficava a lista de novas descobertas da banda – em alguns momentos, o shuffle do iTunes chegou a sortear hits de Claudinho e Bochecha e Magnatas do Forró. “Hoje em dia a gente tem segurança pra ouvir isso e falar: ‘Mano, isso é bom!’”. Realmente, não é difícil reparar que a banda abriu seus horizontes entre o EP The Green Valley, de 2008, e o recém-lançado Sunga, primeiro álbum dos paulistanos. Saindo pela Trama, o disco transformou a atmosfera folk-rock (ou quase isso) do Holger em um ambiente em que vcoders, auto-tune, sintetizadores e percussões são sempre bem-vindos.

Se dá para chamar isso de maturidade musical? Arhur, Pata, Pedro, Rolla e Tché parecem ser mais moleques do que nunca: “Nosso show é o mais próximo possível de uma micareta”. Dirigido por Tché com a produtora onde trabalha, o clipe de “Let’em Shine Below” é um bom retrato da vibe CURTIÇÃO que os caras tentam querem expressar – até dá para sacar um “Carpe Diem” aparecendo em uma das sobreposições. A proximidade dos integrantes é tão notável que é quase impossível separar as falas na hora da transcrição da conversa – não é só uma vez que eles se atropelam na hora de conversar e completam o pensamento um do outro, exceto quando as ideias acabam se divergindo.

Com um novo momento da carreira começando, o Holger parece não saber o que esperar para os próximos meses – além de torcer, é claro, para que os drinks de melancia e as tardes em Ilhabela não acabem tão cedo.

Da esquerda para a direita: Pata, Pedro, Arthur, Tché e Rolla – Foto: Daigo Oliva

Como foi a semana de preparação para o show de lançamento do Sunga?

Pedro: A gente ensaiou bastante, principalmente as músicas que ainda não tinham sido tocadas ao vivo ou que não tinham ficado muito legais quando tocamos. Tem algumas do Sunga que a gente não costuma tocar, tipo “Eagle”.

As músicas do Green Valley ainda rolam nos shows?

Ultimamente a gente tá com uma política de tocar mais músicas do EP nos lugares em que nunca fomos, mesmo porque o Green Valley é o registro que a maioria das pessoas tem do Holger até hoje. Quando a gente foi tocar em Uberlândia agora, a gente se preocupou em tocar “The Auction”, que foi a música mais bem divulgada.

Vocês chegaram a adaptar as músicas do EP pra pegada do Sunga?

Não exatamente, mas sempre tem uma ou outra mudança  quando você toca a música muitas vezes. Olhando só dentro do Sunga, já dá pra ver que algumas são tocadas um pouco diferentes. Em algumas músicas o baixo fica diferente do que a gente gravou, as guitarrinhas também mudam um pouco… Já falaram pra gente que é tipo um efeito Led Zeppelin: ao vivo é uma coisa, em estúdio é outra. A gente acredita bastante nisso. Quando gravamos o disco, a gente colocou sete camadas de voz e pensou:“Ddepois a gente se vira pra fazer ao vivo”.

O Roger (Paul Mason, produtor do disco) também colocou muita coisa que a gente nem imaginava. Tipo, tem um teclado de “No Brakes” que a gente ainda nem tirou e é uma parte importante, que a gente conseguiria fazer ao vivo. O grande lance é que o disco ainda não tava pronto fisicamente no dia do show, infelizmente.

Ele sai via Álbum Virtual?

Também. Nosso contrato com a Trama é de disco físico e Álbum Virtual.

Qual é a previsão pro físico sair?

ERA 11 de setembro (risos). Na real, o problema foi o seguinte: a gente não sabia que existia uma burocracia gigante pra fazer todas as merdas que precisa fazer. Você precisa gerar um código pra cada música, resolver lance de direito autoral, daí todo mundo tem que se inscrever pra ser autor das faixas e tal… uma porrada de burocracias, tudo bosta. A gente achou que a Trama fosse fazer e que seria mais rápido. De qualquer forma, até tudo isso ser resolvido a gente vai ter as músicas no MySpace e em streaming, mas ainda não vão estar disponíveis pra download.

Mesmo assim, teve que rolar a cerimônia de lançamento pra comemorar que o ciclo se completou. Andei pensando muito nisso ultimamente: é como se tudo que fizemos desde antes do Green Valley até às músicas novas fosse uma grande preparação pra gente começar de verdade o Holger a partir do lançamento do Sunga. Por mais que o disco não esteja pronto, marca o fim de um ciclo e o começo de um outro, em que a gente está mais afirmado musicalmente.

Também é importante pra gente definitivamente deixar o Green Valley pra trás. Não que a gente nunca vá tocar ele de novo ou que a gente não goste, mas tem que rolar esse passo pra frente.

Ficou alguma birra com ele? Porque é como se o Holger tivesse virado uma outra banda de lá pra cá…

É verdade, é uma outra banda. A gente gosta muito mais das músicas do Sunga do que as do Green Valley e provavelmente vamos ficar cansados das músicas do Sunga quando gravarmos outras.

Show de Lançamento do Sunga no Estúdio Emme – Foto: Ariel Martini

Como o Holger folk-rock se transformou no Holger afro-pop? Aliás, vocês usam esse termo?

Pata: Dá primeira vez que usaram “afro-pop” a gente falou: “ah, beleza, tá legal”. Mas o negócio de enquadrar em nomes é uma necessidade completamente adolescente…

É uma necessidade jornalística, acho.

Pedro: Não acho que seja adolescente. Tem que ter alguma coisa pra chamar, né…

Então, mas acho que o grande lance é que o Green Valley tornou todo mundo mais próximo musicalmente e todo mundo se sentiu mais aberto pra colocar as influências que quisesse. O Green Valley foi muito bom pra gente começar… Foi quando a gente entrou em estúdio e se viu como uma banda de verdade. Na mesma época a gente começou a fazer show e tal. E, assim, é engraçado que as primeiras músicas que a gente fez do Sunga, “No Brakes” e “Toothless Turtles”, ainda tem o pé bastante no Green Valley em termos de guitarra distorcida e tal… Além de tudo, a gente incorporou os synths. O Arthur comprou um, o Marcelo comprou outro e a gente ficou brincando, daí agora acabou que eles são fundamentais nas músicas.

O que vocês ouviram pra moldar o estilo de Sunga?

Tudo. Absolutamente tudo. A gente abriu bastante a cabeça de lá pra cá. Hoje em dia a gente tem segurança pra ouvir Claudinho e Buchecha e falar: “Mano, isso é bom!”. A gente não tinha isso antes. Em toda a nossa vida e formação musical a gente já vinha ouvindo muita coisa diferente, mas não rolava toda essa abrangência que a gente foi adquirindo com o tempo. O colegial é tipo uma época em que você conhece tudo o que é antigo e que você tem que conhecer. Quando acabou essa fase eu comecei a ouvir mais coisa nova e, depois disso, eu comecei ouvir coisas velhas com outra pegada e fui me abrindo. Chegou um momento em que eu descobri quão bacana era o rap. Música eletrônica e brasileira demoraram mais tempo pra entrar, aí depois vieram as referências caribenhas e africanas

O que também fez a gente começar a liberar todas as nossas influências no Holger foi ir pro SXSW e ver que tinham várias bandas fazendo isso e que era legal pra caralho. Várias coisas bem diferentes entre si, mas que queriam dizer alguma coisa. De certa forma, foi menos o que a gente ouviu de novo e mais do que a gente descobriu que podia usar.

Sobre diferença de sonoridade de banda, eu lembro que vocês comentaram na entrevista do IM//UR que faltam grupos como o Holger no Brasil, que combinem com o som de vocês…

Tem alguns pontos nessa entrevista que ficaram um pouco ambíguos. Quando a gente fala que não tem nenhuma banda como o Holger, é que musicalmente a gente não vê nenhuma banda parecida para que a gente possa dizer que haja uma cena em que o Holger se encaixe perfeitamente. Não é questão de melhor e pior.

E como rolam os shows conjuntos?

A gente já viveu várias experiências com bandas de abertura. Bandas MUITO ruins, shows de uma hora e meia… Em Mogi, uma vez, a gente tocou com outras três bandas. A primeira fez um set de uma hora e quarenta minutos, isso não é legal… A gente quer curtir a vibe, curtir o rolê. E que os shows sejam legais.

Uma vez teve um tweet dessa menina que falava: “Esses Holger são mó nojo, não querem ninguém abrindo pra eles, bando de metido do caralho”. E é lógico que a gente quer! A gente quer o Black Drawing Chalks, a gente quer o Hellbenders… independente do estilo, a gente amaria tocar com eles, com Garotas Suecas, The Name, Wannabe Jalva, Copacabana Club… Temos que pensar no público, também. Não vamos botar uma banda que nem a gente goste pra abrir, até porque também somos público e queremos ver os shows.

Cada vez mais estamos conectando o Holger só com as coisas em que a gente acredita. A arte do disco foi uma amiga nossa que fez, a camiseta é com um cara que é amigo. É tipo você vir aqui pra fazer entrevista com a gente na casa de uma amiga nossa, saca?

O Sunga é sobre isso, de certa forma.

Uma vez me falaram que a grande dificuldade que as bandas tem pra fazer um segundo disco é que, no primeiro, sempre se fala sobre a vida delas, o background e tal. No segundo elas passam todo o período de criação na estrada e aí não tem muita coisa pra falar. O Sunga é bem isso, ele fala da nossa vida, e nossas vidas são bem parecidas com as vidas das outras pessoas. É um disco sobre quem a gente é.

Uma vez vocês falaram sobre lançar um EP com outras bandas tocando as músicas do Sunga.

A gente ainda não sabe se vamos liberar as músicas soltas ou se vai sair como um EP, na verdade. Até agora, quatro bandas confirmaram: Black Drawing Chalks, Copacabana Club, Wannabe Jalva e Homemmade Blockbuster.

Holger na Casa do Mancha – Foto: Fernanda Cirelli

O que aconteceu com o Pata & The Maxi Mazels?

Rolla: A verdade é que as vezes a gente reprime muito o Marcelo e ele não gosta disso.

Pata: Tem várias paradas diferentes que eu sempre tive vontade de fazer. Em janeiro e julho eu fiz só cover. Todas as coisas que eu escrevia eu acabava levando pro Holger, já que o foco era fazer as músicas que iam pro Sunga. O que eu queria fazer com os Maxi Mazels era juntar uns amigos e experimentar tocar com pessoas diferentes. O Pedro foi o único Holger que fez parte, além de mim, e em janeiro participaram comigo o Summer Feelings (Goos, DW e Diesel). Eu queria ter umas quatro músicas pra poder lançar um EP autoral, talvez isso role um dia…

Os Maxi Mazels são os drinks da Neu, né?

Agora são! Na verdade, o lance do Mazel é que no ano passado a gente teve uma piração muito grande com o mazel tov e com judaismo, então a gente brincava com isso. Maxi Mazel também é uma gíria nossa… É uma coisa muito legal, ultra vibe. Tipo, Mazel Tov são três letras em hebraico e cada letra quer dizer uma coisa: sorte, trabalho e oportunidade. É um ensinamento muito legal. Você depende muito dessas coisas pra fazer música, estar no lugar certo e na hora certa. Tipo aquele documentário do Anvil, uma banda de metal dos anos 80 que tinha tudo pra ser gigante. Eles participaram de um festival fudido na época em que todas as bandas vingaram, menos eles. O nosso lance foi de sorte, de trabalhar por aquilo que a gente queria. O Tiger Woods tem uma frase boa, até: “Quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”. Ele tem outro ensinamento bom, também: “Quanto mais grana eu tenho, mais mina eu como” (risos).

E, voltando à Neu, vocês parecem ter uma puta ligação com aquele lugar.

Sim, total! O Dago (Donato, um dos donos) é nosso amigo há muito tempo e agora também é nosso produtor. O Pata conheceu ele numa parada de intercâmbio cultural, daí ele resolveu apostar na gente. Tinhamos uns 14 anos e ouvíamos Radiohead, aí ele veio mostrar cinco bandas: Godspeed You! Black Emperor, Flaming Lips, Pavement, Mogwai e Sebadoh. Foi quando entramos nessa. Depois de um tempo, de 2003 em diante, a gente teve uma banda de post-rock, o Projeto: (lê-se Projeto Dois Pontos), com a Irina, do Garotas Suecas. Foi aí que entramos pra esse meio alternativo de São Paulo, tocávamos no Generics, no Milo, na Peligro…

O Dago e o Gui (Barella, da extinta festa Peligro, que segue como uma revendedora de CDs) são dois exemplos de caras que, além de amigos, ensinaram tudo que a gente sabe sobre música e mercado. São nossos mentores. É por isso que a gente se sente parte da Neu hoje, vimos o lugar abrindo. Temos os lugares em que nos identificamos mais, que nem o Thiago Pethit se identifica com o Studio SP.

Além de vocês, do Dago e do Gui Barella, quem é o Holger hoje?

Tem o Gui Jesus, que gravou o nosso disco com o Roger e com o Bernardo (Pacheco, guitarrista do Elma e engenheiro de som do Sunga), que além de ser mega amigo é um técnico de som foda, com um puta futuro pela frente. Ele é o único cara que não toca na banda e aparece no clipe de “Let’em Shine Below”. Também tem o Titi (Thiago Picolli), que contratou um show nosso lá no Sul, nos tratou como reis e daí acabamos chamando ele pra ser nosso tour manager. Indiretamente ainda tem muito mais gente envolvida: a Ju Baratieri, de Floripa, o Fredão, a Giral, Pedro K, o pessoal que acompanha de perto os shows…

E o Roger foi um dos maiores responsáveis pelo Sunga ter ficado do jeito que ficou, né?

Sim, certeza! Um dia desses a gente tava trocando email com ele e ele escreveu: “A gente tem que se encontrar quando vocês vierem pra cá! Eu devo alguns bons momentos a vocês”. Foi foda, porque ele veio aqui ficar com a gente e tal.

Quanto tempo ele ficou aqui?

Uma semana? Três? Um mês? Foram cinco semanas, se bobear. (Uma longa discussão se segue sobre o assunto). O legal do Holger é isso: a gente sempre acaba gerando uma discussão (risos). Uma das melhores respostas que a gente já deu pra uma entrevista – e era uma entrevista da gente com a gente mesmo, o que é melhor – foi quando o Tché falou que não temos estabilidade mental e emocional pra manter essa banda.

Roger Paul Mason e Pedro no Carnaval desse ano, na Neu

Como vocês encaram essa coisa de trabalhar com pessoas de fora, que tem uma visão completamente diferente de tudo?

É exatamente isso que a gente quer, foi por isso que chamamos o Roger. Acaba rolando um pouco de dificuldade pra deixar pessoas novas participarem do nosso som, mas o Roger sacou isso e deixou a gente gravar do jeito que a gente quiser, daí depois ele começou a mexer nas coisas. Ele foi esperto pra caralho, soube usar o nosso som pra trabalhar da maneira que ele queria.

Rola uma dificuldade pra aceitar essas interferências externas, mas a gente sabe que elas são necessárias. Como toda banda, a gente fica muito viciado nas nossas músicas. Tem gente que consegue parar e produzir suas próprias composições, descontruir e tal, mas acho que a gente não conseguiria. O problema é que somos cinco cabeças que pensam igual e com peso igual. Várias bandas funcionam muito diferente, cada integrante faz uma parte e depois juntam tudo, mas o Holger são cinco caras que tocam de tudo e, por isso, rola muito palpite de um na música do outro. Isso é o melhor, porque todo mundo se sente confortável com o resultado final. Não são as mil maravilhas, mas vale a pena no final, como qualquer trampo. Mas, voltando, a gente não tem estabilidade mental e emocional… (risos)

Agora vocês tem essa equipe quase fechada pra trabalhar com o Holger, com pessoas certas e que fazem um bom trabalho. Mas, até chegarem nisso, vocês passaram por alguns problemas…

A gente não gosta de falar mal das pessoas, aqui é só good vibe. A gente aprendeu muito na vida… Mas é isso, cara, tudo é feito de acertos e erros. Com todas essas histórias a gente aprendeu um milhão de vezes mais do que a gente perdeu. Encaramos desse ponto de vista. Pelo menos fomos espertos o suficiente de saber a hora de parar.

Vocês sabem que o Sunga vazou quase duas semanas antes do lançamento?

Que da hora! Acho mó legal ele ter vazado, cara. Também já baixei disco no Soulseek, tá tudo certo!

Quando eu ouvi da primeira vez, achei engraçado “Eagle” ter saído com tanto auto-tune (ou era vcoder?) justamente na época em que tão bombando com o efeito no YouTube.

É auto-tune E vcoder! Usamos em todas as músicas. “Geneçambique” também tem bastante. Ela a gente não vai tocar nos shows.

Por que?

A gente não consegue tocar. Ela foi feita no estúdio. Estávamos  fechando as músicas do disco e faltavam só uma ou duas faixas, daí a gente falou: “Vamos brisar?” Gravamos a base e começamos a pirar em cima dela, fomos acrescentando um monte de coisa… Quando fizemos as vozes a gente nem pensou em afinação. Saímos gritando só pra ver no que ia dá, daí ficou uma merda! Aí o Roger botou o auto-tune no talo e encaixou na hora.

Arthur: Pra mim é uma das melhores músicas do disco.

Quais são as favoritas?

Tché: A minha favorita é “Beaver”.

Pedro: Pra mim, a melhor do disco em termos de música pop é “Let’em Shine Below”, com certeza.

Escolhemos ela pra ser single não por ser favorita de alguém, mas é que ela tinha um pouquinho de tudo que tinha no disco, porque foi uma das últimas que fizemos. Parece que todas as últimas músicas que você faz são as melhores. A gente ouviu tanto o disco que isso sempre acaba gerando uma puta discussão.

Pedro: E tem uma coisa muito engraçada, sem modéstia: eu gosto MUITO do Sunga, cara. As vezes eu entro no carro e quero escutar alguma coisa legal, daí eu escolho ele.

Rolla: Cara, eu acho muito chato, eu não escuto. Desde que a gente terminou todo o processo, eu ouvi umas dez vezes e parei.

Pata: Nossa idéia em gravar esse disco era fazer que nem uma foto: registrar um momento nosso muito bacana e fazer o melhor disso, uma coisa que a gente possa deixar guardada. O intuito nunca foi comercial.

Rolla: Eu vejo o clipe muito assim. O clipe é um álbum, uma memória muito forte de uma fase das nossas vidas. Eu vou poder, sei lá, trabalhar no banco com 50 anos e ter aquilo pra mostrar.

Frame de “Let’em Shine Below”

O que se perde e o que se ganha por estar na Trama?

Acho que a gente não perde nada. Assim… Se for pensar que a gente vai ganhar menos em cima dos discos do que a gente poderia ganhar, a gente perde um pouco de dinheiro, mas com um selo nós vamos poder vender muito mais.

Fizemos o disco com o dinheiro que a gente conseguiu juntar. Pagamos tudo. A gente arriscou muito, cara. A gente trouxe o Roger, pagou passagem, hospedou o cara sem saber  quem ele era e o que ele ia fazer. O cara podia só fazer merda.

Então a Trama fez uma proposta em que a gente não ia gastar nada com prensagem, por exemplo, que era mais uma puta grana que teríamos que invstir. Fora isso, a Trama ainda tem uma assessoria de imprensa e toda uma equipe, tem esse nosso passado com a gravadora… A vibe deles é muito boa, ficamos muito satisfeitos com os termos que a gente assinou.

Vocês liberaram “Let’em Shine Below” e o mashup do André Paste pra ela pra download antes do lançamento do disco, que é uma coisa que talvez vocês não poderiam fazer se tivessem assinado antes.

Poderíamos. A gente tem um vínculo simbiótico com a Trama, temos liberdade lá. Não somos dependentes deles, a Trama não paga viagem pra gente… É um contrato justo, vamos ganhar o que o disco vender. Podemos lançar por outro selo fora do Brasil mesmo estando com eles, o que é muito importante. Não ficamos com rabo preso. Fora que esse lance de ter o disco físico é muito legal… Você pode colar numa FNAC qualquer e ver o disco lá.

Ter uma gravadora do tamanho da Trama é o primeiro passo pra entrar de cabeça no mainstream. O Holger tem potencial mainstream?

Pedro: Eu acho que sim, cara.

Rolla: Você diz sobre tocar num festival de, sei lá, Guarapiranga e encher o lugar? Acho que não…

Pata: Só lembrando que nosso objetivo não é ser mainstream, não é ser alternativo, é simplesmente fazer o que a gente gosta e tocar. Se isso tá indo pra um lado mais mainstream pela audiência, acho muito bacana porque pessoas diferentes estão conseguindo chegar no que queremos mostrar.

Rolla: A idéia de fazer música é conseguir chegar no máximo de pessoas que você conseguir, saca? Quanto mais gente ouvir, mais foda.

Tché: E potencial mainstream pode ser qualquer coisa, também. Eu lembro que teve uma novela que tocou Peter Bjorn and John, que era do ciclo indie e foi parar na Globo. As vezes alguma música nossa pode ter esse alcance…

Rolla: Quem sabe se a gente tocar na Copa do Brasil?

Pata: Nessa semana a “Let’em Shine Below” saiu no blog da Eliana. A gente colocou isso no twitter e teve uma banda aí que deu RT e falou: “Mas isso é bom ou ruim?”. É bom pra caralho, não tem nada de ruim nisso.

Nesse post da Eliana tinha esse comentário muito engraçado, inclusive, de uma menina falando “Ai, gostei mais ou menos… é um clipe com um apelo bem gay, né? Eles são gays?”

É por esse tipo de comentário que a gente tem a banda. O clipe é meio gay, vai, tudo bem. É o nosso bromance: a gente se ama, mas a gente não se come (risos). Pouca gente tem a oportunidade de trabalhar com seus melhores amigos. É um casamento e a banda só existe por causa dessa amizade. Quando a gente começou a fazer turnê, uma das primeiras coisas que ensinaram pra gente é que banda é amor, cara. Tem que ir no banheiro junto… E você vive brigando, porque a convivência é difícil mesmo, mas no fundo vocês se amam. O cara tá com caganeira? Po, tudo bem, vou ajudar ele. Daí passa Hipoglós… (Risos)

O legal é que, apesar desse comentário, a galera lá parece ter recebido muito bem o clipe. Tinham vários comentários positivos…

É, total. É claro que tudo que a Eliana botar lá a galera vai falar bem, mas não rolou muito estranhamento. Não é tipo no Lúcio, que a galera nem conhece a banda, não lê o post e já chega metendo o pau. Porra, não tem um post com comentário bom lá! A galera fala: “Porra, Lúcio, tá aceitando dinheiro desses caras?” Uma vez falaram que a banda só tava lá porque tinha um ex-integrante do Cansei de Ser Sexy e tipo, não tem isso. Quando o Pedro trabalhava na Trama, falavam que só escreviam sobre a gente lá porque o Pedro tava lá. Daqui a pouco aparece alguém pra falar que o nosso clipe só passa na MTV porque o Pedro começou a trabalhar lá… Ter contato ajuda, é verdade, mas não é bem assim.

Quais bandas vocês acham que tem potencial pra estourar no Brasil?

A gente vê o Garotas Suecas com muito potencial pra chegar num nível Móveis. Mas eles foram sumindo aqui a partir do momento em que começaram a fazer sucesso fora… O Do Amor não faz tanto show e os caras são músicos de verdade, então é outra história. O Nevilton, se ele lançar um disco cheio. O Black Drawing pode muito virar um Forgotten Boys da vida.

E agora vocês vão tocar no Planeta Terra. O que vocês acham que muda no Holger depois do festival?

Eu acho bem possível que tenha uma pá de menininha que vai no Terra ver o Phoenix e que acabe achando o Holger legal. A gente já tá vendo isso acontecer nos shows, cara. Sempre tem umas meninas que vão sem conhecer e que acabam curtindo. Tá começando a aparecer um público feminino muito grande e umas meninas fazendo coisas radicais… (risos)

Lembro que rolou essa história do topless em Campinas, né?

Em Campinas e agora em Uberlândia! O Marcelo foi atacado. Em Campinas a gente deu uma entrevista falando que, se não rolasse topless, seria uma prova de que o disco não ficou bom. Em Uberlândia a gente nem falou nada, mas uma menina subiu no palco e tirou a roupa. E o mais bizarro é que eu tenho quase certeza que ela não conhecia o Holger e nunca tinha ouvido falar nessa história de topless, mas se sentiu a vontade pra fazer isso lá. O Roger falou pra gente uma vez que o segredo do sucesso é atrair as meninas e os gays. Uma vez um amigo nosso falou: “Po, legal, o show de vocês é tipo cobrança de penalti, nunca sai zero a zero”. O nosso show é o mais próximo possível de uma micareta. Eu me orgulho muito dessa parte, rola muita pegação, meninas dançando bastante na frente da palco… Antes, na época do Green Valley, só iam uns barbudos que ficavam de braços cruzados balançando a cabeça. Os barbudos continuam lá, a diferença é que agora eles pegam mulher.

Frame de “Let’em Shine Below”

O que mais vocês querem ver no Terra?

Pavement! A gente tem uma história bonita, mas todo mundo acha que é mentira. Quando a gente tava gravando o Green Valley, começaram os rumores de que o Pavement ia voltar. E lá no meio da gravação, quando comentaram sobre isso, alguém falou: “Mano, um dia a gente vai tocar com o Pavement”. E porra, sinistro. Daí rolou um rumor de que o Pavement ia no Terra… Além deles, tem várias coisas que a gente quer ver: o Hot Chip, que todo mundo aqui é fã, o Yeasayer, o Passion Pit, que fez parte da transformação do Holger… Mas o Pavement vai ser muito especial.

E aí, antes do Terra, vocês tocam em um outro puta festival, o Pop Montreal.

Que é na cidade mais legal do mundo. Vai pra Montreal, cara! A gente pretende tocar lá e no SWSW todo ano. Vai ser ótimo ir de novo. Conhecemos os caras que fazem o festival e eles gostam da gente. Apostaram e deu certo. A primeira vez que tocamos lá foi uma prova disso, a receptividade do público foi muito foda. O legal é que mais uma vez vai rolar um puta show legal. Da primeira vez foi com o Matt & Kim e o Ninjasonik, daí agora é com o Les Savy Fav. Com certeza vai ser um show cheio, com muita gente vendo, e isso é muito importante. No ano passado a gente chegou a ser reconhecido na rua! Saímos na Paste como a maior descoberta do primeiro dia de Pop Montreal.

Vão ser mais seis shows na América do Norte, certo?

Antes de ir pra Montreal vamos tocar em Nova York, vão ser uns três ou quatro shows lá. Depois a gente vai pra Boston, Massachusetts, Toronto e Montreal. Seguimos mais ou menos o planejamento que Kassin, Copacabana Club e Garotas Suecas fizeram, que é tentar focar mais em Nova York. É mais um jeito Holger de fazer as coisas. A gente entrou em contato com todas essas bandas que fizeram turnê lá e todo mundo ajudou, mandaram mil emails com dicas. O Kassin principalmente. A gente deve essa tour a ele.

Vamos tocar com o Garotas em Nova York. Vai ser demais. A gente se encontrou numa festinha de um cara que trabalha na Neu e eles estavam super animados, a gente também. Somos amigos há muito tempo… A Irina tocava com a gente no Projeto:. Tocando com eles o Holger tem público garantido, talvez eles sejam maiores lá fora do que aqui no Brasil. É incrível como aqui as pessoas não olham pra eles como eles merecem. Ainda não ouvi o disco novo, mas não tenho a menor dúvida de que esse seja um dos melhores discos já feitos no Brasil. O que é bom e ruim, já que a gente tá lançando com eles e com o Do Amor… (risos)

Aliás, o Do Amor é uma banda que a gente tem que ter mais contato. Não sei nem o nome deles, mas acho eles uns dos melhores músicos do Brasil de longe. Uma vez em Cuiabá rolou uma conexão, até. Teve uma coletiva de imprensa num aquário no meio do público e eles apareceram quando a gente tava falando, disseram que o show foi foda e tal. Chegamos de manhã no hotel que estávamos e o lugar era foda, tinha até um tobogã em forma de cobra, tudo meio temático… Aí a gente tava lá e todas as bandas de bermuda, só a gente usando sunga. E aí chegou um cara do Do Amor de Sunga, cara! Fui lá falar com ele! (risos)

Como vocês imaginam o Holger seis meses depois do lançamento do Sunga?

Pedro: Vou falar do ponto de vista de outra pessoa, mas que eu compartilho. Ah, eu sempre essa história, não vou contar de novo…

Pata: Conta! Que história é, pelo menos?

Pedro: Agora eu esqueci, mano! O que você perguntou mesmo? Ah, sim. Eu não sei como vamos estar daqui a seis meses e tenho um pouco de medo, minha chefe também. Tinha um show pra gente fazer em uma data específica, dia de semana, daí eu fui falar com ela. Ela ficou puta, brigou… Aí depois do momento de fúria a gente tava na padaria do lado e ela falou que tava com muito medo do lançamento do disco. Eu entendo o lado dela, ainda vai ter que me liberar mil vezes… mas aí eu parei pra pensar e fiquei “Caralho, mano, se pá realmente esse disco pode ser um divisor de águas muito grande”. Fico sem saber o que esperar. Não sei se a gente vai virar um Móveis, um Skank ou se a gente não vai virar porra nenhuma.

  • Que entrevista genial, Alex!
    Seu pós-adolescente brilhante…hehehe.

    E o Holger é uma grande banda até para entrevistas – algo muito importante e subestimado pelos grupos, aliás.

  • Priscila

    Muito legal a entrevista, já tinha assistido o clipe de “Let’em Shine Below” e adorei!
    Gostei da visão da banda de não “subestimar” o mainstream. Quanto mais pessoas tiverem acesso a música de qualidade melhor!
    Vou ver a banda no planeta terra, só não vai rolar coisas radicais, heheeh

  • Belíssima entrevista.

  • Grande trabalho dos entrevistados e do entrevistador. Parabéns!

  • Adorei a entrevista, muuuito legal. Esses meninos são incrivéis, a melhor coisa que eu fiz esse ano foi insistir pra fazer esse show aqui em Floripa.

  • Scarlat

    Eu ainda não consegui ir em nenhum show mas so pelos vídeos que eu vi, já da pra imaginar a fanfarronice que deve ser! Eu definitivamente elegi a Let’em Shine Below como a música good vibe do ano, não tem como não ser. E quanto aos shows é uma pena que exista pessoas que ficam em frente do palco de braço cruzado, não só em show nacional como também internacional, pessoal so fica la olhando, todo frescurento, fazendo pose e com camera na mão, qual a graça de vc so ficar la tirando a merda da foto e não curtir porra nenhuma do show? so pra falar que foi? wtf!? Ta certo eles e as meninas de fazerem um puta carnaval em cada show, tem que ser assim mesmo, curtição sempre!

  • Ana

    ~curtir~

    ficou foda, alex. muito.

  • Henrique

    Cara, muito boa a entrevista!
    Pegou um clima legal com a banda e perguntou tudo que queria saber!
    Parabéns!

  • Victor

    Muito legal. Sunga é um dos grandes de 2010.

  • Paola

    Muito boa, só não gostei que pretendem tocar cada vez menos Green Valley nos shows, adoro The Auction! hahaha
    Sunga ficou demais, a criatividade dos caras é uma coisa impressionante, espero que não esgote…

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