Entrevista – John Ulhoa (Pato Fu)

O Pato Fu surpreendeu o público e a crítica com o álbum Música de Brinquedo, de 2010. Totalmente gravado com instrumentos de brinquedo ou em miniatura, o disco foi um sucesso de vendas. A banda saiu em turnê com todas essas traquitanas  e acaba de lançar um registro do show, o álbum Música de Brinquedo Ao Vivo. Conversamos com o guitarrista John Ulhoa que, além de ser o principal compositor do Pato Fu, também é o produtor dos álbuns da banda.

Move That Jukebox: Quando vocês gravaram o MTV Ao Vivo, quase todos os arranjos foram refeitos, e quatro músicas inéditas foram incluídas no repertório. Com o Música de Brinquedo Ao Vivo foi diferente, pois a gravação foi um retrato fiel dos shows da turnê. Qual foi a motivação para gravar os novos CD e DVD ao vivo?

John Ulhoa: O MTV Ao Vivo é aquele tipo de registro ao vivo especialmente ensaiado e montado pra ser gravado, pra virar um disco de carreira, com “musica de trabalho”, etc… É como são feitos a maioria dos disco ao vivo hoje em dia. O Música de Brinquedo Ao Vivo é feito no estilo mais “old school”: um registro de uma turnê no seu auge. Eu gosto muito mais assim. Não sou um grande fã de discos ao vivo, mas acho que eles fazem mais sentido desse jeito. No caso desse disco, o aspecto visual é muito forte. Assim que fizemos os primeiros shows percebemos que era quase que uma obrigação nossa fazer um DVD, não podíamos deixar passar. E realmente não fizemos nada de diferente, mostramos o show como ele é. Ele já é bizarro o suficiente.

MTJ: As plateias dos shows do Música de Brinquedo sempre estavam repletas de crianças, com seus pais. Como você sente a mudança do público do Pato Fu?

John: É engraçado, porque dependendo do horário e local, praticamente só vão adultos! O que prova que realmente dessa vez bagunçamos o coreto… Percebemos também que estamos atraindo um tanto de músicos curiosos com o aspecto técnico do show. De toda forma, tocar pra essa platéia misturada de todas as idades é muito bom, o clima é muito feliz. E ao mesmo tempo continuamos fazendo nossos shows “adultos” normais também. Acho que agora estamos atingindo uma geração anterior à nossa, e umas duas gerações posteriores!

MTJ: Quais foram as principais dificuldades e desafios de sair em turnê com instrumentos de brinquedo ou em miniatura?

John: Eles se quebram, param de funcionar do nada, disparam na hora errada… Além de serem mesmo difíceis de se tocar. E também de se captar o som, pois têm um volume muito baixo. Fizemos um monte de gambiarras e testes com microfones pra aprender como fazer isso, e o resultado é espetacular, pois o que estes instrumentos têm de deficiência, eles têm em dobro em personalidade. E ao mesmo tempo, é um show que tem uma tolerância maior ao erro e à desafinação, não precisa ser perfeito, afinal é uma turnê de brinquedo. Mas quase toda passagem de som tem brinquedo sendo consertado…

MTJ: O padman não aparece desde a turnê Televisão de Cachorro, e ele seria um instrumento interessante para os shows do “Música de Brinquedo”. O padman está de férias ou foi aposentado definitivamente? (Nota: o padman era uma espécie de bateria eletrônica acoplada ao corpo do usuário, que John tocava nos shows do Pato Fu antigamente. Você pode conferir um vídeo com o “instrumento” no Youtube).

John: Ah, eu teria que remontá-lo, já virou sucata. É um treco relativamente simples, mas envolve uma parte eletrônica, triggers, módulos de som… coisas que não usamos no Música de Brinquedo – prefiro as coisas que funcionem “na mão”, e não coisas que tem que ser ligadas a algo “invisível”, entende? Você tem que ver de onde vem o som.

MTJ: Quando quase ninguém sabia o que era MP3, o Pato Fu já disponibilizava algumas canções gratuitamente em seu website. Hoje o download pago representa uma parcela relativamente significativa das vendas de música no mundo. Qual é a importância do lançamento de um CD físico para a banda e para o mercado nos dias de hoje?

John: Em primeiro lugar, um álbum é o sonho de consumo das bandas. Ainda é. Todo mundo quer fazer a capa, aquele conjunto de músicas e tal… E lançar aquilo num momento “chave”. Por isso as bandas continuam gravando CDs. O problema está em vender o danado. O Música de Brinquedo foi “Disco de Ouro” (mais de 40.000 cópias vendidas), um verdadeiro feito heróico nos dias de hoje. Acho que é porque ele é um bom presente. Tem uma capinha especial, e é o tipo do disco que vc quer dar pra pais e crianças, e não mandar um link pra baixar. Mas é claro que ele é baixado por aí, e também vendido por download pago. O fato é que pra um disco físico hoje em dia vender razoavelmente ele tem que gerar uma relevância que é difícil ser atingida por um lançamento comum de uma banda. E ao mesmo tempo, o download pago no Brasil é, com todo respeito, uma migalha. E se a venda de CD também é, então como ficamos? A conta tá lá, pendurada. “Façam shows”, dizem alguns. Só que show é OUTRO negócio. Se eu for recomendar às bandas novas que “façam shows pra ganhar grana”, vou tomar pedrada, elas estão é ralando pra tocar em festivais tomando o mínimo de prejuízo possivel. A vida é dura pra quem tá começando agora. Nesses tempos de oba-oba da musica grátis, tudo é muito divertido, é ótimo ficar contando views no YouTube, mas sair do amadorismo e transformar um trabalho autoral em profissão é tarefa inglória.

MTJ: Poucas bandas circulam naturalmente entre o indie e o mainstream como o Pato Fu (que teve seu primeiro álbum lançado por uma gravadora de metal, diga-se de passagem). Hora classificado como pop, hora como rock, eventualmente ainda aparece na seção infantil das lojas de discos. Diferentes rótulos incomodam?

Não é a melhor opção comercial, mas não sabemos fazer de outro jeito, não é uma opção. E agora piorou, estamos bagunçando as idades também!!

MTJ: A cada álbum o Pato Fu se reinventa, e nenhum disco soa como um dos anteriores. O que podemos esperar do próximo trabalho de inéditas da banda?

John: Já tenho composições e umas pré-produções mas sem data marcada ainda. Veremos, a gente tomou gosto por lançar um disco só quando achamos que temos algo interessante pra mostrar, sem pressa. E tenho idéias de maneiras diferentes de gravar, tomara que se realizem.

Fotos por Gabi Lima

  • André Jacob

    É por isso q sempre acompanhei o Pato Fu. Uma banda diferente das outras e com muita criatividade e qualidade musical. Continuem assim, John.